segunda-feira, 5 de outubro de 2009

OS ETERNOS 5 MINUTOS...

Olha a noite solitária que ilumina o arrebol encantado que o firmamento preparou. Ela esconde tantos segredos, ela guarda um caderno cheio de desejos que o coração escreveu, que o menino inventou.
O céu joga sobre seus ombros uma luz forte e a lua mostra seu esplendor. Deixa presa a mão da sorte, solta os pés do seu admirador. Olha a lua, e veja meus olhos refletidos na imagem iluminada dando boa noite com beijos de viagem. Ela saiu do seu esconderijo para ver você, e viajaria na cauda de um cometa se você pudesse esperá-la mais uma vez.
Sinta o toque sereno dos meus lábios, e saiba que mesmo quando está com os olhos fechados eu abraço seu olhar. Mesmo quando nega sua tristeza, eu insisto em procurar. Quero ter a certeza de ter feito tudo para secar as lágrimas que seus olhos quiseram derramar. Não diga que não tem nada. Abrace-me e procure meus ombros, eles sempre estão preparados para acolher você.
Veja a tarde. Tarde dos testemunhos sinceros sob o céu nublado. Lança o vento sobre seus cabelos, protege suas asas. Asas de um Anjo que cuido com o prazer do meu tempo. Anjo que solta os cabelos, e os deixa como reféns do vento. Os cabelos ocultaram seus olhos e me fizeram admirar com paixão cada medo do seu coração.
Anjo que dorme ao meu lado. Anjo que levo no peito como um escapulário de santos prateados. Conheço seus mistérios e conheço o cheiro novo de um minuto em cada instante eternizado. Conheço seu sorriso que brilha em torno de cada novo despertar. Conheço sua boca que muda cada vez que pensa no que está falado. Conheço suas manias, que hoje em dia copio mesmo sem pensar.
Poderia descrevê-la apenas com a minha memória. Compor uma música com suas palavras mesmo que não as dissesse outra vez. Poderia recriar cada centímetro do seu corpo. Dizer a dimensão, explicar a textura, relatar o tom, e guardar só para mim o gosto da sua pele. Só não peça para contar-lhe meu primeiro desejo. Poderia contar-lhe todos os outros, do segundo ao último que se reescreve a todo instante. O primeiro, contudo, eu teria de guardar. Preciso respirar para contar-lhe tudo, preciso dormir para sonhar outra vez. Estou sem sono agora e fiquei sem ar há pouco.
Ouço cada toque das suas mãos quando meu rosto se encaixa entre seus dedos. Ouvi uma bela canção quando escutei seu coração batendo dentro do meu peito. Prometi dar-lhe as estrelas em uma visão, e prometi busca-la à noite em oração.
Dormindo sonhei, e sonhando percebi que estava sorrindo pela madrugada. Um sonho que trouxe os presentes que nunca recebi. Um sonho que trouxe você para perto de mim. Descobri que as cores têm cheiro, que os sabores têm sons. Que os sentidos se misturam e que chuva é um tempo bom.
Há muito não sei o que é caminhar pela terra, há muito descobri que existe um espaço eterno para conhecer. Os olhos se perdem dentro de um infinito de coisas e a boca beija as palavras antes dizer que eu preciso dizer.
Durmo tarde todos os dias pensando nas orações que farei. Escondo os pedidos que tenho dentro do meu peito, com vergonha de mostrá-los a alguém. Já chorei, já sorri, já abracei, já me despedi. E hoje anseio assistir a rainha recebendo uma pedra do seu reino.
Sempre tive curiosidade de conhecer o inferno, e arrumei companhia para a viagem. Sempre tive curiosidade de conhecer o céu, e sei que ele poderia se tornar o melhor lugar para passar a eternidade. As pequenas coisas que conheço me fazem conhecer melhor.
Sozinho adormeço outra vez, nessa quietude que o silêncio traz. Estou certo porém, de que quando acordar, meu toque despertará você.


terça-feira, 29 de setembro de 2009

EU PRECISO DIZER...

