sábado, 20 de dezembro de 2008

OUTRA NOITE NA TABERNA, O ENCONTRO COM A MORTE

Eu vi a morte, e ela sorriu para mim. Mostrou-me seus dentes afiados, e seu rosto repleto de pele frouxa, que pendia dos ossos, quase em decomposição. Seu corpo, tinha um porte forte e, pasmem, vívido. Resplandecia a garbosidade de um guerreiro que venceu muitas batalhas. Mãos fortes, dedos longos. As veias que a irrigavam, pareciam artérias, dado a grossura de seus calibres. Muito sangue passava por ali. Interessante perceber como a morte parecia mais viva do que a própria vida, que diga-se de passagem, eu nunca conheci.
Eu vi a morte, e a chamei para se sentar. Pedi uma bebida forte, já que essa senhora não é daquelas que se entrega por qualquer trago. Não me recordo agora, mas acho que foi whiskey, um bourbon talvez. Enquanto ela se acomodava no assento, observei as pessoas ao meu redor. Todas despreocupadas, vivendo a aparência oportuna que o momento proporciona. A senhora da foice tomou o lugar reservado para si. Olhou-me, e conseguiu através de meus olhos ver minha nuca, entrou em minha alma, e me senti fulminado pelo fogo de sua retina. Estava pasmo, desequilibrado, desorientado. Nunca ninguém me olhara assim, nem mesmo na mais intensa hora de amor. Como eu tinha perguntas para fazer! Pensava que tão forte era o instante, tão precioso o momento, que talvez não saísse vivo desse encontro, mas sem trocadilhos com a ouvinte. Esse pensamento vinha da intensidade que a conversa apresentaria. Senti antes de qualquer coisa um aperto profundo, uma angústia dilacerante. Meu coração era comprimido contra ele próprio. Era como se uma mão o apertasse cada vez mais forte, cada vez mais fundo. Queria correr, mas meu corpo me acompanharia, queria explodir, mas ainda sobrariam pedaços sórdidos de lembranças que lutaram para não serem esquecidas, queria gritar, mas mesmo assim, minha voz só expressaria a dimensão da minha ansiedade. Controlei então o ritmo das batidas, controlei o fluxo dos pensamentos, foi assim que pude dormir um pouco, antes de me lembrar do encontro, e partir correndo, para chegar na hora marcada. E agora, cá estou eu, sentado atônito, diante dessa figura milenar que continua sorrindo. Confesso que fiquei com medo, por vários momentos eu temi pela minha existência. Agora que alguns minutos passaram, percebo apenas um olhar de curiosidade que ronda nossa mesa. Tenho tantas coisas para dizer, tantas perguntas para fazer, que já estou me sentindo como uma criança que se perdeu dos pais, no meio de uma loja de brinquedos. Não sei por onde começar. O pior é saber, que se fosse ela a responsável pelas perguntas, eu já estaria repleto de pontos de interrogação. Mas dentro da minha quietude paira a grande e assombrosa expectativa do momento porvir. É interessante deixar o tempo passar, fico olhando sua cara impaciente, pensando, quem sabe talvez, numa coisa melhor para fazer. Suas roupas, se é que posso chamar aqueles panos sujos de roupas, trazem as marcas de uns bons anos sem descanso. Acho que ultimamente ela tem trabalhado demais. Temos dado motivos de sobra para isso. Estamos sendo parceiros nessa luta desumana, ou humana demais. Finalmente uma pergunta surge, mas justamente sobre algo, que eu acredito ela não entenda: A vida. E foi justamente nesse ponto que me enganei. Quando lhe perguntei sobre a dimensão da vida, ela me respondeu de uma forma pausada, e quase auto-explicativa, que a vida dimensiona-se pela vontade de viver. Pelas horas que passamos contemplando essa virtude de excelência quase divina. Muitos ousam tentar entender o sentido da vida, e assim gastam os anos que lhes são confiados na vã filosofia que busca explicar o inexplicável. A dimensão da vida está presa em cada passo dado rumo ao infinito, em cada gosto sentido, em cada nova informação aprendida. A dimensão da vida está em poder olhar para o lado e perceber que cultivamos amizades, cultivamos amor, carinho, e conquistamos um mundo ao nosso redor. Essa dimensão não se finda com a morte, mas ganha uma nova essência. A essência que não precisa da matéria para sobreviver. Que agüenta firme a marca da ausência, e eterniza-se nas palavras de quem insiste em relembrar. Nossa boca é a maior mantenedora desse espírito. Cada vez que mencionamos um ente que se foi, um amigo que nos deixou, uma pessoa especial, estamos revivendo esse ser, nem que seja de maneira puramente sentimental ou intelectual, mas ele continua em nosso meio, e contra isso não há morte que possa vencer.
