domingo, 16 de agosto de 2009

O MUNDO DIZ ADEUS - TARDE

Os cavaleiros da Fome, Morte, Peste e Guerra organizam seu campo de ataque. São os verdadeiros guerreiros desses dias. Estão colhendo as autênticas taças da alegria. Sentam-se para celebrar. Até eles brigarão em breve, pois não haverá mais trabalho a fazer.
Não me entrego sem lutar. O coração pulsa. Diante de tudo aquilo que aprendi, me render, nunca foi lição de casa. Tombarei na certeza de que lutei até ouvir o último toque da corneta ordenado a retirada.
Carrego tochas, como um campesino medieval, buscando lobisomens e feras da floresta. Não sei contra o que lutar. Está dentro de mim. Está preso em meu peito essa marca da disposição. Ilumino tardes que já são ensolaradas, na esperança de que meu fogo deixe aceso o sol e o faça uma estrela maior. Estrela maior? Ele já está condenado. Brilha como quer, e brilhará por quanto tempo sua energia permitir.
Queria brincar como criança, queria correr atrás da dança. Tinha o desejo de elevar minhas orações como um velho templário cansado de ver tanto sangue escorrer pela disputa de Jerusalém. Guardião do Templo e dos seus tesouros. Guardião das espadas que se ergueram em batalha, chamando o inimigo para o confronto final. Essa maldição recaiu sobre mim. Fui lavado pelo sangue dos mortos no céu.
Uma peste estava a solta pelo mundo. Pessoas usavam máscaras para tentar se proteger do infortúnio, essa medida, porém, pouco ajudava naquele momento derradeiro. As máscaras apenas escondiam o rosto das testemunhas desse combate final.
Cada vez mais, as mortes se tornavam o tema central do noticiário. Números omitidos, problema que não era contido. O mundo se curvava diante do invisível. O homem que completava seus 40 anos de conquista do espaço, não conseguia eliminar o inimigo que estava no ar.
Os sinais foram se tornando cada vez mais freqüentes, impiedosos. Febre alta, tosses, pulmões condenados pelo peso da contaminação. Sangue que vertia da boca após um esforço exagerado. Falta de ar, e a garganta presa como que por um garrote que vai longe apertado. Combalidos combatentes tentavam sem sucesso sobreviver. As mortes se alastravam. Espalhavam-se com a rapidez da paixão na alma romanceada.
Cemitérios não mais suportavam o número de novos moradores. Foi aprovada uma lei que permitia enterros em outros lugares. Buracos enterravam as vítimas que logo perdiam seu lugar de últimas, para outras que chegavam sem parar. A fila para o sono do descanso eterno diminuía, enquanto os olhos que se cerravam para o mundo multiplicavam-se.
Lágrimas nem bem secavam, e já voltavam a rolar. Amigos, parentes, conhecidos. Todos estavam perdendo todos. Mãos eram esticadas como que pedindo ajuda, e não encontravam outras mãos que lhes pudessem prestar auxílio. A peste se espalhava.
Os homens não mais viam seus bens e suas posses como algo imprescindível, afinal, elas não tinham a capacidade de lhes garantir a vida, e nem sequer podiam esticar um segundo do seu fôlego. Eram feitas trocas com o universo. Mas a vida despedia-se com pressa. Parecia que ela estava indo para outro lugar.
Foi tirado do homem direito de viver. Sim, justamente ele, o predador das espécies, o escritor das lista de extinção, era agora a presa sendo obrigada a contar a própria perdição. Ele tinha não só a dor de ver a morte, como também a capacidade intelectual para reconhecer que era um fraco e derrotado sucumbindo ao vírus. O homem mudou de lado.
As religiões não tinham a resposta. A filosofia se perdeu em suas complicações teóricas. A ciência se encontrava apenas com o rei, diante de duas torres, fugindo do inevitável xeque mate. Tentava correr pelo tabuleiro apenas para reconhecer que permaneceu mais tempo que o esperado.
Presenciávamos o encontro cósmico da vida com a morte. Beijos sem fôlego num amor eterno que escrevia seu epitáfio. A morte estava vencendo. Ela estava anulando milhões de anos de evolução. Ela estava anulando tudo que escrevemos tudo que deixamos. Provava pela sua audácia que o homem não é, senão uma pequena partícula no contexto dos grandes acontecimentos. Que o homem não podia controlar absolutamente nada! Justo ele que passara séculos acreditando que era a causa e a medida das coisas.
O medo impedia que as pessoas se cumprimentassem. Doentes isolados caminhavam de um lado para o outro. Não havia mais espaço para quarentena, e os saudáveis eram vistos com inveja. A infecção estava acontecendo num ritmo alucinante. O vírus sofreu mutação, e agora se apresentava mais forte. A forma mais branda de se despedir da vida, era aceitando a condenação posta sobre os ombros.
Correndo rumo ao infinito, abri meus braços ao vento, e percebi que o temporal acompanha as brisas suaves. O céu que já foi azul impõe agora seu cinza ruidoso. O que era verde, já não existe mais. Quem me dera acreditar que as coisas não acontecem de verdade. O fogo escreve seus rabiscos no rascunho celeste. Ouço um trovão. Vejo um raio.
Amanhã não é o dia separado de hoje por uma noite, mas uma expectativa de continuar escrevendo por mais um tempo a coletânea das causas e efeitos, relacionados intencionalmente e chamados assim de vida.
Com o tempo as cidades foram se calando. Os carros pararam de andar. Não havia quem os dirigisse. Os mercados e lojas começaram a ficar vazios. As pessoas simplesmente estavam desaparecendo.