Agora sai toda a esperança que existe e a autenticidade da vida se reduz a uma cópia de nós mesmos, já que a velhice é apenas uma paródia da vida.
Quando se aprende a viver?
Quando se descobre o sabor contido em cada minuto. Quando se resgata a sensação do tempo que passa veloz como um pensamento, e encerra um dia quando as sensações deixavam o imaginário e tomavam sua forma real.
Gotas festejam o tempo das chuvas. Lugares novos se tornam a expressão do desconhecido. Brilha a velha mobília e aguarda pelas novas paisagens. É a nova estação que chegou. É a resistência curvada diante da vontade. Não pude deixar de colher as uvas, entreguei o gosto daquilo que deixou.
Restou um cheiro que me acompanha enquanto durmo. Visita meu rosto através das cortinas, como os primeiros raios de sol, num dia sem nuvens estampando um céu azul.
Restou o cheiro que verdadeiramente me desperta ao acordar. Suavemente, com suas mãos espalha as marcas das minhas costas, e tal qual a tinta numa tela, expõe os relances do pensamento. Os pingos coloridos perseguem os caminhos do meio, no meio turno. Entendem que o tempo busca um travesseiro para reclinar. Busca no calor, as linhas intensas para escrever.
Palavras que as arvores entenderam bem. Testemunhas da confissão que não é pecado. Ouvem o concerto sincero da melodia, que sob o silêncio quebrado, expressa aquilo que a quietude não soube dizer, ou julgou não bastar.
Fazem música nas noites quentes e poesia nas tardes frias. Celebram o canteiro plantado sob a certeza da descoberta de uma fonte de sorrisos.
Fruta de sabor indescritível que amadureceu lentamente, e despertou à sede da saliva. Entrega-se como fada ao mundo mágico do paraíso, e busca com seus doces desejos recriar o passo encantado.
Quando sentei na pedra e pensei na música eterna, percebi que todas as músicas entravam para o tempo sem fim. Tentei ser carregado nos braços e cai na relva, só me senti seguro injetando seu beijo em mim.
Dei as costas ao céu nublado, e percebi nos olhos que brilhavam o reflexo da minha face rubra. Preferi ser culpado por minhas palavras do que ser condenado, pelo meu silêncio.
Já escrevi sobre silêncios e noites. É solitário demais. Previ a angústia do inexprimível. Contei as letras da ousadia, e deitei na cama das chamas ardentes e infernais. Atormentado pela inquietude daquilo que não pude explicar, e preso pela chance de uma fuga, usando o caminho que sempre me deixava no mesmo lugar, percebi que a vida não repete os sinais, e nos oportuniza uma chance para aproveitar.
Cansei de saber que o que eu mais queria era sempre saber mais. Percebi que a visão é a constatação autêntica da cegueira, já que ela nos limita ao campo possível dos sentidos. Não consegui estar pronto quando a hora chegou, e até hoje procuro o ponteiro que deixou meu relógio completamente perdido nesse tempo louco.
Já esqueci as chaves, já esqueci os óculos, já me senti vazio. Um dia achei que havia acreditado num outro conto vão, mas despertei pelas palavras que soaram sinceras mais uma vez. Acreditei. Acima das minhas inquietudes, habita um desejo de fazer acontecer. Acima do medo, subiu a vontade de poder dizer. Disse. Falei aos ventos que levaram minha mensagem ao coro celeste. Ouvi então os acordes que vinham de além mar, e encontravam as almas no sopro santo do espírito sincero. Desarmei meu corpo diante do pedido que minha alma me fez, e fiquei exposto aguardando um sorriso.
A estrela chorou o brilho do céu na voz vermelha
O infinito rolou solto nas duchas do chafariz
Seus olhos captaram a intensidade da centelhaFogueira e chama ardente envolvendo seus quadris