Fiquei surpreso, calado e envolto na mesma sintonia de misericórdia. A morte então foi tomada por uma expressão de desânimo, e suspirou fundo, como se quisesse dizer algo mais. Eu não estava errado, e ela prosseguiu dizendo, que o medo que as pessoas sentem de morrer, não fundamenta-se no medo da morte propriamente, mas no apego que se tem ao mundo material, no sentimento de que algo ficou para trás e no desejo de levar tudo e todos que gostamos para o mesmo caminho. O homem não a teme, o homem não a vê como fazendeira que ceifa vidas, mas como um momento que estraga os prazeres. Se nos comportássemos como uma vela, e deixássemos queimar lentamente nosso fluído vital, não teríamos medo da chama se apagar. Mas como usamos o presente para anular o passado ou preparar o futuro, acabamos nos esquecendo das mais belas impressões que a vida nos dá. E isso nos causa medo. Isso nos faz evitar o destino certo de todos: fechar os olhos para a vida, quando a vida não nos quiser mais. Pois sim, isso é verdade. Não é a morte que nos busca, mas a vida que nos entrega, quando percebe que não sabemos mais o que fazer com esse dom que recebemos diariamente. Apesar dessa dádiva representar muito, alguns não pensam assim, e resolvem entregar seus destinos a práticas que não levarão a lugar nenhum, senão, ao caminho da própria tumba. Ao caminho das trombetas mudas, dos anjos sem asas, das casas sem teto, do céu sem estrelas, da escuridão sem luz. A vida despede-se do choroso ausente. A vida dá tchau. E contribuímos levantando a mão, quando deveríamos lutar para preservá-la, lutar para mantê-la firme ao nosso lado. Mesmo a vida sendo um vácuo entre dois infinitos, ela ainda assim impressiona. Causa fascínio aos olhos aflitos, esquente o coração gelado, torna-se doce o fel derramado. Mesmo assim queremos desprezá-la, submeter nossa razão às paixões insanas, perder o nosso tempo com brigas que nem sabemos como começou, e enquanto isso nos envolve, a areia da ampulheta está caindo, e completando nossos dias.
Já era tarde, e a morte levantou-se, como se querendo finalizar a nossa conversa. Logo agora, que as perguntas começaram a brotar. Justo no momento em que meu coração foi solto, e a mão invisível que o apertava deu adeus! Que injusto, a noite apenas havia começado. Mas no exato instante em que o medo foi embora, minha amiga morte também deixou o lugar. Demorou até eu perceber que continuava vivo, e que mais uma vez havia cansado a morte. Continuo sendo, e ela não é, mas estou certo de que quando ela for, eu não serei mais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A ILHA DE BELEZAS NATURAIS

E Deus fez o homem do pó da terra, e soprou nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem se fez alma vivente! Será?
