domingo, 9 de agosto de 2009

DESPEÇO-ME AOS PRIMEIROS RAIOS DE SOL


Descobri que as abelhas não gostam mais do mel. Descobri que há muito elas abandonaram o gosto pelas flores. Carreguei um jardim ao lado delas, e as pequenas criaturas não se deram conta disso.
Choveram pétalas nas minhas costas, justamente quando meu corpo se aproximava do despenhadeiro escorregadio. A sensação humana de uma feiticeira pulando sobre elas, se traduzia pelo cheiro da fantasia que acompanhava a suavidade das flores. Sonhei.
Chegou a hora do despertar. O relógio chama, praticamente obriga o corpo a se levantar. Á água já escorre quente pelo chuveiro. O espaço para o banho é tão pequeno, que tenho medo de não conseguir tomar banho junto com a delícia dos meus pensamentos.
Chama ao longe a Aurora Astral. Envia os ventos gélidos para buscar a história, que já garantia sua vitória, e por isso não queria embarcar no tempo.
A história, que escondia a sensibilidade de um poeta sob um corpo forte, mostrava-se amável apenas na madrugada. Nas altas horas da noite ela respirava sua própria carne, pensava num pedido da própria vontade, e assustada aceitava mais uma solicitação do seu suor vertido.
A história que odiava a burrice das portas, que não tolerava a transparência falsa das janelas, beijava os sapos principescos e pedia a explicação sobre a Cinderela. Agora é tarde, a meia noite chegou e a Cinderela morreu. Seu corpo não pode ser velado, seria uma vergonha para seu reinado. O sapato pontilhado por cristais de gelo ameaçava derreter.
Não vá embora, fique um pouco mais, só você fechou meus olhos, lançando a pedra distante, fazendo com que eu não quisesse olhar pra trás. Percebi que nesse jardim secreto, onde as águas brotam da terra e o retrato prende um rio, torna-se infinito o céu sem razão.
Não vá embora, fique bem aqui. Sussurre doces notas e dance num compasso voraz. Faça roupa da pele, faça guerra da paz. Esse é apenas um pedido, você pode desistir. Quando minha cabeça busca o vácuo, ela só quer brincar, não foge para um barraco, nem procura a sorte pra voar.
É cedo, é tarde, é dia, é noite, é desconcertante e intenso, eu já nem sei mais! Minhas mãos estão trêmulas e é difícil resistir.
Experimente os sentidos. Aceite os pedidos. Veja aquilo que não é costume, provando agora com perfeição. Ouça o sussurro do cardume, peixe no aquário da solidão. Sinta a brisa molhada das cachoeiras. Prove o sabor da sensação. Cheire a variação derradeira, resposta do aroma que o vinho traz. História, nessa paisagem verdadeira ninguém conseguiu fazer tão bem como você me faz.
Agora é tarde para procurar as pedras e vestir uma roupa nova. Vamos para onde noite leva, carregaremos toda a prova. É exagero, pode até não ser, mas o que você sabe ninguém sabe fazer.
A noite está despertando e podemos ver a cidade. Janelas apedrejadas fazem espuma transformando o som da idade. Sobe correndo, por um beijo anuncia a ânsia da saudade.
Deixa o medo rolar pelo despenhadeiro. Que caiam os muros do mundo inteiro
E que o resto seja apenas um ponto perdido em seu espelho. Um ponto que se afasta sem saber, um universo que se aproxima de mim. Lá vem ela e posso ver. A escultura mágica se apoderou desse homem. Flores no quintal.
Demoramos tanto tempo para dormir juntos, e na hora do café, a solidão serviu a mesa. Guardou as experiências noturnas, servidas como sobremesa. Doces me fazem mal, por isso sirvo-me desse prato como banquete principal.
Não vá embora, o dia acabou de nascer, e a janela, apenas transpira o nosso suor. A mão escorregou pelo vidro, deixando o caminho pelos dedos percorrido.
Esconde-nos essa névoa de calor, atrás do torpor vergonhoso que não deixamos nos influenciar.
No jogo falso das cartas perdemos os valetes, apostamos no 3 e jogamos o rei. Resplandece a dama com seus braços torneados sua carta morena e seu corpo abençoado.
Invoco o deleite que desce pelas encostas, invoco a força retratada nessas costas. Faço pedidos para o anjo sem nome. Trago escrita a verdadeira história de um sonho.
Quero passar todos os dias pensando num dia só, escondido sob a própria pele. Quero sonhar com minha criança passada, e inventar guloseimas para me divertir. Lavar o carro do autorama, molhar a grama e poder sorrir. Comer um bolo com chocolate quente, recheado com leite condensado em potes que não merecem tradução. Respingar na camiseta da paz a dança dos pingos de um pedido na ilusão.
Não posso pedir, Não vou tentar, Já não posso subir nesses trilhos ligados. Até gostaria que cada degrau se repetisse numa imensa escada. Num prédio repleto de bocas que se abrem para ver o mundo passar. O mundo faz barulho! Em cada barulho um coração pronto para enfartar.
Devore-me tempo consumido. Devore-me ano que não acabou. Na forma de tiro estampido, uma arma nova que não disparou.
História das minhas mãos, história dos livros meus. Dentre todos que me cercam seus braços são os mais forte que vi. Os mais quentes que senti. Aquilo que por bons sorrisos me segurou.
Mas agora você foi embora, Só me resta olhar pra trás e me acostumar com o silêncio dessas noites. Esconder-me sob a mesa vazia sem pizza, e ter a certeza de que aquela porta não se abrirá mais.