sábado, 5 de setembro de 2009

É O MITO DO ETERNO

Não adianta tentar entender as razões pelas quais as coisas acontecem. Elas sempre acontecem. Aguardar a mudança no ritmo vertiginoso dos fatos é como buscar o calor no inverno glacial.
Esse mito do eterno retorno ao imaginário primitivo faz com que o belo seja o impulso do grito dado pelo artista em plena construção da sua obra. É o combustível idealizado das forças que sucumbem plenamente pelas falsas insinuações.
A fatalidade e sua forma elástica arrebentam as linhas áureas dos traços infinitos. Transformam a vida num imenso hospital, onde cada doente procura mudar de cama, e trocar suas dores pelas dores daqueles que fazem a visitação.
Os traços sutis que escancaram o desfiladeiro são as marcas das experiências que cerraram meus olhos para o lugar comum. O passeio saudável da imaginação, voltou doente e aflito. A força oculta do que não aconteceu é ainda a maior segurança contra a exposição de uma concepção.
Enquanto tentava acreditar nas esferas sutis das boas sensações, sentei sob o pé plantado da saudade e à sombra da árvore da felicidade degustei os gomos da solidão. Sabor azedo, comparado as expectativas soltas no mundo perfeito das idéias, mas sem meios de formalizar sensivelmente uma possibilidade. Levantei imponente para passear pelas campinas da esperança, e caí pasmo na poça da realidade.
Passei a ser vidente, o presente passei a amá-lo. Prevejo sempre o futuro, desde quando consegui inventá-lo. Assim a vida se constrói dentro das imagens possíveis do que concebo. Nas fossas profundas se destrói a ocasião daquilo que percebo. Reinam flores, reinam animais, frutos mordidos da poesia morta. A lida não se dá com carinhos recebidos, a lida é lida de maneira torta. Na inquietude vasta das coisas que virão, a noite apaga do sol luz do seu clarão. Não percebi a causa poética da fartura, não devolvi o malte que tinha pego. Não perco o rumo das oportunidades refletidas, mas comprometo a taça erguida do sossego.
E quando os olhos pesam sob o cansaço da contemplação, chamo Poe, que se despede da minha mão:
“Santa Maria! Volve o teu olhar tão belo,
de lá dos altos céus, do teu trono sagrado,
para a prece fervente e para o amor singelo
que te oferta, da terra, o filho do pecado.
Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente,
meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria!
Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente,
quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria!
No tempo que passou veloz, brilhante,
quando nunca nuvem qualquer meu céu escureceu,
temeste que me fosse a inconstância empolgando
e guiaste minha alma a ti, para o que é teu.
Hoje, que o temporal do Destino ao Passado
e sobre o meu Presente espessas sombras lança,
fulgure ao menos meu Futuro, iluminado
por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.”