O MUNDO DIZ ADEUS - NOITE



Levantei do meu leito, verdadeiro depósito da minha energia, e vi um mundo desolado. Algumas pessoas haviam resistido, eu estava entre elas. Nosso organismo nos havia condenado a relatar os últimos dias da história humana na terra. Despedimo-nos de todos, e na hora derradeira não restou ninguém para se despedir de nós.
Sobrávamos como verdadeiros acusados, sentenciados a pena da sobrevivência quando todos dela se despediam. Nossa pena era a culpa pela total destruição.
Animais nos olhavam como vitoriosos. Não tínhamos sequer a vontade de protestar. Convencidos da nossa fatalidade, certos de que não completaríamos idade, estávamos ao ponto de gritar para o maquinista, e pedir para ele parar de uma vez por todas esse trem. Todos queriam saltar do último vagão. Queríamos apenas o barulho tranqüilo de uma estação.
Como brigávamos em outros tempos. Como fomos mesquinhos na nossa ganância por gratidão. Tudo que foi feito se desfez. Não tínhamos mais músicas, não tínhamos mais som. Era o silêncio da morte que tomava uma forma acidentada de elegias e odes ao desconhecido.
Vida que te quero vida:
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colméia cortada nas turquesas.

Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.

A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva

E tua mão voltou de seu vôo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra. (Soneto XXXV – Pablo Neruda)

Era diferente viver. Os dias não eram mais separados pelos nomes. Confundíamos a dor de um sábado a noite com o cansaço de uma segunda. As semanas e os meses ficaram nas contagens antigas. Foram sepultadas no passado seleto.
De que valeu tudo isso? Com lágrimas nos perguntávamos! Ninguém havia para ouvir a pergunta. Todos morreram. Seríamos os últimos a chegar. Ao céu das celebrações e alegria eterna. Ao inferno das chamas e lástimas atemporais. Ao purgatório das crises existenciais, ou a nada que sepultou o último suspiro da chance. Para onde iríamos?
Sinto o sangue na garganta. Sinto o peso do mundo sobre meu peito. Deito na campina, minha última cama, vejo o céu e as aves que alegremente saúdam a nova estação. Contemplei a natureza viva, e a esperança morta. Consolidei meus passos na última parada. O coração ficava sonolento, e não mais batia forte, apenas palpitava preguiçoso. Dores no peito, mas não de amores experimentados e momentos desfeitos. Dores da despedida.
A vida que tanto amei, a vida que celebrei, abandonava-me agora. Ela não era a primeira a fazer isso, mas era a única partida que eu não poderia evitar.
Nunca soube experimenta-la direito, nunca soube provar seu verdadeiro gosto. Fiz perguntas demais, e não fiquei contente com as respostas. Ela sempre quis ver o meu sorriso, e eu julgava a vida por não me dar motivos pra sorrir. Ele me alegrava na perda do juízo, e eu queria diante dos seus olhos padecer.
Fui poeta de letras ligeiras, fui cantor de músicas curtas. Minha poesia será enterrada junto comigo. Quantos versos trancados na minha alma, quantas frases fiquei sem dizer. Não é a esperança repleta que me acalma, e a certeza de que as palavras estão a morrer.
Fecho os olhos e me cubro com o manto do inevitável. Não foram cenas minhas últimas lembranças, mas o som do inesgotável. O vento continuava soprando fiel sobre meu corpo. Os pássaros não se davam conta da despedida. As visitas continuavam sendo recebidas, como planos de um plano exultante, e eu, somente eu no meu universo precário dava adeus ao mundo que criei.
Comigo acabava meu universo particular, cultivado sob o sol da esperança de sorrir verdadeiro e de um dia deixar de sonhar.