sábado, 8 de agosto de 2009

FREEBIRD

Voa longe e sem medo pássaro livre. Siga a viagem que o levará aos infinitos lugares que você ainda precisa conhecer. Abraça forte cada espaço, e diga para seu coração que não ficaremos distantes de tudo. Toda Vênus um dia encontra o amanhecer.
Voa cheio de vida e reflita nas suas penas a luz do sol dessa manhã tão cinza.
A tempestade da angústia é apenas uma dor que vem ao pensar por si mesmo. Saia do esconderijo e brilhe como único, sabendo que um sol apenas, poderá trazer duas manhãs e que as tardes que julgamos incontáveis são travesseiros com gomos de romãs. Não mude a direção. Busque as rotas que o levarão para o calor, nesse inverno do sul.
Deixa de lado a proteção do ninho farpado e sombrio da semente. Saboreie o gosto perfumado que ainda está detido em suas penas. Cultive mais essa lembrança. Passe longe dos ritos intoleráveis dos seres clementes e alivie o peso da sua embriaguez nos telhados das casas em novena.
As estações mudaram, e um bom ano passou. As uvas foram espremidas no sudário, e a ânfora do vinho derramou. A vida acerta tudo sem mácula. A vida sempre foi um desafio que não aceita empate. A vida sempre acerta, o tempo dessa vez que errou.
Você está indo pra casa bom amigo. Quando eu quiser lhe ver vou olhar pra dentro de mim, assim saberei que cuidando de você, cuidarei de nós dois. O vento leva você, o vento leva tudo embora. Leva os abismos, leva as florestas. Leva a própria fé que destrói os dragões dos dias desleais. Não sobrevoe a usina Nuclear.
Segue com os anjos na paz que eles podem lhe dar. São os namorados das fadas que em outras vidas passadas me beijavam pela manhã. Agora me acostumei com o eco que serve de herança para ilustrar o testamento do peso desses dias e tardes. O verão acabou tão cedo que eu não percebi. Fiquei como alguém fazendo companhia pra ninguém, admirando de perto a distância e enfrentando a coragem lavada pela covardia da criança. O que você me diz Frank?
-- “You´re learning the blues”, mas Frank também diz: “Don´t let the blues make you bad”.
Estou certo de que a usina nuclear não deixará a guerra começar.
Agora que está longe, posso ver suas asas. Como elas são bonitas! Como elas são fortes! Nada o impedirá de voar. Bata forte as asas amiguinho, o mundo que o espera é maior que um passarinho.
Caso sinta que alguém olha pra você, saiba que é a lua da noite, o sereno da madrugada. Apenas siga com toda a calma do mundo. Seu corpo alimentará seu espírito, seu espírito trará louvor à sua mente, sua mente repousará em meu corpo, e assim seremos dois. Fala baixo o que sente, deixa o resto pra depois. Não chamo de demente quem não tem o que fazer, descobrimos encostados no secreto, a inocência do prazer.
Encare esse desafio final. Não coma mais do que puder mastigar. Não ria alto demais para não acordar a tristeza, ela tem sono leve e sua cama chama-se leveza. Faça tudo, e faça do seu jeito. Você levará a certeza da batida cumprida, ou dor da ausência estampada no peito.
Voa longe e sem medo pássaro livre. Saiba que existem muitos formatos, que só trazem tintas nos seus braços, não trazem invenção. Tudo aquilo que querem e sempre aquilo que desprezam, é uma lâmina sem fio refletindo aquilo que são.