domingo, 23 de agosto de 2009

JÁ ESTAVA NA HORA DE MUDAR

Entre quatro paredes de ferro e vidro escrevi partes do meu destino. Expus no leito reclinado meu lado visceral e tentei transformar em palavras coisas que não se podem dizer. Gaguejei diante de minha versão. Larguei o terno no canto da sala, e meu tom formal foi abandonado num lugar que nem sei mais. Não vou procurá-lo outra vez. Desnudo e exposto pude mostrar o que meu sonho me fez.
Viajei por vários dias, e voltei semanas no tempo, tentando recuperar o momento exato onde comecei a me perder. Perdendo a mim mesmo, encontrei o outro eu que não conhecia. Tornamo-nos amigos, e não quero deixá-lo partir. O tempo que eu tive para pensar passou rápido demais. Não consigo separar a manhã e a tarde, senão pelo fato que de manhã alguns homens procuravam outros para matar.
Durante a manhã as águas caem frias, os vidros separam os beijos. Durante a manhã me abaixo para abrir a geladeira e sinto o frio percorrendo meu corpo. Durante a manhã os lençóis estão desarrumados, as cobertas espantam o frio. Enquanto numa cama pequena, fazendo poemas consigo me cobrir de amor.
O que eu faço comigo? Recupero meu silêncio ofegante tratando com remédios doces meu peito de luz ofuscante. O capitão da fragata considera o horário necessário e traz as vestes molhadas lançadas sobre o armário. Nos cômodos de chão liso, quase caí, escorreguei no meu desejo e entreguei meus braços acorrentados e meu corpo preso.
A areia do deserto ficou desfigurada em sua forma original. Sobre ela, se encontram destroços de um quadro que caiu no chão. Os rios que encheram até a borda, secam agora sob o imenso calor. Vozes que podem ser escutadas no escuro, escondem olhos que não podem se ver, mas escondem o toque das mãos.
Surpresas são a receita diagnosticada para uma cura que parece distante do quadro real das possibilidades. Detalhes são notados tão rapidamente, que a sensação é de que sempre estiveram ali. Percepções que se escrevem numa versão alterada do que sou. Não podem repetir tudo o que digo, não dizem tudo o que eu poderia repetir. Guardam silêncio num peito que não alarmou, mas que bateu no ritmo acelerado dos minutos que correm afobados para encontrar o tempo que terminou.
Vida acesa com supostas tochas que no colapso aceso das chamas exaustas pela sensação do som invasor das trombetas inimigas, não escolhem dias certos, não clareiam a tormenta inerte. Buscam imagens da prateleira que lançou. Não sei contar os números. Acho que alguma coisa ficou pra trás. Ao alcançar o desconhecido e mesmo, que enlouquecido, posso acabar por perder toda a compreensão das minhas visões. Sei apenas que um dia pude dizer que as vi! Se eu falhasse no meu salto para as coisas inaudíveis e inomináveis, saberia que um dia tive forças pra pular.
Beijos em príncipes condenados a sapos, recuperados do pântano e abraçados pela pura e simples vontade de abraçar. Princesas que com os pés de cristal, escondidos pela meia, ganharam o trono, condenaram-no com alguns goles exagerados, e voltaram a ganhar. Troféus da primeira vez. Troféus do que nunca aconteceu. Não consigo entender como as coisas fogem tão depressa, não consigo entender.
Antes que os homens fossem mortos sob a ordem da manhã, entrei com a delicia dos meus sonhos, sob o gosto da refeição nordestina, buscando raptar a feiticeira, trazendo quem já almoçou com a batina. Procurando o toque de uma música final percebi que as notas foram perfeitas, no momento exato da ansiedade. Animados sem receio, corpos por inteiro, imaginação provada sem vaidade. Olhei meus próprios olhos, visualizei meu próprio cansaço. Pedi se podia seguir viagem, viajei desajeitado pelo seu enlaço. Óculos e vírgulas num texto surreal.


