terça-feira, 30 de dezembro de 2008

AMOR-ROMA-AMOR-ROMA

Eu conheci uma menina que me fez perder o sono, justamente quando eu queria dormir para sonhar com ela. Conheci uma menina daquelas, que nos fazem pensar, pensar, pensar e pensar. Menina moleca, menina gentil. Dentro dos seus olhos, pude ver um oceano de mistérios, prontos para serem descobertos. Peguei minha lanterna, meu cantil, arrumei minhas coisas, e parti para a expedição. Não sabia até onde iria. E a inexatidão do destino ofuscava meus olhos, mas estimulava minha alma. Aproximei-me do seu rosto. Pude sentir o cheiro da pele. Toquei seus lábios com um beijo tão forte, que senti a terra tremer sob meus pés. Queria absorver toda a cor daquela boca cor-de-rosa. O mundo parou de girar, as estrelas brilharam ainda mais, e agora elas pareciam buracos no chão do paraíso. Percebi então, que havia chegado a hora de deixar o barco além do rio, devia prosseguir a pé e marcar com as gotas de meu corpo o lugar onde havia encontrado paz, para que ninguém mais ousasse depositar ali suas esperanças de beijo quente.
Nesse dia, aposentei meu coração. Até então, minhas decepções eram carnais, espirituais, materiais, sentimentais. As amizades só haviam me trazido inimigos, e eu trazia uma angústia que ninguém viu, e nunca verá. Tudo isso era resultado de um mundinho que eu criei, sob a inspiração das impressões que absorvi. Os amores eternos que tive, estes, não duraram sequer uma vida. Percebi que havia depositado os sonhos, em meias erradas, que não tomaram nem o cuidado de acender a lareira para chamar o bom velhinho e seus presentes. Eram amores perdidos na encruzilhada do ver com o sonhar. Não pude aquecer meu coração, pois a água do gelo derretido apagara o fogo. O poço ficou vazio, e estava tampado, não pude ver seu fim. Essa solidão acalentadora das noites vazias entorpeceu minha alma, silenciou o carteiro de novos horizontes, o confundiu meu espírito.
As sensações, entretanto, mudaram com um simples beijo. Beijos roubados de uma boca refém, que implorava para que não pagassem o resgate. Explorei cada centímetro de seus segredos, perceptíveis ou não. Descobri seu rosto, sua força, seu brilho, seu gosto. Fiz de seu corpo tela pronta, e de minhas mãos pincéis. Busquei em sua testa e umbigo suados a tinta para trabalhar e senti esse mesmo corpo, o seu, tremer quando com minha boca explorei seu pescoço. O calor que saía de meus lábios, era uma singela e humana representação de como estava me sentindo. Das vertentes escondidas e esquecidas ofereci minhas chamas. De você fiz poesia, fiz obra prima, fiz alegria. Fizemos do quarto, universo e nos perdemos nos lençóis. Fizemos cabana numa cama desarrumada, e da paisagem simples, uma linguagem inveterada. Devo admitir que ninguém conheceu tão bem meu corpo como ela, talvez por conhecer bem o seu. Parecia mágica, parecia música. Se o céu pudesse encontrar a terra, como nossos corpos se encontraram, seria testemunha de algo que nunca se viu. Como sonhávamos naquele dia. Nada me fazia crer ser possível aquilo tudo acabar. E até hoje, recorro às lembranças, para poder vivenciá-las outra vez. Já perdi as contas de quantas vezes repeti isso tudo para mim. Somos sementes de uma mesma árvore, almas desenterradas duma mina abandonada. Eu me apaixonei por uma menina que me fez perder o sono. As noites mal dormidas, só eram recompensadas pelas histórias que eu criava madrugada adentro. Hoje vivo na expectativa de e encontrá-la outra vez, e reverenciar seu toque. Essa sensação de reencontro me alucina, me embriaga, me afirma. Eu, sendo Mariana, a moça que me enlouqueceu, Carolina.