OM MANI PADME HUM

Corre agora em passos curtos e passadas certas para o espetáculo das cortinas que se abrem, enquanto o vento lá fora assovia de algum andar. Corre para o mundo nostálgico dos gregos e de suas pífias das sabedorias marciais que buscam colos para serem embaladas como crianças artificiais. Se Leônidas não fosse tão herói, talvez seu heroísmo fosse perpétuo. Isso sempre foi Esparta. Esparta sempre foi a letra forjada da própria Guerra. O poço que aguarda com sua densa escuridão as vestes dos homens nus. Aguarda os homens que ousaram respirar acima de Áries.
Os olhos se espalharam pelas luzes que refletiram Atenas. Guardaram as sementes e esperaram pelos frutos de suas colheitas. Ano sem frutos. Azeitonas que rolaram pela terra seca, e não apeteceram o paladar do Olimpo.
Não foram pedidas oferendas, não podem se queixar os Arcontes. Não foram prometidas chuvas, não podem secar os montes. Azeite para o moribundo perdido na vala. Letras para compor o ode daqueles que venderam a fala.
As esculturas do Paternon em baixo relevo, sempre foram assediadas por pretensos autores. Assinaturas sem mãos apareciam e cravavam sua insígnia na alva veste sacerdotal que seguia curando. No esplendor clássico do momento, se levantaram vários oradores. Desde a defesa posta diante da retórica, até as Catilinárias em suas cenas históricas, tudo passou percebido por Urano.
Iluminada a sorte à própria senda. Liberta os braços da morte de sua oferenda. Quando as águas puderem tocar o céu, todos saberão que é no horizonte a escrita incômoda das nuvens de fel. O sino do relógio tocou! Seguro em seu pêndulo, o guardião troca de guarda, abandona o velho Péricles, e busca Brutos no Senado. De que valeu Cipião? Bendito tardiamente seja Aníbal e toda sua Barca.
Nos recortes que a experiência prova, sempre existe um ardil que se renova. Nas histéricas ruas do medo, sempre guardam os homens em pequenos potes seus segredos. Em tempos de paz os filhos enterram os pais, em tempos de guerra os pais enterram os filhos, já em tempos de poesia todos podem enterrar a todos.
O coveiro se lança triunfante sobre a vitória! Sabe que mais uma vez concluiu seu trabalho do lado de fora. Ele jamais pensou em dar boas vindas aos que chegam. Cultiva o dom de dar adeus aos que partem e assim como seus planos, isso faz parte de seus melindres. Cultiva um toque em terras férteis, muda a ocasião que transforma os planos. Abre as pistas que ficam inertes, constrói no horror a sorte dos seus enganos.
Caixões em caixas de papelão. Caixas vazias sobre mesas e cadeiras de lata espalhadas e esbarradas, aguardam algo de interessante para se encher. Enchem-se de lacres arrancados. Aguardam o veredicto pronunciado.
Candidatem-se sensações de trechos obscuros, candidatem-se salas brilhantes do cinema escuro. Tudo cabe dentro da porção infinita das possibilidades dispostas a ocupar esse espaço! Tudo cabe na fumaça respirada pelas cinzas na hora do seu cansaço. Amém ao raio no vazio escuro.