sábado, 15 de agosto de 2009

REVIVER WOODSTOCK

Woodstock foi a beleza e o prazer concentrados sutilmente num evento como um grande bolo doce com cerejas e chantilly. A superação incontestável da criatividade de uma geração. A demonstração nítida de que é possível promover algo que fique para sempre escrito na memória. A prova de que a vontade é a mãe de tudo aquilo que se quer lembrar.
Foi o momento mais intenso que o mundo viveu. Surpresas que até então não tinham sido experimentadas souberam dar aos participantes uma dose de lembrança que nem as eras do gelo ou não, poderão apagar.
Poderia ser refletido pela eternidade adentro, caso fosse reproduzido no Salão de Espelhos do Palácio de Versalhes, já que esse salão sempre foi reservado para grandes ações. Lados vencedores que exultavam a hora chegada.
Gira o espelho. Gira o mundo todo ao seu redor. Mesmo olhando lúcido para ele, vejo sua superfície embaçada. Mesmo achando que é cedo, adentro aos portões da madrugada. Um reflexo de tudo o que eu quis ser, de tudo que hoje sou. Um momento em que me guardo secreto para mostrar que nesse deserto, água pura já se provou.
Corpos em sintonia com o universo em movimento deitavam sobre o chão de vidro. Esbaldavam-se nas sensações que aquelas longas horas podiam proporcionar. Foi intenso, foi surreal, foi inesquecível. Surpreendente.
Quando palavras e gostos brigam pelo espaço das bocas, pode-se dizer que a fome é insaciável. Jogar palavras para o espaço, correr para buscá-las, e trazer preso nos braços um presente para exaltá-las. Assim foi Woodstock.
Não digam os admiradores das doutrinas falsas que foi apenas Sexo Drogas e Rock And Roll. Esse olhar superficial sempre correu o risco do equívoco, já que é justamente nas profundezas do inteligível que habita a função do existir. Foi muito mais do que aquilo que ousam dizer.
Foi o sexo pela vontade de estar perto. Vontade de abraçar e fazer carinho, numa troca de experiências que o mundo não entenderia. Foi carne com peito oferecido como travesseiro. Tempo que reclamava pro tempo do tempo que passava ligeiro. Corpos sem censura que sentiam a vontade de se olhar sob a benção certa da ternura. Jovens com segredos entre si. Jovens que sentiam o prazer na conversa, que faziam de tudo para o outro rir. Depois que os dias terminaram a falta se fez sentir. Faz falta a certeza de que é possível ser feliz.
Foram drogas da poesia, feitas num tom de improviso ou buscadas nos celebrados autores, que tornavam os pretensos escritores verdadeiras feras prontas a rasgar tudo que escreveram. Eles sabiam, porém, que sobre aquele momento, palavra nenhuma teria efeito completo. Nem mesmo um vocabulário inteiro alcançaria aquele instante em que a terra podia tocar o céu.
Foi Rock and Roll na força do termo. Refletiu a intensidade de uma rocha rolando pelos precipícios nos caminhos do universo, acertando mortais que tentavam escrever seus versos. Foram músicas da noite. Músicas mandadas num tom de cumplicidade como nunca antes fora feito. Letras e canções procuradas e ouvidas como forma de dizer boa noite.
Não estive lá. Meus sonhos me conduziram aquela fazenda no Estado de Nova York. O que plantaram ali? Plantaram uma semente fortalecida pelo tempo que rende frutos saborosos. As melhores uvas rendendo os melhores vinhos. Não era Cabernet, talvez fosse uma autêntica Malbec com seu fino trato. Dando prazer ao paladar, como nesses dias concede prazer ao olfato.
Pessoas que estiveram lá, hoje se encontram no auge da sua idade. Carregam consigo olhares que guardam um segredo, cruzam esses mesmos olhares trocando informações entre confidentes. Já foram jovens loucos. Já foram jovens vivendo tão intensamente aqueles momentos, que caso seus dias acabassem ali, poderiam dizer ter valido a pena. Estiveram lá. Experimentaram Woodstock que derramava sobre suas bocas todo seu sabor doce com ação afetiva.
Trovões anunciaram a chuva! E como choveu! Baldes, panelas, lixeiras, todo recipiente possível era usado na tentativa de tirar a água que transbordava. Pessoas corriam com suas camisetas molhadas atraindo assim toda atenção ao redor. Camisetas que colavam, como uma vontade que não quer nos abandonar. As gotas quentes pelo verão do hemisfério, selavam cada centímetro daqueles tecidos. Pessoas molhadas iam à cama, sentindo que a liberdade verdadeiramente lhes dava permissão para se deitar.
Após viverem o inexpressável partiram para casa, com a finalidade de consolar o choro dos amigos. Deixaram apetrechos para trás. Partes da festa que não puderam ser levadas. Deixaram em cada metro quadrado uma marca de si mesmos. Jogaram garrafas e roupas pelo caminho, como uma forma de agradecer a terra por tudo que havia feito.
Hoje cartas anônimas resplandecem a perfeição de tudo aquilo. Nomes que se ocultam atrás de nomes como forma de esconder a face rubra e surpreendem pela força da descrição. Frases guardadas como o tesouro em um baú escondido.
Agosto de 1969, um mês que ficará pra sempre guardado por causa da sua história. Foram almas se encontrando em inteligência. Foram corpos dançando sem clemência. Danças trocadas por outros sonhos inimagináveis. Pela primeira vez o exercício foi feito. Exercício de pele, exercício de intelecto. Músicas que já tinham tocado outras vezes, mas que agora pelo torpor instantâneo da sedução, ganhavam notas repletas de suavidade celeste. Cor do céu.
A intensidade que foi Woodstock será algo lembrado para sempre e sempre. Nossa sorte é de que os sons daquele agosto continuam ecoando, e continuarão por quanto tempo seus participantes quiserem. Nada faz tão bem quanto a lembrança do que é bom.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