sábado, 27 de dezembro de 2008

OUTRA VISÃO


O amor se escondeu nas noites intermináveis, onde a paixão fazia o possível para o sol nascer. São sinais que se converteram em palavras, e provaram que o grito vazio apenas bateu na parede e voltou. Nem que fosse possível, as pessoas gostariam de viver suas vidas em felicidade plena. Isso pelo fato de que sem o equilíbrio triste, o sorriso tornar-se-ia monótono e sem cor. E o caminhante segue a procura desse amor que se perdeu. No espaço dos tempos longínquos, percebeu que exíguas eram suas possibilidades de vitórias, e seu cerne, estava repleto de objeções, que deixando o campo subjetivo, passaram a lhe fazer tremer. Como ele queria ter um plano de fuga! Fugir despretensiosamente e não olhar para trás, nem que fosse o temor de virar uma estátua de sal que o motivasse. Mas deixar Sodoma é algo que ele não quer. Em Sodoma, assim como Gomorra, seu corpo não pertence a ninguém. Seus pecados, sequer são registrados, pois a idéia de culpa não existe, a idéia de pecado é apenas uma das muitas filosofias que, escolhemos ou não seguir. Viu-se então preso pelo desejo, que se chocava contra a vontade. Tudo que motiva o homem estava trabalhando ao seu favor, ele só precisava escolher qual dos sentimentos seguir. Sua boca era distribuída nas noitadas, como acenos no coliseu. A cada saída, porém, percebia que deixava em casa seus sentimentos, trancafiados no baú de Pandora. Isso ia além da mera comparação, pois sabia que uma vez aberto seu coração, os malefícios para si seriam inevitáveis. Mantinha-se fechado, calado, gelado, mas isso apenas em sua parte alma, pois sua parte matéria revigorava-se a cada novo abraço, a cada novo enlaço. Aí então ele pôde perceber que o coração de um homem nem sempre está onde sua boca está. Percebeu que ele sem os riscos do amor seria apenas mais um pobre caminheiro errante, mas que o amor sem ele, seria sempre a força motriz das artes e dos homens. Comparou-se a uma estrada. Uma estrada sem o sol, de nada serve, pois estaria condenada a mais densa escuridão. Não deixaria de ser estrada, mas com o tempo, não haveria fôlego de vida que pudesse caminhar sobre ela, perderia seu sentido, perderia sua razão de ser. O sol por sua vez, não precisa de uma estrada para brilhar, brilha por si, em si, e mostra quantas coisas podemos experimentar. O dia ganha a benção de Hórus, e nos mostra muito mais coisas do que a noite. Isso porque o dia nos traz satisfação, liberdade, olhos abertos, que num misto de razão com emoção, nos faz sonhar, e perseguir nossos sonhos. O menino peralta, amigo da loucura, parou de se esconder. Mostrou-se em sua forma plena, e pôs-se à mesa para ser experimentado. O que antes era uma fuga tornou-se agora uma viagem. Marcada pela ansiedade de conhecer novos caminhos, de descobrir novos horizontes, e de se entregar à sorte pura do amar sem saber.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