sexta-feira, 7 de agosto de 2009

NECESSIDADE

Uma madrugada de alentos e tempos tão ligeiros como o próprio pensamento, que confabulou consigo mesmo uma nova forma de encontrar uma ampulheta de areias infinitas. São sinais de que a vida é a surpresa itinerante que carregamos conosco, e que cada parada pode trazer um refrigério para os passos já traçados e para o caminho já percorrido. Afinal, as sensações carregam os homens como pernas invisíveis e renováveis.
Beijo o véu da madrugada com o toque sereno dos lábios que pedem mais. Beijo a madrugada como um penitente que subiu as escadas de uma grande catedral, que agora se tornou agora seu hotel, e encontrou a santa, divinamente posta e pronta para abençoar. Sentada nas escadas, aguardando o pecador chegar.
Lábios gananciosos que ardem, que incendeiam sua própria carne pedindo para que a noite se estenda, e que o alto envolver da lua traga um pouco de frescor. Uma Santa que estende suas mãos e deixa beijar, retribuindo uma oferenda que o fiel lhe deu.
Camas no quarto dos sonhos, enquanto a cabeça deixa rodar os vários filmes que carregam a memória. Lençóis se desenrolam e se abrem como cortinas de uma janela que anuncia o paraíso. O inferno torna-se o fogo que a lua jogou no sol, e as águas são o poço onde a a cabeça afunda para refrescar a consciência de que a madrugada logo se despedirá.
Adentrando ao jardim dos sonhos proibidos, a busca pelo desconhecido se torna real. Aventura como frescor dos ventos do bem querer, aventura que acena para a inocência perdida, deixada de lado em prol do saboroso temor de que a noite está acabando. Refrigério da ingenuidade, envolto pelo ar quente dos corpos que se aproximam na distância de uma noite.
Respirações turbulentas, olhos que se cruzam como cavaleiros em batalha, quando o corpo jaz deitado na campina verdejante abraça com toda a força a oportunidade que lhe escapará quando a hora chegar. Cavalo real de Dom Quixote que leva em suas costas a princesa quando ela está cansada. Seguida pela aia que de longe reclama da distância que se criou.
Um jogo de sentimento que pode levar a loucura. Uma loucura recebida como penitência santa, pois só a lembrança de cada instante seria o suficiente para aceitar a entrega da sanidade. De que adiantaria a razão de uma vida sem aventuras? Assim é melhor entregar-se a loucura e à espera sublime dos corações. Ninguém andaria até os confins da terra apenas pelo toque da carne. Ninguém abandonaria sua esfera segura por um peito sem saudade. A saudade se forjou no abrigo quente e vermelho de um peito que palpita com frescor.
E esse tempo maldito diz adeus. Esse tempo maldito reserva para si o gosto de ver a sensação do presente se distanciado cada vez mais. Não são pelos risos, nem pelos pensamentos que voam em todas as direções, mas pelo prazer de lançar as mãos e os pés numa corrida desenfreada pela surpresa guardada. Sim, é isso que faz tudo passar tão ligeiro.
O toque reverenciado dos lábios abre as portas do infinito. Transforma em ouro a pedra de granito, e torna rico cada anoitecer. Lembranças que se transformam num esforço que é impossível esquecer. Assim a alma se presenteia, se ilude, se perde e se ganha ao mesmo tempo, numa premiação de vitória, de sabores e de dores que não fazem sofrer. Viva Camões estendido nas camas que as fotografias ocultaram e que a lembrança eterniza em cada olhar.