Bem que eu poderia tê-la feito eterna nas letras que saem de meus punhos e se acumulam sempre que paro para escrever. Eu bem que poderia ter feito isso, mas não havia como entender aquilo que você desconhecia e nem como imaginar quantos anos sua eternidade teria. Nas alturas inalcançáveis, que se ergueram nesse verão, limitei o pouso incerto de meus pés e o peso falho de minhas mãos. A loucura, essa companheira de batalhas, e amiga de noitadas, interpretou, como bem quis, as frases que foram passadas apenas com um obscuro desejo de informar. Após ter aberto minha boca, pouco me restava, coloquei minhas esperanças numa garrafa vazia, dei nela um beijo de solidão, e com as mãos em sinal de piedade acenei em forma de despedida, expressando um tom bucólico de adeus. As palavras já não eram o alívio que eu esperava, e nem me deixavam em paz. Traziam o desejo desumano do conhecido e a memória relutante em aparecer outra vez, do que eu já havia esquecido. Elas não continham porém, em sua liquidez, a certeza daquilo que se mostra nas noites enluaradas, onde as feras uivam mostrando seu lado arisco de animal. Noites onde cada passo é uma vitória, e chegar ao destino, é no mínimo uma esperança, quando na quietude do breu adormecido, a lua observa as folhas, que molhadas pelo orvalho da madrugada, saúdam o caminhante que se põem na estrada, buscando sua consolação. Após um dia inteiro de deleite sensível, eu ainda receberia um presente.
Se as tardes fossem sempre tardes, meu dia não sairia descabido, não teria os passos largos, e o peito silenciaria o gemido. A noite, essa vilã já citada, sucede as tardes quase eternas, mas isso não nos permite agir sob o princípio irracional da casualidade e afirmar se ela será boa, e também não podemos dizer que será ruim, se ela terá o cheiro vivo das rosas ou será, infestada pelo cheiro de um velório com flores de jasmim. E eu poderia tê-la feito letra serena, você que era grande e a noite que diante de ti estava pequena, buscado com meu tinteiro sua pele morena e arranjado um rascunho, para nele escrever sua resenha de amor. Fui mouro em batlhas perdidas, fui exército carregado de arsenais, fui trabalhador fugido, expulso a força de sua lida, fui Édipo, Ulisses e Aquiles nessas viagens colossais. De meu cavalete pronto para pintar, fiz crucifixo sem Cristo, e pude então, como um fiel devoto de santos dobrar os joelhos e outra vez rezar. Quis marcá-la com meus toques, quis molhá-la com meu suor. Quis ser um homem de sorte, e focar você de forma infinita, buscando encontrar ouro fino nas minas de teu corpo onde os outros viram pedra brita. Mas você quis se fazer escondida, quis se fazer sorrateira e voltou a ser menina!
Como pode um mesmo céu estrelado, banhado pela sedução de uma imagem refletida, ver o sorriso e a lágrima? Como pode o céu fechar-se estampado, e amar calado a menina e a mulher? Em braços apertados pelo laço forte do descaso eu descansei de ti. Agora não sabia mais o que estava vivendo, e onde os sonhos largaram as mãos da realidade. Nos pastos de capim colhido, eu corri atrás de vacas que carregavam o cupido, e me flechavam enquanto eu tentava escapar. A noite se mostrava como um baú de presentes imprevisíveis, e trouxe consigo os anjos sem asas e suas trombetas mudas."E eis que estou a porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei eu com ele e ele comigo". A voz foi ouvida, quando as liteiras já se encaminhavam para os aposentos reais. A mensagem foi sentida, quando as mães banhavam os filhos em outros mananciais. As portas se abriram, puxadas pelo sorriso que se espalhava e pelo desejo oculto de um exército cansado que espera a ordem de rendição. Só então eu a vi! Como a desejei naquela noite! Meus braços aguardaram radiantes sua cabeça, e meus ombros envolveram seus cabelos, que em desalinho faziam-se labirintos para os meus dedos. Onde estaria Teseu? Onde está o Minotauro? Se as testemunhas existissem no plano objetivo da ação, quem sabe eu temeria. Mas como apenas a televisão nos olhava, não havia pudor que pudesse nos impedir. O quarto fechou suas portas para tudo que o rodeava. Somente a nossa direita, a janela, em duas velas, se apresentava como os único olhar de nossos vestígios. Demonstrava assim, um outro mundo, com o qual não nos importávamos, e nem queríamos saber se era eterno, passageiro ou vão. Cobri você com meu corpo, dentro do abrigo que foi construído no espaço de um dia. Apenas olheiem silêncio, pois onde uma divindade depositou perfeição, nenhum mortal pode encontrar palavras para a descrição. Estava certo