REI COM ROUPAS DE PLEBEU


Um jardineiro certa vez, depositava diariamente seu amor, nas flores que ele plantava para embelezar sua casa. Jardineiro aposentado, há muito tempo havia deixado a jardinagem ofício, e passara para a jardinagem prazer. Ornamentava cada cantinho recluso, como se fosse uma das salas de um palácio real. Sua preferência eram sempre elas, as rosas. Acreditava que elas assumiam uma postura magnânima diante das outras flores. Eram imponentes, charmosas por natureza, e a cada elogio dado por aqueles que olhavam, era recebido como raio de sol, que fortalecia ainda mais aquelas belas folhas, que de tão belas deixavam os espinhos apenas como um detalhe, que nem merecia ser levado em consideração. Todas as manhãs, quando a luz do sol ainda estava percorrendo seus 8 minutos para chegar a terra, o velho homem se colocava em pé, e visitava cada uma de suas plantas no quintal. Era um grande quintal, limitado ao fundo por um muro alto, ocupado por folhagens que subiam a parede, aos lados o muro ficava um pouco mais baixo, mas ainda era alto. O expectador desatento ficava perplexo ao observar a variedade de espécies, ou “etnias”, como o jardineiro chamava, já que as considerava como verdadeiras pessoas. Num certo dia, de uma primavera qualquer, o pobre senhor se deparou com um problema, que de certa forma limitava suas ações, e seu trabalho. Ele estava sem vasos em sua casa, e o tempo chuvoso não permitia de imediato uma ida para o centro da cidade, com a finalidade de comprá-los, além do mais era domingo. Como ele deixou isso acontecer? Não podia imaginar seu trabalho interrompido, não por falta de matéria-prima, ou matéria-viva, mas por falta de ter onde coloca-las. Resolveu então andar pelo enorme terreno baldio, ao lado de sua casa. Quem sabe algum vizinho mal educado tenha jogado algo que lhe sirva, e agora a má educação ganharia até o eufemismo de “providência divina”. Estava desolado, tudo que havia encontrado era um vaso sanitário, que por estar quebrado em sua base, não fora utilizado na construção que se erguia dois lotes adiante. Como poderia ele, o grande admirador de suas pequenas, coloca-las num lugar tão desprezível? Hesitou um pouco diante desse dilema, mas concluiu que não havia alternativa, não havia um plano B. E lá foi ele, carregando o vaso, sob a chuva, que agora havia dado uma trégua, e apenas servia para dar um tom cinza, ao céu, que sobre as nuvens, com certeza se apresentava azul. Colocou o vaso no meio do quintal, e saudou com alegria os primeiros raios de sol que despontaram. Isso para ele foi motivo de enorme satisfação. Todo místico em seu jeito de tratar as coisas, viu aquilo como um bom sinal para dia, que apenas começava. Mas mesmo assim, não estava convencido se deveria ou não usar, a inusitada peça em seu jardim. Tentou ajeitá-la da melhor maneira possível, e ficou olhando, buscando um jeito de inovar aquilo que havia trazido, foi justamente quando encostado no tronco de uma das várias árvores que havia plantado, adormeceu.
--- Diga-me rosa onde está tua nobre casa? Perguntou, o irônico lírio, do alto de seu talo verde.
--- Está exatamente onde estou! Responde a rosa, sem entender, dentro de sua delicadeza, toda a aspereza que o lírio havia depositado na pergunta.
--- O quê? Aceitas essa pocilga branca, como teu lar? Enobrecem-te em buquês, levam-te para amantes, e não podem te reservar uma estadia num lugar um pouco melhor?
--- Lírio amado, como poderia eu não ter percebido. Mas pergunto-lhe, se algo importa em sua vida que não seja seu verdadeiro colorido.
--- Colorido talvez, mas de que adiantas as cores que nos brindam com sua beleza, se o lugar onde estamos se faz de tão áspera rudeza?
--- Não é bem assim, sou rosa tu és lírio, não importa quão charmosa ou simples seja minha morada. A verdade é que o trem é trem não interessa em quais trilhos.
--- Sutileza sempre foi tua marca. Mas responda-me, quem olhará para ti, perdida nesse vaso sanitário?
--- Aqueles que procurarem uma rosa, quiserem meu tesouro, e não buscarem apenas um pobre relicário. Continuo sendo flor, continuo exalando o perfume celeste, e minha essência ainda pode apaixonar. Não posso ser desprezada pela roupagem em que estou. Minha casa, meu abrigo, me garantiu a vida, e assim eu posso assegurar o amor. Não queira me deixa inibida, pois sei que mesmo em casas esquecidas, posso refletir meu valor.
Em meio a esse diálogo sem sentido, de um sonho tão louco quanto, o velho homem acordou de espanto, e concluiu que aquele vaso posto em frente aos seus olhos ainda sonolentos, será transformado em palácio real para sua rosa.
Colocou tanto amor no cultivo da pequena flor, que ela se impôs como a mais bela do jardim. Suas pétalas demoravam para cair, e ela ergueu-se com uma pose majestosa. Assim, o jardineiro percebeu, que não importa a roupa que damos, não importa a aparência que temos, uma rosa sempre será uma rosa, num vaso nobre, num canto solitário, num buquê esnobe ou num vaso sanitário.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

TUDO PODE MUDAR

Tudo muda! E o peito adormece quando vê suas mãos dando adeus,
É como se o olhar quisesse apenas dizer talvez,
E os sonhos de uma noite inteira pudessem ser revistos a plena voz.
Não sei se é bom contar comigo, e só comigo agora.
A luz da vela acesa sobre a mesa, às vezes me dá medo.
Imagino o que irá acontecer quando a chama apagar!

