sexta-feira, 12 de junho de 2009

DRUMMOND, LISPECTOR E MORANGOS

Esses dias são verdadeiramente uma grande incógnita para nossas almas. Não podemos imaginar quantas noites de insônia eles valeriam, apenas para que pudéssemos lembrar de cada gota vertida da fonte de nossas perspectivas e devaneios.
Nos sentamos tarde de uma noite qualquer, Carlos Drummond, Clarice Lispector e eu. Se é que poderia chamar de qualquer, uma noite em companhia dessas almas. Queríamos conversar, discutir, falar e falar, e obviamente, guardar segredos que a noite certamente não revelaria. Todos temos um segredo.
Para deixar a conversa adocicada, nos servimos gulosamente de morangos postos sobre a mesa. Era a especialidade de Carlos e de Clarice. Eles sabiam comer essas frutas com uma enorme sensação de prazer. Saboreavam cada morango com seus lábios poéticos e suas almas inteligentes. Isso fascinava. O morango era a fruta garantida toda semana. Pensaria neles, ao plagiar Drummnond, para dizer: “Quisera possuir-te neste descampado, sem roteiro de unha ou marca de dente. Preferes o amor de uma posse impura e que venha o gozo da maior tortura E que tortura aquela mesa farta dispensava! Morangos comidos em água quente, morangos saboreados pelos lábios na calda fervente. Poesia de portas abertas, poesia de versos carentes.
A madrugada em canção. Canção de quando éramos jovens, de quando nos sentávamos para recordar o que tínhamos feito e o que ainda fariamos. Almas atormentadas, que buscavam um rio, um aconchego, um mar. Apenas para terem a certeza de que poderiam encontrar a paz de espírito, alçar o infinito, e finalmente voar. Fiéis mochileiros de suas consciências. Viajando pelas letras, pelos temas pelas estatuetas. Chegar perto das palavras, contemplar as mil faces secretas de cada uma, guardar o segredo dos seus significados, e lançar a chave no oceano para que outros tentassem encontrar.
Resgatar do chão cada poesia que se perdeu, seria uma forma de saber que não fracassamos. Mas se tivéssemos fracassado, certamente ouviríamos aplausos. Prometi aplaudir Drummond, prometi aplaudir Lispector, e eles nada precisavam prometer. Sem promessas já haviam me dado vida.
Clarice estava sentada, com seu olhar penetrante, que lia minha alma, e deixava-me por vezes nu sem reação diante de suas frases. Carlos que sempre fora tão cuidadoso com sua aparência, vestia uma camisa pólo e estava com a barba por fazer. Eu, talvez o mais perdido dentre os três, vestia uma velha camiseta da época estudantil, tendo a imagem do Che estampada, e o velho sonho da Revolução engedrado. Viva a boemia, viva a a embriaguez abençoada convertida em método. Viva o gosto pelo eterno. Viva a ânsia da inteligência solta.
Éramos naquele instante a expressão genuína de Lispector. Éramos a força da solidão, éramos o escuro da noite. Nos rendíamos como ela se rendeu, mergulhávamos no que não conhecíamos, não nos preocupamos em entender. Percebíamos que viver ultrapassa qualquer entendimento.
Aproveitamos cada face oculta das horas discretas daquela conversa. Quando pensei no que fazer, ouvi a voz daquela mulher. Suas palavras abriram meus ouvidos, e penetraram meu coração, como corpos apaixonados em noite de núpcias, e escutei a sentença: Encarniça-se então sobre o momento, come-lhe o fogo, e o fogo doce arde, arde, flameja Então, ela, a própria poetisa dos sonhos mascarados, que sabe que tudo vai acabar, pega a mão livre do homem, e ao prendê-la nas suas, ela doce arde, arde, flameja. Lenha, fogo, homem, jogo.
Clarice era assim. Nua, crua, carne suculenta. Autêntica! Divertia-se com qualquer paixão, e poderia abraçar o demônio, convidando-o para tomar um drinque, caso estivesse no inferno. Impulsiva, original. Seria incapaz de mudar um centímetro de suas vontades para agradar alguém. O mundo que se agrade dela. Não precisava de nada para chamar atenção, e ao mesmo tempo tinha tudo que o desejo poderia pretender. Drummond sempre repetia: “ Batom não uses, minha filha, que teus lábios ao natural tem o desenho de uma ilha feita do mais vivo coral.Tira este excesso de pintura, fruto de visível engano, pois a original formosura mais resplende a cada ano. Nada de truques bossa nova, iê iê iê e pop art querida. Nunca mais dormirei tranqüilo, nem terá gosto minha vida, se adorares um falso estilo”
Assim éramos os três. Drummond, o homem que sabia ser homem. Talvez até escondesse o ser macho da espécie. Lispector, a jovem mulher madura, sorrindo com seus olhos intensos, vertendo a inteligência do seu sabor. Escondia o ser fêmea, esbaldava o ser mulher.
Pênis e vaginas diferenciam machos e fêmeas, inteligência forma um homem e uma mulher. Os aproxima, os assemelha, os identifica em espelho de corpo, espelho de gosto, espelho de pele.
Nos amávamos? Não! O amor é o ridículo da vida. Atraíamo-nos pelas fontes do desejo sincero, pelas letras da forma absurda, pelos poetas de carreira muda. Atraíamo-nos pelas coisas que não prestavam, e isso sempre chamou muita atenção. Alguém ousaria dizer que presta ser inteligente? Pode não prestar, mas é atraente demais.
Carlos nasceu no equilíbrio de um bom libriano, e morreu nos braços do leão. Ciumento da vida, amante das letras. Nó de cordas eternas, não se desata num nó momento. Coube no infinito, fugiu dele a fuga do vento. Clarice nasceu e morreu com o centauro. Talvez tenha sido o sagitário do seu nascimento que a deixou assim: corpo de mulher, alma de animal. Fera de garras soltas, que rondam o espaço de um corpo e estão prontas para rasgar a carne.
Eu fiquei como poeta louco. Simulando encontros, acordado nas noites, sofrendo um pouco. Lambendo os dedos cheios de morango comido, e aguardando pacientemente a hora de começar tudo outra vez.

3 comentários:

karla grignet disse...

gosto.
"e poderia abraçar o demônio, convidando-o para tomar um drinque, caso estivesse no inferno. Impulsiva, original. Seria incapaz de mudar um centímetro de suas vontades para agradar alguém. O mundo que se agrade dela. Não precisava de nada para chamar atenção"
gosto bastante .

Sam disse...

gosto. [2]
nossa, me encantei novamente com seu post.
te dei um selo, dê uma olhada lá no meu blog.

Oleni disse...

Eu fiquei como poeta louco( de poeta e louco, todos temos um pouco).