de que na quietude constante do silêncio, sobre você eu escreveria, mas não seria tolo de tentar completar sua alma, seus olhos ou sua boca. Nessa obra de simetria sem igual, fui apenas um expectador que o grande artista autorizou presenciair. Estava ali, como um homem de limites e exageros, de inteligência e besteiras, e esperei você dizer para mim que tipo de homem eu seria. Fiz colcha dos retalhos jogados, que foram amassados com as toalhas no chão, restos de uma roupa que sobrou e sobras de uma noite que restou. Fiz banquete das migalhas que caíram de sua mesa, e música com as poucas palavras que ouvi. Tudo estava acontecendo dessa forma desigual, onde alguém se entregava por inteiro, e o outro só queria um momento longe do mal. Com uma simples informação, obtida nas escadas que marquei, fiz pesquisas de amparo. Usei métodos que ajudaram a segurar minhas mãos, quando sozinho estava, mesmo tendo a certeza nítida me rodeava a multidão. Com as lascas soltas da madeira fiz minha casa e com o olhar trocado num combate infernal, fiz coração. Percebi nesse momento que não se imagina tudo, e nem se pode dizer com clareza se as coisas podem acontecer como imaginei. Fica difícil entender, mas nem sempre a ilha está rodeada pelo mar e o farol nem sempre indicará o verdadeiro porto para atracar. Mas nem por isso a beleza abandonou a ilha que se perdeu na tormenta. Sendo assim, subi motivado pelo encanto das nuvens que puxavam para seu parque os pedacinhos de algodão. Seduzido pelo açúcar que além de doce, queimava, tal qual a lenha da locomotiva, que ainda parada é carregada, contudo, não parte e espera na estação. Os passos ganharam cores, e as cores seguraram o tapete para que eu pudesse flutuar. Assim senti o vento batendo contra o rosto, e tomado de assalto, vi o sorriso ganhar a boca que você um dia ousou beijar. O calor que saia dela, subia como um vapor interessante, de horas marcadas pelo delírio e minutos relembrados pelo alcance.
A pira queimou madrugada adentro, ferveu os corpos em movimento. O fogo que criptava fazia um bom tempo, se fez de fagulhas, que lançadas no querosene explodiram em estrondosos trovões. Caiu a chuva imaginária, com gotas gélidas, formadas pela água que exalava o cheiro único do veneno. Molhada pela liberdade de poder gritar, outra vez a escuridão se fez presente. E os anjos deram adeus. E os anjos deram adeus! "Vai com os anjos, vai em paz, era assim todo o dia de tarde, a descoberta da amizade, até a próxima vez."
Estou novamente lançado à sorte de quem não quer adormecer. A solidão voltou intermitente, no instante em que levado pelo avanço das horas, devolvi seus braços, e busquei em ti aqueles que um dia foram meus. Devolvi as asas para a loja de fantasias, enquanto o único som que eu escutava, era a estridente voz do Diretor: -- Deixem agora a esperança vazia, e se desfaçam do torpor. Carreguem as festas para a luz do dia, e deixem a mesa para o degustador. Levem sozinhos o abrigo da casa, que ainda insistia buscar em ti a pena que ficou. Levem a verdade e não a pobre esperança da hipocrisia, sintam a verdadeira face da dor. Apenas deixem com o menino a sorte, a leve protegida até a morte, e devolva a vida para as brechas que a saudade tornou maior.
Enquanto o carro de Apolo apontava discreto, distante, e brindava uma nova manhã, eu levantava meu exército, e em marcha solene buscava outro afã.
Absolvo as intenções, esqueço as frases ditas pelo avesso. Esqueço as emocões , e busco apenas o que mereço. Uma vida de apostas pelo dia bom, um tapete claro com almofadas coloridas, uma barca nova com o mesmo endereço.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

ANÉIS DE UM DEDO SÓ

Fechei os olhos e imaginei estar dormindo, quando o que sentia era o mundo da percepção se abrindo e mostrando-me o infinito. Esse aflito companheiro pôde no espaço de uma noite, provar que o real está muito próximo do mundo que imaginamos. E o mundo que imaginamos se mistura, perdido em falsas noções, com aquilo que vivemos. Num quarto fechado, meus olhos criaram novos horizontes apaixonados. As brincadeiras, sorrateiras lembranças, vieram me visitar. O que já havia esquecido em tempos de lei, foram outra vez motivo de meu tormento. E experimentei o gosto esquecido das palavras ditas apenas para conversar. Estávamos em quatro, eu estava sozinho, estávamos em três, eu estava sozinhos, estávamos em dois, eu estava sozinhos, fiquei só, e me larguei esquecido na caixa fechada das lembranças infantis. Abri a janela, e a noite fez a conta das horas que passaram. Estava sozinho!