Esse peito calejado, ama, ri, chora, encanta e encontra um vazio cintilante,
Encontra nas penúrias da sombra onipotente a densa vazão de seu leito
Um buraco perdido dentro dos labirintos que minha alma criou para si,
Enrustido na doce lembrança do que foi um dia dormir em paz.
Alicerçado na vã expectativa de que poderá entender onde estão os anos,
Em que feliz caminhei por entre as letras belas e inteligíveis do amor.

Tudo muda! Até o sertão pode virar mar, se a chuva não parar de cair,
A vida pode virar morte, se o espírito, alma, razão, nos deixarem a sós,
E o que era uma fulgurante lembrança, pode amargar no vazio do esquecimento.
Só precisamos ouvir o momento. Essa areia solta que perdeu sua ampulheta,
Esse tempo louco que caiu no descrédito entorpecido e desleal do ser,
Um ser instável, louco e desgarrado de sua forma concebida e ideal.

As mãos agora se calaram. Foram sempre elas que falaram por mim,
Com o toque de meus dedos conquistei o mundo de faíscas,
Mas o tempo não permitiu que as labaredas ganhassem o céu,
Antes a água, apagou as memórias boas de histórias contadas,
E me senti amputado e dilacerado quando vi que não havia o que escrever.
As letras apenas pairam num universo que minhas mãos não alcançam.

Estou preso com os pés no chão, e meus sonhos voam a poucos metros,
Não pulo, não subo, não corro, apenas espero uma nova situação.
Desprender-me? Impossível! Na morte apenas, deixarei o lar que me acolheu.
Mas enquanto não recebo o indulto de salvação, misericórdia quero.
Enquanto não sinto o toque profundo de suas mãos, espero,
E do leito raso do rio, contemplo sua figura que assim como tudo, também muda.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

UM MARTINI, POR FAVOR.

Deixe sua boca num lugar que eu possa ver, assim saberei que seus lábios ainda expiram o último beijo meu. Essa boca de carne, de espírito e de um toque singelo, me fez esquecer que nem tudo no mundo é belo, e as coisas são maiores do que podem parecer. Se os lábios apenas falassem, seria uma satisfação ouvi-los, mas o vocabulário desse diálogo foi além do que imaginávamos. Quem disse que nos preocupamos com isso? Pode até parecer exagero, mas acredito que seja pura distorção. Isso significa que as notas continuam sempre as mesmas, mas nossos ouvidos estão ouvindo de uma outra maneira. Estão ouvindo como um suplicante pedinte, que ainda lembra do seu passado, controlando tudo ao redor. Agora grita em silêncio, responde calado, e dorme temendo os sonhos que possam aparecer.
Inclino-me em redobrada fé, e espero o ano terminar. Dentro de planos mal cumpridos, e desejos mal ouvidos, vou minha sanidade buscar. Deparo-me com a loucura, que insiste em me presentear, sabe-se por aí que ela tem dado muitas dádivas aos seus amigos, e tudo que lhe pedem anda concedendo. Eu que não tenho nada a temer, senão o próprio medo, exagero no tom da súplica, e amplio o som do enredo.Derreta-me com seu fogo abrasador, e despeje em minha boca as frutas que ousamos colher em outros cerejais. Torne vermelho seus lábios, seu corpo, suas intenções. Entorpeça-me ao som de mulheres cantando, e beba-me como um coquetel premiado, preparado para estar a sua disposição. Não esqueça a cereja, a Ana Carolina, as chaves, o telefone, seu vestido, sua personagem, sua história, seus versos secretos, o silêncio em sua memória.
Em quantos mundos eu precisaria viver para entender tudo o que aconteceu? E a história se escreveu pelo avesso! Quantas coisas para contar, e não contaremos para ninguém. Quantas vozes se apagaram pelo silêncio do instante que se fez. Vozes grosseiras, estúpidas, brandas, ternas, hesitantes, confiantes, duvidosas. Vozes que mudaram seu tom, sem perceber que o violão desafinava e perdia o acorde inicial, e nessa dissonância percebeu-se o nascer de uma nova canção. Quem sabe quanto tempo a música vai durar? Já durou o tempo suficiente para garantir lembranças, e essas lembranças já são suficientes para impedir que o relógio invisível apague as horas contadas. Medo de um abismo infinito, mas curiosidade para experimentar a dor das alfinetadas.