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

VENI VINI VICI



Uma fantasia que se perde quando a noite chega. Uma fantasia que reflete a própria extensão das suas virtudes nas campinas verdes das cachoeiras escondidas. A face remota das circunstâncias escreve com letra de carne o testamento que vida não hesitará em experimentar. Aconchego num braço, deleite no além. Mundo das mágicas guardadas em cartolas que apareceram sem avisar.
A própria feiticeira que após ter deixado a poção mágica, se mantém viva na sensação perceptível do entendimento, se levantou com pingos brilhantes nos olhos, compondo uma verdadeira mina de esmeraldas.
A lua dessa vez se impôs como magnânima de um céu que sequer levantou a voz para contestar sua rainha, que majestosa brilhava como um olhar de felicidade diante da surpresa recebida. Era tão charmosa em sua forma feminina, que dispensava um segundo olhar. Crescia e parecia que entrava enfim numa existência eternamente interessante. Cada minuto, dos poucos que me eram concedidos, continha um êxtase, um luxo radioso de sensações que ficaram guardadas tão intimamente que só eu poderia encontrar.
O cheiro secreto ainda está em minhas mãos. Sinto o perfume desvendar cada centímetro de minhas palmas. Ele percorre a linha da vida, se estende sobre as falanges, toma conta dos meus pulsos. Faz-se mais intenso do que o sangue que percorre meu corpo. Minhas mãos postas em oração estão abençoadas pelo aroma suave. Sinto como se elas tivessem tocado o céu. Ultrapassaram as nuvens de algodão doce, e trouxeram a suavidade do doce açúcar num pote de ouro entregue pelo duende protetor. O céu ficou sobre mim com seus anjos de formas perfeitas. O céu estava sobre mim como uma deliciosa sensação de surpresa quando eu, com cartazes postos em branco, amassava as cartolinas, rolando sobre os sonhos que pareciam reais demais para um mortal de anos contados.
Sentindo o cheiro melódico dessa suavidade, desvendei os segredos da história, e entrei como um Cavaleiro Templário nos arredores de Jerusalém. Senti-me como uma testemunha ocular da Idade Média, quando ela já baixava sua guarda, e apresentava as crises da fome, da peste e guerras. Senti-me uma fera apocalíptica de várias cabeças, usando apenas uma para pensar, enquanto as garras da ocasião perfeita aprofundavam suas impressões.
Quanto vale um cheiro? Quanto vale um prêmio? Guardado nos recônditos secretos da sensação, está a paz de um espírito que não se entrega sem lutar.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

APENAS UMA MENINA

Seus gritos são a chave que trancam dentro de mim o silêncio recluso. Torno-me freira, guardando suas confissões não professadas, suas cordas de violão jogadas na lixeira. Seu confessionário esquisito, suas próprias indagações com respostas distantes daquelas que você resolveu dar. Não me culpe pelas coisas que fez. Eu não sou espelho que reflete seus anseios e seu querer.
Calo-me não sei por qual motivo. Pena ou dó talvez, por ver uma alma tão atormentada pelas próprias ilusões, e lançada num labirinto de interrogações. Por que não olha um pouco ao seu redor? Querendo ganhar as coisas que nunca teve, está perdendo aquilo que defendeu sua voz, aquilo que será sua marca e perpetuará sua eternidade.
Grãos de areia escapam entre seus dedos, e sem perceber, sua mão está ficando vazia. As possibilidades de alegria foram lançadas ao espaço infinito das inquietudes, e o vento veio trazendo a resposta tardia. O temporal se ergueu, relâmpagos e raios trouxeram a tempestade numa noite invernal. Estremeceram o céu com seu retumbante estampido, mas logo depois calaram-se, quando o torpor da alma etílica se entregou aos cuidados satisfeitos do rei do mundo dos sonhos.
Dorme agora, dorme em paz. Está sendo assim todas as tardes. Seu sono traz a paz de espírito que busquei em algum momento do dia. Dormindo silencia o julgamento, dormindo sentencia a própria causa e aprende a não concluir verdades sobre os outros, inspiradas no temor da descoberta das suas atitudes remotas.
Onde habita o pecado de um sorriso sincero? Onde está a mácula de uma amizade pintada no arco íris? Onde está o cheiro do veneno, quando é a pureza que venero?
Quando eu sonhava meus sonhos infantis, em meu olhar brilhava o desejo de sempre estar ao seu lado. Algum dia, porém, seu lado se mostrou humano demais, e eu descobri que o super herói tinha fica preso dentro do gibi. Dormi ao perceber que a desilusão me deixou de olhos fechados.
Assim fui enchendo meus olhos de lágrimas. Anoitecendo dentro de mim justamente quando eu queria que despertasse o dia. Perdendo algo maravilhoso que nunca tive, sentindo por instantes curtos o gosto absoluto daquilo que nunca provei.
Como quis que você me notasse. Como quis ser tempo no seu relógio lotado. Quis ser a intenção no seu peito cultivado. Quis provar que nessa esfera perdida das tentativas, você era algo que eu tinha ganhado. Eu não me perdi. Você fugiu de nós.