Numa amplitude descabida de desejos e gracejos vi desmanchar as paredes. O concreto se fez gelo, e a escuridão se fez sol. Derreteram-se as águas do oceano oculto e selado, guardando ao seu lado o meu mundo misterioso. Numa cena de informações deturpadas eu sentia inundar o meu lençol. Eram os sonhos que se enveredavam pelos meus pensamentos! Sonhos que pareciam uma realidade intuitiva, captada pelos sentidos que o corpo não pode explicar. Senti que os lábios estavam secos, não consegui abrir os olhos para ver, e a cada martelada que a bigorna recebia, eu deixava de ouvir. Não sentia fome, não sentia frio, e minha língua se encontrava única num copo vazio. Nada sensível, num espaço inconcebível e difícil de imaginar. Homens vestidos com as sementes de sua insensatez. Mortos que conversavam, caminhavam libertos de seus corpos, e voltavam à essência que assim os fez. Mulheres ataviadas para seus esposos, que explicavam a vida, colhiam as flores e comiam os frutos, presentes da estação. Abriam seus braços em casas escuras, emolduradas pela lua, que era vencida pela chama acesa de uma lamparina a gás. Onde estavam os heróis que prontamente me levaram passear? Vi a história, vi a memória, vi a eloqüência trotando forte, mas sem cavalo para cavalgar. Andavam a pé. Não voltavam, mas prosseguiam sem razão para ser, e com seus passos lentos não queriam chegar a lugar algum, apenas conduziam os moribundos pensamentos para o desfiladeiro que se repetia a cada acordar.Do meu lado, os animais dormiam o sono dos justos, inocentados de seus pecados, prontos para a salvação. O anjo se fez homem, e os santos foram a minha salvação! Estúpidos galanteios de porcos abençoados pelo prazer. Inerte sapiência de quem tudo dizia, sem ao menos ter algo para dizer. Os espantalhos foram despedaçados, e as rajadas de vento levaram as palhas para as meninas, que sentadas em suas varandas, transformava o milho da colheita maldita em bonecas de crianças.
Os sonhos brincaram e armaram a tenda da loucura. Esse circo de palhaços boçais, não teve confetes nem pipocas, mas domadores domados pelos animais. Em beijos que perderam seu rumo certo na bossa silenciosa, se firmou todo o quarto na noite ociosa. Tentei dominar a cama em que meu corpo repousava, mas ela queria voar, e deixar ali o ser atordoado. Quando busquei deter meu espírito, senti que ele fazia meu corpo tremer, como se uma locomotiva mirasse meu coração e encontrasse ali o seu túnel. Senti então o calor da caldeira a todo vapor atravessar os trilhos do meu peito. Queria correr! Queria sair pelo mundo, ser o seu eterno vagabundo e ver minha alma morrer. Mas tudo o que consegui foi fechar os olhos outra vez, e tentar dentro de minha embriaguez, meu sono forte satisfazer. E quando as canções deixaram seu tom de alucinação, ouvi os ruídos da cidade, que roubaram a noite de minhas mãos. E agora trago apenas o esquecimento das páginas que não li, e a loucura de não conseguir entender até agora a noite que vivi.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

HISTÓRIA DO PARANÁ - UTI (repasse se quiser)

Para a moçada que está entrando para dar uma “olhadinha”, eu gostaria de desejar uma boa prova, e que o anjo das respostas certas possa fazer boas visitas a vocês. Sobre História do Paraná, acredito que a Unioeste não fuja do dito trivial. As questões basicamente giram em torno da idéia de Colonização – Período – Local – Ciclo Econômico. Levando esses itens em consideração, certamente as chances de um bom desempenho serão maiores. Espero que esse conteúdo seja de grande valia.