ALGUMA COISA FORTE POR FAVOR.

Quantas estrelas eu posso contar durante a noite? Depende quanto tempo eu queira passar olhando o céu. A vista perde a noção de quantidade, e quando menos se espera o que se vê não é mais a realidade. Diga adeus ao passo largo da saudade.
Essa tormenta que não passa deixa no rosto um sorriso sem graça, e agora penso nas corridas inveteradas pelas ruas, no calabouço da madrugada. Trancando a miséria da fome de comida viva, e fazendo-me perceber o quanto é cedo, e eu ainda nem comecei a experimentar a vida. Em pouco tempo não serei mais quem eu sou. Serei uma ventania expressa nas vidraças embaçadas, soprando o torpor dos buracos profundos que cavei com meus pés.
Procuro a sorte de um copo tranqüilo posto sobre a mesa de uma estação nova, de um verão tropical. Procuro o que sobrou de uma fruta mordida no cesto das expectativas desconcertantes, e mato a sede na saliva de uma boca umedecida por um copo de whiskey, sem gelo, e aquecido pelo calor que sai a todo vapor dos pulmões ofegantes.
Busco algum trocado para o mendigo tombado na vala comum do dia, mas não acho nada além de moedas que foram separadas para o próximo trago.
Uma bela noite de bebedeira e farra, sempre antecede um dia de orações e água mineral. É saúde paga a prestação, contemplada com previsão. A vida sem a experiência do saca rolhas, acaba se tornando uma etapa que apenas precede o sono eterno. Beba para sonhar acordado, e discernir embriagado a diferença entre o barulho de um simples som, do encanto de uma sinfonia quando está atordoado.
Gim, Vodka, Whiskey, Conhaque, uma batida de alguma coisa que não seja coração. A bebida que é apreciada nas vitórias, é necessária nas derrotas. É o néctar oculto atrás da flor da coragem, que inspira o viajante parado, e segura o paradeiro da viagem.
Dê-me um lápis e um papel e eu ganharei o mundo. Dê-me a terra e eu mostrarei o quanto o céu é profundo. Sentirei o perfume de uma flor no lixo, e acharei uma entonação distorcida nas festas da Belle Epoque.
Escrever versos, entoar poesias, declamar as sensações, pensar na intelectualidade complexa do entendimento das coisas que nos deixam absortos em nosso próprio raciocínio, são exercícios que formam seres fechados dentro da capacidade individual de contemplação. Na verdade o que levaremos do mundo senão a própria quietude diante do grito das indagações? São companheiras únicas, exclusivas da nossa própria exclusão.
Quero uma bebida para adentrar as portas da percepção. Quero derreter o mundo e construí-lo outra vez. Não importa se para isso eu tenha que chamar os parceiros etílicos das poesias livres. Tenho medo da noite e medo desses animais. Estão soltos na selva e brincam o tempo todo, fingindo serem bons, mas querem nos devorar. Saltar no pescoço descoberto e fazer verter o sangue vermelho. Escondo-me atrás das letras que eu criei, escrevo frases pelo avesso que eu deixei.
Quero a metade daquilo que inteiro me divide. Uma bebida por favor, para que o mundo se torne interessante. A bebida é a bengala de um velhinho que mora em mim, mas criança escondida, um dia voltará, aí então saberei quem sou.
Se antes o mal estar precedesse a embriaguez, nós evitaríamos beber em excesso. Mas o prazer, para nos enganar, vai a frente, e esconde suas intenções. Quando sóbrio não sei da onde vim e nem para onde vou, quando bêbado tampouco sei onde estou, é apenas mais um lugar para estar perdido. Sigo em meu pedido.
Quero ser um artista na companhia de bêbados, que somem aos seus desejos uma amizade valente, firme no volante que dirige a vida e busca um veneno para matar a monotonia que agride. A vida está nua, a vida presenteia com tapas na cara. Desperta a sintonia fina, torna fútil a palavra que era rara.
A lança do marasmo atacou diretamente os portões da sensação mórbida, estreitada por sentimentos solitários que afagam um animal. Como uma criatura libertada dos seus próprios limites, solta no desconhecido, brado, corro, arranho, grito, transpondo assim o que antes era apenas um gemido.
Tomo um copo, dois, vários copos inteiros. Bebo um corpo, o mesmo corpo, várias vezes o corpo inteiro. Ele corre se escondendo atrás das garrafas, finjo que não vejo só para procurá-lo mais uma vez. Ele se esconde, grita, para, anda, achando assim que no seu esconderijo sóbrio, a mim ele engana. É o meu corpo que estou a perseguir.
As vezes saio de mim. As vezes me persigo sem saber. Quero agarrar meus próprios pés, e fazer caminho de meus passos, e prender suavemente os meus laços. As vezes me encontro só. Seguro com minhas mãos o palpitar das emoções remotas, e me reconheço perdido, buscando o verdadeiro sentido que se encontra oculto nas cisternas rotas.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