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

VERSOS DE OUTROS VERSOS

Sempre quis provar que não precisava provar nada, assim eu tentava mostrar para os outros que a explicação para o que eu sentia estava muito além de mim. Esperei alguém me chamar, e me fazer acreditar num sonho, acreditar numa história. Encontrava um abrigo naquilo que eu esperava. Às vezes mentia pra mim mesmo e acabava sendo o pior dos mentirosos. Enganando-me com palavras superficiais, mergulhei nas profundezas das dúvidas que se despediram daquilo que poderia respondê-las.
Não sei o motivo das coisas, não sei como elas acontecem. Mas elas me fascinam com seu jeito de ser. Quando menos percebi, estava esquecendo das explicações, e sorrindo sozinho a tarde, aguardando o dia surgir depois de uma noite bem ou mal dormida. Esse sorriso me conquista quando aparece sorrateiro querendo não querer. O acaso faz por mim o que a razão nunca fez. Ele pede para que eu arrombe a vida, invada cada centímetro do futuro, e não peça permissão para voar. Nesse mundo complicado, em que as pistas estão sempre cheias de regras, meu aeroporto se fez num espaço livre, e sei que posso fazer o que me faz bem. Posso brincar de descobrir desenhos onde os outros viram apenas riscos, posso transformar meus pesadelos em sonhos infantis. Posso criar jardim de simples ramalhetes.
Vejo sozinho o que outros gostariam de ver, e eu sei mesmo sem querer saber, que você vê o mesmo que eu. Não importa se foram 8 ou 12 palavras, traga mais duas, faça vinte e duas palavras. Não importa se ainda serão 40, 80, 90, o quanto não sei. Importa a delícia envolvente que se manifesta em cada despertar. Juntos vemos um mundo colorido sem portas ou janelas. E num tom de azul que encanta o universo, se desenrola o pergaminho que traz da alma a poesia nerudiana.
Podemos ser brindados pela deliciosa margarina derretendo, enquanto ocupa com o seu calor todo o corpo da torrada, ou ouvir o bom dia cifrado de Elvis nos brindando, diretamente de Las Vegas, fazendo o mundo esquecer que o homem chegou a lua. Para que lua, se as estrelas ganharam o dom de controlar os mares?
Os versos parecem repetidos em suas palavras, mas existe por acaso alguma palavra que ainda não tenha sido dita? O que existem são sentidos que ainda não foram atribuídos, explicações que ainda não cursaram seu périplo total de situações.
O que preciso é apenas atenção. Essa atenção dirá para mim quem sou. Essa atenção me fará perceber o que eu não gosto, e me fará desejar o sabor ingênuo daquilo que provo. Você ficou com a minha música, provamos juntos o som das melodias.
Nunca se chega ao bastante, sempre se quer mais.
Aproveitar o primeiro momento pode ser guardar para si a lembrança da última chance.
Isso é um tesouro!
É a riqueza oculta aos olhos de quem não quer ver, ou não sente a alma lapidada o bastante para perceber que o sol está dando bom dia todas as manhãs.
O sol brilha do alto do seu esplendor e assim consegue transmitir calor, para quem aceitar seus raios, e estampar no peito o reflexo de mais um dia sem nuvens. Assim diremos adeus a dor, pois o desejo de todo sofredor é encontrar algo que possa lhe garantir ao menos um minuto de prazer. Quero apenas uma chance pra tentar viver sem dor. Deita aqui perto de mim, e com simples palavras versadas, ouvirei uma serenata representada, justamente por você que nunca falou muito.