Paraná Pré-Colombiano:
Antes da chegada dos europeus o Paraná já era habitado por tribos nativas: Tupi (subdivididos em guaranis, também chamados de carijós ou cariós, tinguis e os cainguás) Jê (botocudos). Foram eles, inclusive que deram nome ao atual estado. Paraná, na língua Tupi, significa Grande Rio. A maior herança arqueológica do período são os Sambaquis (restos de conchas, comida, fragmentos de artefatos, que nos ajudam a entender a pré-história do Paraná).
Com o Tratado de Tordesilhas em 1494, e a divisão oriunda do mesmo, apenas a porção LITORÂNEA, do atual Estado pertencia a Portugal, e fazia parte de dois Lotes de Capitanias, sendo Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa seus donatários. O interior era oficialmente espanhol. Que iniciaram sua ocupação através de dois processos: Vilas (Ciudad Real del Guairá em 1557 e Vila Rica em 1576) Missões ou Reduções Jesuíticas, que foram destruídas por Bandeiras a procura de índios, como a de Antonio Raposo Tavares por exemplo.
O processo de ocupação PORTUGUESA, se inicia posteriormente.
Século XVII – Litoral – Ciclo Mineração – Cidades: Paranaguá (.29/07/1644 – Vila Nossa Senhora do Rocio de Paranaguá), Curitiba;
Século XVIII-XIX – Região dos Campos Gerais – Ciclo Tropeirismo – Cidades: Ponta Grossa, Castro, Palmeira;
Século XIX-XX – Região Norte – Ciclo Café (abalado em 1975 com a Grande Geada) e Projetos Colonizadores. A Companhia de Terras do Norte do Paraná ou Companhia de Melhoramentos do Norte do Paraná, foi responsável pela ocupação da região norte e noroeste do Paraná. Cidades como Londrina, Maringá, Paranavaí e Marialva, foram loteadas por esta empresa.
Século XX (início) – Região Oeste e Sudoeste – Ciclo Madeira e erva-mate.
Século XX (anos 30 e 40) – Região Oeste e Sudoeste – Ciclo Agricultura – Presença de migrantes gaúchos e imigrantes europeus (atraídos em parte, pelo clima propício).
Século XIX e EMANCIPAÇÃO.
• Paranaguá – (1811 e 1821) requer a emancipação da comarca e a criação de nova capitania
• Curitibanos – (1853), Lei nº 704, sancionada em 29 de agosto, criação da Província do Paraná,
• 19/12/1853 – Chegou a Curitiba Zacarias de Goes e Vasconcelos, primeiro presidente da Província do Paraná (data oficial da criação da Província).
IMIGRAÇÃO:
• PORTUGUESES: a partir do séc. XIX (que é quando ocorre nossa independência). Cidade com maior influência lusa: Paranaguá.
• ALEMÃES: (1829) as margens do Rio Negro, atividades campesinas. Colônias: Entre Rios e Marechal Cândido Rondon
• ITALIANOS: (1836) Atraídos pela cultura cafeeira
• HOLANDESES: (1911, II Palanalto, região dos campos gerais). Colônias: Carambeí (entre Ponta Grossa e Castro), Castrolanda (1951) Arapoti (1960)
• Outros: japoneses, russos, poloneses, ucranianos.
CAMINHOS DO PARANÁ
Peabiru – Pré-Colombiano, ligava o litoral atlântico ao litoral pacífico;
Mata ou Viamão – Passando pelos Campos Gerais;
Graciosa – Ligando Curitiba ao Litoral;
Itupava – Curitiba a Morretes;
Estrada do Colono – Oeste a Sudoeste.
PARANÁ REPÚBLICA
Questão de Palmas (1895-1897), disputada com a Argentina. Ganho de causa ao Paraná, concedido pelo presidente americano Grover Cleveland.
Revolução Federalista (1893-1895) – Questões políticas envolvendo grupos do Rio Grande do Sul contrários e favoráveis ao Marechal Floriano. O envolvimento do Paraná se deu em maiores proporções no episódio conhecido como Cerco da Lapa.