CAFÉ E PIMENTA COM ALTAS ALUCINAÇÕES

O choque dos sabores convidou o paladar para passear na terra da loucura. Esse pântano perdido no tempo, onde o Espírito de Deus paira no abismo. Nada é lógico e a razão se escreve na ternura.
Deus pai criou os planos da redenção. Deus filho se tornou a alegria celestial. O Espírito Santo une Pai e Filho, eternidade divinal.
Esse é o grande motivo de todo o mundo ao redor aparecer. Intuitivo, no mero desprezo pela desconhecida impossibilidade de padecer.
Vamos promover encontros inusitados? Leões passeando a solta, enquanto homens seguem enjaulados. Guarde os seus quadros.
Seqüestre o roqueiro que segue informado e de a ele um ar de funkeiro que desce notas com braços dados.
Faça de uma cadeira o palco da surpresa refletindo nas aventuras tortas que dispensam sutileza. É um corpo que se levanta, que pretende a beleza.
Quando perguntarem qual a cor da sedução, não diga vermelho como que agindo por tradição, antes responda roxo ou azul e crie assim um sinal de aproximação. Misture as cores do mundo, abra os cadeados com a rapidez de suas mãos.
Estenda o tapete roxo numa superfície, e despeje gotas de azul. Gotas cada vez maiores, que envolvem toda a cor disposta. Gotas que se espalham por cada ponto do tecido, conhecendo cada centímetro do lugar onde encosta.
Quando as cores estiverem formando um emaranhando que alcança os infinitos do arrebol, procure o escritório secreto. Seja livre, não seja discreto. Detone com dois pontos e uma arroba sua bomba no atol.
Promova uma cena entre a Santa e o Frei. Deixe-os no armário, que eles segurem a lei.Não estejam os anjos prontos para fazer companhia aos demônios. Seja a Santa Aparecida, certamente apreciada por Antônio. Os garçons ao lado da porta da cozinha já fizeram igual, hoje olham diferentes todo movimento sensual.
Nada é permitido dentro das horas de quem não pode. Com água e espuma doce, faça sorrindo o seu bigode. Viva os irlandeses! Viva os Carcamanos.
Guardanapos são bochechas. Bolo doce vira pão. Não pense que grotesca, a forma livre do poderoso chefão. Mário Puzzo me mataria. Deixe a mágica do universo seus truques escrever. Não inverta as mãos de quem chamam. Pedem para iludir você.
Dispense os restaurantes do ganho, e construa uma taberna. Imite o tom sequioso do fanho, busque seu café numa cisterna. Que os guerreiros do medievo venham saborear. Peixes e camarões à prancha, facas dispensando os garfos para cear. Quanta pernas se cruzam sob as mesas? Quantos sapos se encontram no banheiro?
Dance no espírito louco e desenfreado da desordem. Procure os quartos quando as salas já estiverem em ordem.
Numa porta aberta de guarda roupa escreva seus desejos, coloque ali suas vontades loucas. Chamando para iludir ganhe beijos, seja paciente quando as peças não forem poucas.
Não faça por intenção, aja por lealdade. Não brinque com a imaginação, ela está de braços dados com a realidade.