domingo, 16 de agosto de 2009

O CHEIRO SE DESPEDE, APROVEITE O DIA

Sol que te quero quente, para onde seus raios apontam essa tarde? Calor que te quero quente, para onde você foi quando as janelas se quebraram?
Noite adentro, céu de estrelas, mundo meu, paisagem derradeira. Senti o calafrio no peito aberto. Manchei o azul da vida celeste com as areias secas e tenazes do deserto.
Construí as entranhas da terra, e joguei nelas meu alívio imediato. Percebi que a noite dos sonhos é aquilo que nos anima a viver mais um dia. Sem eles muita coisa não se escreveria.
O passado é uma verdade que não fugirá jamais. Aquilo que minha cabeça guarda está protegido como um tesouro no final da jornada. Onde estão as jóias estava o coração como guerreiro protetor.
Nada apaga as escritas estrelares, nada substitui os dias reservados. O que acontece é apenas um encontro com a realidade que sempre esteve ali. O som dos segredos silencia. A cumplicidade das amizades perpetua. Os corpos morrem enquanto as lembranças vivem para sempre.
Tinha apenas livros. Tinha apenas formas e escudos. Tive apenas a audácia de desafiar a mim. Justo eu que nas sentenças iguais escrevi minhas notas, encontrei uma música diferente de tudo que já havia escutado. Som que tocou alto e cobriu com fogo o inverno gelado.
Depois de velho, senti a criança que um dia abandonei. Achei que ela não fosse me procurar outra vez, mas vi o pequeno eu me levando pra brincar. Como me diverti naqueles parquinhos! Fui criança solta pelas campinas, fui moleque travesso apostando corrida nas subidas, fui fotógrafo das águas correndo, ganhei da vida minutos eternos quando já estava perdendo.
Não há nada errado com o tudo. Tudo está bem, e no lugar em que devia estar. Eu é que desloquei meu mundo, por um instante inesquecível fui livre pra voar. Eu abandonei a sentença, eu abandonei minha segurança. Tudo que viceja, um dia agoniza. Tudo que vivemos um dia se eterniza. E na tarde de hoje são outras lembranças que vívidas tomam o lugar da história. Outros cúmplices e outras memórias.
Não tenho direito de pedir. Trouxe uma bagagem em minhas costas que não tive tempo de guardar. Não sabia que nessa viagem chamada de vida poderia nova vida aproximar. Perdi as contas e me atrapalhei nas letras. Engasguei-me com o gelo quando tomei a água do meu whiskey. Viva o sentimento das coisas que não compreendemos.
Se fosse outra vida, se a vida ao menos tivesse livre, saberia que minha cadeia tinha guardado o carinho em suas celas. Mas ela estava presa como eu. Ela guardava um segredo valioso, ela garimpava pedras em tom ruidoso.
Dorme com a lembrança dos carinhos, dorme com o gosto das amoras. Nada passa assim sozinho, nada jogará o passado aberto para fora.
Tudo está bem. Tudo está onde deveria estar. Eu que me perdi no desconhecido que sonhei, eu que me permiti ter asas pra voar. As correntes continuam segurando as lembranças, elas sempre continuarão. A vida seguirá acesa como sempre prosseguiu. As conversas trarão cumplicidade como sempre se viu.
Estou aqui para ouvir, estou aqui para falar. Só não peça para sentir aquilo que não vou levar. Sei que dessa vez contei uma história diferente para mim. A história que suplantou todas as histórias que já li. Não senti vontade de escrever outros contos, não senti vontade ler outros cantos. Silenciei no mosteiro. Agradeci ao Senhor:
Pater noster, Qui es in caelis, sanctificetur nomem tuum.
Adveniat regnum tuum.
Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra.
Panen nostrum quotidianum da nobis hodie.
Et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostri.
Et ne nos inducas in tentationem: sed libera nos a malo.
Amen.
Não posso, porém, rezar sozinho. A alegria da salvação recai sobre outras almas, que talvez não acreditem tanto nessa beleza única. Duvido que busquem conhecer tão bem as palavras santas da prece celestial. Não experimentam nos lábios o gosto divino do toque divinal, mas devem rezar. Rezam para os santos, rezam para o próprio céu.
Viagens em torno do mundo próximo, viagens que imaginei serem somente minhas. Como fui criança no solo inóspito, como dirigi os planos na cozinha!
Momentos, momentos e momentos. Tudo segue o presente da hora. Momentos que passam para o portal eterno, momentos que guardam secretos a história de uma vida. Instantes, instantes e instantes. Deixam na estante o retrato do passado, abrem a porta que tocou. Partem para seu mundo do universo alado, dizem adeus porque outro instante chegou.