Aquelas coisas metafóricas querem dizer algo que todo mundo sabe, mas as pessoas não percebem, justamente por estarem envoltas em mesquinharias que as tornam órfãs de sentimento. Fazem perguntas demais, e esperam respostas que eu não tenho. Não brigarei por causa disso. Apenas devo dizer que já me acostumei a encarar seu rosto, a ouvir sua voz, a ser despido pelo seu olhar. Isso me faz sempre tentar encontrar uma forma de resolver suas indagações. Acompanho você me acompanhando, só assim percebo que não estou só. Será que isso tudo não é nada do que estou pensando? Se não for, ligarei o sinal de alerta, e saberei que isso pouco importa.
Quando olhei pra frente, pude ver um dos mais belos quadros que as circunstâncias criaram. Até quis evitar, mas não pude reagir. Vi a locomotiva cruzando o caminho, onde o menino até então soltava pipas, e agora precisava guardar os brinquedos e parecer um homem adulto. Nessas circunstâncias, o melhor seria não resistir e se entregar ao espaço nítido das emoções guardadas. Tolice seria guardar todos os medos para viver a vida sem aventuras. A loucura de procurar sorrir é apenas um alerta que diz que a razão não é o melhor dos ingredientes quando queremos experimentar o mundo seguindo num trem azul.
Um desenho de traços perfeitos. Um desenho que imaginei, consertei, e que fiz como quis, só para poder ficar olhando sem temor. Flores de um jardim plantado nas margens dessa rodovia que chamamos de vida. Flores em vasos singelos e frágeis, intocados. Flores como amor-perfeito, quando ainda podia passear livremente pelas esferas do pensamento subentendido, e agora flores não-te-esqueças-de-mim, quando ser importante para você, passou a ser uma das coisas que eu mais quero.
As intenções não são como parecem ser, elas sempre escondem aquilo que mais querem. Por isso precisamos acreditar que sempre há como aprender a ser melhor. Mais uma dose, é claro que eu tô afim. O feitiço jogado sobre a vida nos faz bem. Ele demonstra um prazer distinto, uma sensação desconhecida. Algo que sempre se quer, algo que se quer bem. Um tudo guardado na menor partícula do tempo, que inteiramente lançado na memória, se transforma naquilo que mais gostamos.
A ceia está posta no Éden. Caminhando com o cesto de frutas, chapeuzinho vermelho se encontra em perigo. Ela vai pela estrada, buscando emoções e despertando os sentidos. O banquete tem frutos proibidos. O anjo traz a espada para expulsar. Em sua boca uma folha de hortelã, que refresca suas palavras, reflete em suas asas o céu, e o faz mirar determinada a maçã. A chave do pecado está entregue. Á água pura se tornou veneno. Não foi transformada em vinho. Mas é nela que os convivas querem se embebedar, se esbaldar. Querem se lançar em encanto, em canto, em coro celestial, nos quatro cantos do carnaval. São os olhos do futuro nas taças dos olhares profundos. São o esporte, contando em cenas pelo livro aberto. São a sorte, encontrada apenas quando se fez a escolha. São para sempre, como tudo aquilo que se guarda. São a expressão das mãos dadas em sinal de amizade, deixando sucumbir a vontade. São o antes, com a garantia de que alguma forma inexata e imprecisa virá depois. São os raios do calor que dispensam a coberta num dia frio.
“Feche os olhos, esconda o sorriso, e bendiga ao Senhor: Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, tende piedade de nós, Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, dá-nos a paz”