Guerra do Contestado (1912-1916) – Movimento social e messiânico que acontece na região contestada pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Teve como líder João Maria, morto logo no início. Os posseiros também lutavam por terras que haviam sido concedidas a empresa Brazil Railway (responsável pela construção da estrada-de-ferro Rio Grande do Sul – São Paulo).
ERA VARGAS – Criado o Território Federal do Iguaçu (1943-1946), abrangendo o Oeste e Sudoeste do Paraná e o Oeste e Noroeste de Santa Catarina. A iniciativa do Governo Federal tinha como objetivo criar mais um núcleo político-econômico na região, que via seus interesses comprometidos pela distância em relação as capitais de ambos estados. Nesse período havia sido nomeado para ser Interventor no Paraná, Manoel Ribas que ocupa o cargo entre 1932 – 1945.
Nos últimos anos, após os Governos de Álvaro Dias, Jaime Lerner, Roberto Requião. O Paraná diversificou sua economia, e passou a contar inclusive com parques tecnológicos e Indústria Automobilística, concentrados principalmente na região de Curitiba. As privatizações também foram uma constante, sendo que, as principais aconteceram no Governo Lerner: Anel de Integração e venda do Banestado ao Itaú.


terça-feira, 11 de novembro de 2008

VERBOS NÃO FAZEM MEU ESTILO

Sua boca entendeu o que eu quis dizer, quando sem nenhuma palavra eu pude me expressar. Pode me entender quando seus braços puderam me enlaçar. Seus lábios, ainda que desejados, não tinham me pertencido até então. E nesse resquício de razão, depositava minha segurança. Sabia que quanto mais o tempo fosse aliado, mais possibilidade teria de fugir. Correr para algum lugar onde nem mesmo a sorte pudesse me encontrar. Mas não foi isso que aconteceu. Como uma sombra atrasada de um corpo que se foi, você se aproximou. À hora, já adiantada em ponteiros longos e passadas firmes, apenas testemunhou um olhar. Esses olhos cobertos de lascívia e desejo. Profundos e repletos de más intenções, que, pensando bem, não eram tão más assim. Ficaram esperando, como um chacal guardião, o momento exato de atacar. O que fazer quando a linha da loucura ultrapassa a linha da lucidez? Não me atrevo a questionar novamente, com medo de achar a resposta da próxima vez.
Não pelos cabelos que entoam uma nota só, nem pela pele que executa a única sinfonia, muito menos pelo corpo que em curvas refaz o conceito de simetria, mas pelos momentos intensos que desejo viver. Pelo vivido em devaneio, pelo experimentado sem provar, pela inconsciência de minhas mãos. Pelas janelas que puderam se abrir, e assim mostraram o animal sentimental que refletia apenas a essência da espécie. Por tudo isso, quis embalá-la num sono em fim de tarde, quis cantar as músicas em ecos soturnos, sem alarde. Fiz entender que nunca quis apenas um toque a mais, e me importa onde as gotas caem após os vendavais.
Quero sentir a terra molhar outra vez nossos pés, quero sentir a água inundando nosso quarto, em correntezas incontroláveis de um fluxo intenso e colorido. Mesmo que para isso eu abra mão de sua companhia, e fique com o sorriso da graça estabelecido.
Venha outra vez, marcar de suor a roupa que coloquei. Venha mostrar-me a força que seus braços podem ter. Prove-me a determinação de suas palavras, que apesar de sutis, podem me carregar. Embalam-me em poemas sem estrofe, em versos sem sentido, e transformam o grave amargo do dia, num agudo alegre sustenido.
Seus lábios continuam traçando as linhas da imaginação. Sua boca escreve aquilo que você gostaria de ler. E a cada parágrafo terminado, concluo que uma grande obra está porvir.
Sinto o gosto do perfume de seu cheiro, de sua essência permanente de mulher, transpondo quilômetros, rompendo fronteiras e quebrando as regras de uma terra sem leis. Coração bandoleiro que se armou num duelo desigual. Peito aberto e desprotegido nesse calor absurdo e infernal. Onde encontraria refúgio se não fosse assim? Escondido nos arbustos que a estrada plantou pra mim.