O MUNDO DIZ ADEUS - MANHÃ

A vida estava dando adeus. Acordei envolto num silêncio como nunca antes acontecera. Percebi o quão longe cheguei nessa batalha. Sonhos deixavam de ser sonhos. Dormir era a única maneira de trazer alívio para o peso da existência. O pesadelo começava ao acordar, exatamente no instante em que os segundos eram superados com o êxtase de se ter obtido mais um pouco de mel.
A dureza do relógio competia com a leveza do fôlego que lutava cada vez mais desanimado contra sua falta de ar. Não era isso que eu queria para mim. Não era isso que a vida queria para si. Não foram essas as cartas que embaralhei. O jogo estava na sua rodada final.
Andrajosos seres de maiúscula magnitude imploravam pela salvação. Essa mensagem de conforto tinha ficado pregada numa cruz, e os seus anunciadores estavam morrendo doentes, como todos estavam. A humanidade estava doente. Os seres humanos pediam socorro.
Os dias que precederam essa última noite que eu viveria foram dias turbulentos. A marca da tinta nos quadros romanescos do sentimento, escorreu até o chão e criou novas imagens. Diante disso, fechei os olhos buscando um mundo melhor. Gritei com as mãos nos ouvidos para não escutar as evidências de que o mundo não é como imaginei. Não consegui tirar meu corpo daqui. Não expulsei minha alma atormentada para longe de mim.
Alma presa no meu corpo. Alma presa no meu dorso. Como quis que ela fosse correr lá fora. Como quis que ela deixasse tudo para esquecer. Não posso voltar os caminhos agora, percebo que minhas asas ficaram à mercê.
Ansiava por uma queda livre que me fizesse acordar quando estivesse prestes a tocar o chão. Para onde foram meus heróis? Onde está aquele que prometeu me salvar? Nos sepulcros selados da morte viril, percebi que a fraqueza atordoa aqueles que verdadeiramente desejam lutar. Rouba-nos as últimas chances da fala, e leva as muletas tortas, que usávamos para andar.
Os principados e potestades ocultaram sua face. Asas e harpas estão abandonadas no galpão de coisas velhas. O céu silenciou. Até o carteiro que levava as preces, deixou a entrega por achar o seu trabalho inútil, e também pelo fato de que ele próprio desistiu de iludir as almas. No brilho da eternidade longínqua, aposentadorias são concedidas. Não há mais trabalho, não há mais laser. A lenha arde, crepitando na fogueira. Aquece os caldeirões que servirão o último banquete. Banquete de nós mesmos.
Parecia que encenávamos uma grande peça. Expressávamos com realismo a obra de Giovanni Boccaccio. Cumpríamos fielmente as páginas de Decamerão. Dez dias. Dez jornadas soltas pelo espaço de um tempo que se escreveu sobre tumbas e sobre vitoriosos.
Colhíamos o resultado daquilo que não plantamos. Colhíamos amigos em vozes que eram de louvor. Víamos se cumprir aquilo, que para não sofrer, jamais imaginamos. Com inocência, construí minha casinha de madeira, dei a ela um som da pura substância, e nas suas paredes pintei a sombra do que eu viveria.
Fiquei atordoado pela resposta silenciosa da ausência. Isolei as letras irônicas numa redoma cercada de clemência. Não foi suficiente prometer o espaço nobre das memórias. Não foi o bastante escrever no paraíso o conto de mil histórias. Soluços acompanham o brinde. Soluçando ouvi o tilintar dos cristais que eu não trouxe.
Pablo Neruda, que se safou da desgraça e divinizou seu nome pelas letras do coração, era relembrado agora. Sua forma atemporal de escrita podia ser invocada pelo amor ou pela dor a qualquer momento. Suas palavras diziam:

O Caminho molhado pela água de agosto
brilha como se fosse cortado em lua cheia
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.

Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pecados,
o vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.

Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.

Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
(Soneto LXXIV)