Pimenta: Não faça barulho no seu canto aquartelado alguém pode chegar!
Café: Como é possível calar a boca do meu lado, boca pronta pra beijar?
Pimenta: Concentrando seu deleite de paz tardia no nobre porte de um Rei,
Café: Você quieto também não ficaria se provasse os lábios que beijei.
Pimenta: Lábios?
Café: Ah, já não sei mais o gosto das horas e nem aquilo que vejo,
Bebi o suco das amoras, provei outra vez o primeiro beijo.
Joguei fora os livros de gramática, colhi a rosa por intenção.
Suave forma da temática, saudade que não segue tradução.

Sente-se num lugar qualquer, e tome uma bela garrafa de tempo. Engula as borboletas e as deixe passear. Quando a timidez rodear a boca, meus olhos poderão olhar.
Saiba sobre as verdades que importam para o jogo. O mundo gira e você jamais poderá impedir. Não tenha medo de parecer um pouco bobo. Lindos olhares profundos começam a sorrir. Isso vale a pena.

Cante as correntezas costumeiras
Assim as armas acenarão
Alegre aquela alma com anseio


Com o cuidado certo do coração
Abrace a aliança aduaneira
Antes, agora, azul, amora adoçarão.


Celebre as coisas corriqueiras e contemple cada costume certo.
A ânsia assume o adorável alaúde
Ânfora que aguarda a água, alma alva de alvo aberto.


Sorria sempre, sabendo serenamente que seus sonhos serão satisfeitos. Seu sorriso sairá sem sinal de súplica, suavizando a sedução. Saiba que os segredos surgem salvando a sensualidade. Siga os sons saudosos e saberá a soma solta da Saudade.


EU AMO MINHA MÃE!!!!

A água poderia parar de correr, a chuva deixar de cair,
E quem sabe as lágrimas seriam as únicas gotas a molhar o chão.
Esse chão seco que nem ao menos entende quanto vale sua terra.

A flor poderia não nascer, a primavera então deixaria de existir,
E somente os espinhos fariam sangrar a mão.

O sol poderia não brilhar, o dia não seria mais dia
E a noite perderia seu mistério que consiste na espera do alvorecer,
Esse alvorecer que muitas vezes nos traz a vontade de morrer.

O mundo poderia parar, caso algum louco queira descer,
Mas mesmo assim muitos continuariam sentados até a próxima estação.

O tempo que não cansa, a vida que não pára,
A sorte que se lança numa oportunidade rara
De ver tudo o que ficou para trás e perceber que do amor não se separa.

Essa minha vida poderia deixar de existir,
Acabaria então a lágrima, o sol, a chuva, a noite e a bruma.

Nesse fim, também acabaria a oportunidade do mundo observar,
Que algumas pessoas nascem, outras vivem, outras choram, outras desistem
Mas apenas algumas vencem, essa é você. Cumpra-se e que o mundo inteiro saiba.


TREMENDO TURBILHÃO


Tinha tudo traçado em tarefas,
Trazido todas as toalhas tecidas
Transformado a tina em tanque trajado
Tampouco tirei todo trajeto tocado.

Tanto tempo tardio,
Trepidando truculento
Tomando tento e
Tecendo túnicas tingidas em
Tonéis tintos.

Torrentes tempestuosas,
Trazem tudo triturado,
Tocam o tambor temperado nas
Tardes tórridas e
Temidas das touradas.

Também tentei tirar tudo que
Trazia trancado, tortura!
Tardia trazia, a textura da tontura
Trancada tentativa, e a
Tentação tentou, tentou e também tocou a ti.