Que eu seja privado de ver a vida acontecer, que eu seja privado de ver o dia nascendo e morrendo em seu próprio prazer. Não me prive a natureza, porém, de senti-la outra vez, de ver seu peito curvar-se à força da respiração, de olhar suas mãos enlaçadas e pedindo proteção. De admirar seus olhos que se perdem, se encontram e se cruzam com os meus. Que eu possa, mais uma vez pelo menos, umedecer meus sonhos em seus lábios, e assim sorver um pouco de seu sabor, que se perde diariamente no seu lago, repleto de incandescência, libido e calor.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

LUSER

Sinceramente, eu não me importo com o que você pensa. Se disse algo mais do que eu queria ouvir, provavelmente não irei lembrar. Isso torna o acordo desigual, e não vou regar os jardins de quem sequer plantou uma flor. A chuva forte pode inundar, e levar pelas suas correntezas todos que não se prepararam para o pior. Eu deixei, já faz longa data, de valorizar as pérolas que os porcos desprezaram. Deixei de tentar revelar o filme de fotos, queimadas pelo acaso de um flash que não disparou. As migalhas, antes vistas como vastas refeições, hoje ocupam o lugar destinado a elas: o chão. É vã, a busca desregrada pela atenção. É inútil gastar a lâmina afiada de meus versos em cabeças petrificadas pelo que se deixou. Não gastarei mais o tempo, nessas construções pueris, em fantasias tolas e mensagens infantis, feitas de cifras altas e valores gentis. Quero construir meu espelho em retratos que eu criei. Quero refletir os anseios de uma consciência desprovida de lei. Caso você não concorde, sinto muito, mas não perguntei sua opinião. Não interfira nas contemplações alheias, e não tome posição daquilo que você não faz parte. Não pedi críticas, não pedi detalhes. Fiquei solto em pensamentos e preso a lugares. Lugares estes, que não tiveram a honradez de entender que se tornavam lembranças, quase inatas, pela profundeza na qual cravavam seus alicerces e pilares. Presenteie-me com seu silêncio absoluto. Quem pouco fala, pouco erra. É no silêncio de uma opinião calada, que conseguimos por vezes, ocultar nossa ignorância.
Alguém aqui busca um público para agradar? Alguém aqui está sendo calouro nessa festa popular? Não! Afirmo e grito: Não! Somos quem podemos, e o que as circunstâncias nos permitem. Por mais alto que o pássaro possa voar, sua condição nunca será diferente. Por mais que Fernão Capelo Gaivota aprendesse a nadar, ele não se transformaria num peixe por causa disso.
A lua busca, em seu ardor noturno, refletir os raios de sol que não são seus, mas, de um dia que nasce para o outro lado do mundo. E não importa que grunhidos você emite ao ver tudo isso. Nessa selva de animais selvagens, me fiz caçador de oportunidades e tentei sobreviver, quando tudo o que eu sentia era o cheiro da caça tentando virar predador. Tive que segurar firme meu rifle, cercar-me de munições certeiras, e mirar numa cena sórdida. Fechei os olhos quando atirei, e captei apenas os altos sons, que foram engolidos pela terra, enquanto ela me agradecia pelo que tinha feito. Saí das fileiras da preocupação, para ocupar as filas inibidas das sensações. Já perdi muitas chances tentando provar que a maior prova era ao mesmo tempo a maior condenação. Subi nas pilastras e nos parapeitos dos casarões coloniais, apenas para tentar ver, aquela jovem de tranças feitas, colhendo trigo em seus trigais. Hoje me sinto como o bajulador de um chefe desempregado. Como o fígado de um bebedor inveterado. E sei que não preciso mais acordar para mostrar para os outros que não estou dormindo. Descanse na sua insensatez. Descanse de braços cruzados, já que é o melhor a se fazer. Se for apontar sua mão, mude a direção dos dedos, do contrário serei obrigado a cortar a mão, arrancar o braço e queimar seus segredos. Da pira do esquecimento ninguém conseguiu fugir. Não pedi que me ouvisse, que visse talvez. Mas agora que já terminou saiba que não espero, não quero e nem vou passar a minha vez.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008