O MUNDO DIZ ADEUS - TARDE

Os cavaleiros da Fome, Morte, Peste e Guerra organizam seu campo de ataque. São os verdadeiros guerreiros desses dias. Estão colhendo as autênticas taças da alegria. Sentam-se para celebrar. Até eles brigarão em breve, pois não haverá mais trabalho a fazer.
Não me entrego sem lutar. O coração pulsa. Diante de tudo aquilo que aprendi, me render, nunca foi lição de casa. Tombarei na certeza de que lutei até ouvir o último toque da corneta ordenado a retirada.
Carrego tochas, como um campesino medieval, buscando lobisomens e feras da floresta. Não sei contra o que lutar. Está dentro de mim. Está preso em meu peito essa marca da disposição. Ilumino tardes que já são ensolaradas, na esperança de que meu fogo deixe aceso o sol e o faça uma estrela maior. Estrela maior? Ele já está condenado. Brilha como quer, e brilhará por quanto tempo sua energia permitir.
Queria brincar como criança, queria correr atrás da dança. Tinha o desejo de elevar minhas orações como um velho templário cansado de ver tanto sangue escorrer pela disputa de Jerusalém. Guardião do Templo e dos seus tesouros. Guardião das espadas que se ergueram em batalha, chamando o inimigo para o confronto final. Essa maldição recaiu sobre mim. Fui lavado pelo sangue dos mortos no céu.
Uma peste estava a solta pelo mundo. Pessoas usavam máscaras para tentar se proteger do infortúnio, essa medida, porém, pouco ajudava naquele momento derradeiro. As máscaras apenas escondiam o rosto das testemunhas desse combate final.
Cada vez mais, as mortes se tornavam o tema central do noticiário. Números omitidos, problema que não era contido. O mundo se curvava diante do invisível. O homem que completava seus 40 anos de conquista do espaço, não conseguia eliminar o inimigo que estava no ar.
Os sinais foram se tornando cada vez mais freqüentes, impiedosos. Febre alta, tosses, pulmões condenados pelo peso da contaminação. Sangue que vertia da boca após um esforço exagerado. Falta de ar, e a garganta presa como que por um garrote que vai longe apertado. Combalidos combatentes tentavam sem sucesso sobreviver. As mortes se alastravam. Espalhavam-se com a rapidez da paixão na alma romanceada.
Cemitérios não mais suportavam o número de novos moradores. Foi aprovada uma lei que permitia enterros em outros lugares. Buracos enterravam as vítimas que logo perdiam seu lugar de últimas, para outras que chegavam sem parar. A fila para o sono do descanso eterno diminuía, enquanto os olhos que se cerravam para o mundo multiplicavam-se.
Lágrimas nem bem secavam, e já voltavam a rolar. Amigos, parentes, conhecidos. Todos estavam perdendo todos. Mãos eram esticadas como que pedindo ajuda, e não encontravam outras mãos que lhes pudessem prestar auxílio. A peste se espalhava.
Os homens não mais viam seus bens e suas posses como algo imprescindível, afinal, elas não tinham a capacidade de lhes garantir a vida, e nem sequer podiam esticar um segundo do seu fôlego. Eram feitas trocas com o universo. Mas a vida despedia-se com pressa. Parecia que ela estava indo para outro lugar.
Foi tirado do homem direito de viver. Sim, justamente ele, o predador das espécies, o escritor das lista de extinção, era agora a presa sendo obrigada a contar a própria perdição. Ele tinha não só a dor de ver a morte, como também a capacidade intelectual para reconhecer que era um fraco e derrotado sucumbindo ao vírus. O homem mudou de lado.
As religiões não tinham a resposta. A filosofia se perdeu em suas complicações teóricas. A ciência se encontrava apenas com o rei, diante de duas torres, fugindo do inevitável xeque mate. Tentava correr pelo tabuleiro apenas para reconhecer que permaneceu mais tempo que o esperado.
Presenciávamos o encontro cósmico da vida com a morte. Beijos sem fôlego num amor eterno que escrevia seu epitáfio. A morte estava vencendo. Ela estava anulando milhões de anos de evolução. Ela estava anulando tudo que escrevemos tudo que deixamos. Provava pela sua audácia que o homem não é, senão uma pequena partícula no contexto dos grandes acontecimentos. Que o homem não podia controlar absolutamente nada! Justo ele que passara séculos acreditando que era a causa e a medida das coisas.
O medo impedia que as pessoas se cumprimentassem. Doentes isolados caminhavam de um lado para o outro. Não havia mais espaço para quarentena, e os saudáveis eram vistos com inveja. A infecção estava acontecendo num ritmo alucinante. O vírus sofreu mutação, e agora se apresentava mais forte. A forma mais branda de se despedir da vida, era aceitando a condenação posta sobre os ombros.
Correndo rumo ao infinito, abri meus braços ao vento, e percebi que o temporal acompanha as brisas suaves. O céu que já foi azul impõe agora seu cinza ruidoso. O que era verde, já não existe mais. Quem me dera acreditar que as coisas não acontecem de verdade. O fogo escreve seus rabiscos no rascunho celeste. Ouço um trovão. Vejo um raio.
Amanhã não é o dia separado de hoje por uma noite, mas uma expectativa de continuar escrevendo por mais um tempo a coletânea das causas e efeitos, relacionados intencionalmente e chamados assim de vida.
Com o tempo as cidades foram se calando. Os carros pararam de andar. Não havia quem os dirigisse. Os mercados e lojas começaram a ficar vazios. As pessoas simplesmente estavam desaparecendo.