ENTRE A CRUZ E A ESPADA

Crianças com corações maquiados,
Com olhos abertos e mentes fechadas,
Busquem no bosque sombrio a energia que lhes falta.
O que somos, senão crianças, ignorantes acerca do próprio destino?
Nesse dia em que a chuva coroa o céu e a terra,
Estou ao lado da histórica meretriz,
Buscando por pouco tempo informações sobre sua fonte.
Minha cabeça, contudo, está me traindo,
pregando-me peças que nem sei dizer.
Só sinto que não sei como sentir.
Não teria direito de ser assim,
nunca estamos sós, e agora não seria diferente,
Apenas uma nova porta de um novo ciclo.
Pena que não posso saber quanto tempo devo aguardar,
Quem sabe um dia tudo se feche ao meu redor,
Talvez então eu possa notar que sou simplesmente alguém,
Atordoado por uma história de fracassos e vitórias. Ninguém saberá.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

MULHERES BALZAQUIANAS

Essas mulheres de 30 nos enlouquecem, nos causam arrepios, nos entorpecem. Interessante, notar os anos passando para aquelas que apenas olham, são expectadoras atentas da vida que marcha firme pela sua estrada, e retiram da idade a melhor essência que poderiam. Nada se faz por acaso e no esplendor dessas mulheres, é que se encontra a virtude de uma vida bem vivida. O limite foi transposto pelos idos de seus dias, e os próximos que virão, sejam 40, 50, não importa, serão apenas vertedouros da mais pura experiência. Ninguém que conheceu uma mulher de 30 irá se aproximar, mesmo que por devaneio, de outro lugar. É como se as casas ficassem vazias, os prédios abandonados e o parque perdesse todo o seu brilho. Você, mulher de 30, sabe como ninguém, preencher a alma de um homem. Sabe conversar, abraçar, envolver e proteger a figura desse mesmo homem, que se aproxima muitas vezes como filhote amedrontado. Apresenta-se como mulher, amante, namorada, conselheira, preocupada, independente, apaixonada. O que mais se pode desejar dentro de um campo real de possibilidades? Experimentar a uva que foi colhida há instantes no parreiral é uma aventura, mas provar o sabor dos bons vinhos engarrafados e cuidados pelo tempo, é indescritível. Havia um lema na década de 60 que dizia mais ou menos assim: Nunca acredite em alguém com mais de 30 anos. Isso tem certo grau de verdade. É impossível acreditar, apenas acreditar, pois o amor não merece somente crédito, merece tempo, cuidado e dedicação. Talvez devêssemos mudar a frase para: Nunca ame alguém com mais de 30 anos, pois uma vez amando, jamais deixará de amar. E quem disse que isso é um risco? Mas obviamente, não vamos anunciar ao mundo essa maravilha. Na verdade é absolutamente impossível não amar você mulher. Impossível deixar você passar despercebida. Sua força e energia estão depositadas em cada centímetro do seu corpo, que concentrado na altura ideal, faz com a admiração seja inevitável. Responda, onde você encontrou a fonte inesgotável da libido intensa?
Mulher de 30, você já provou a vida, já experimentou bocas, já experimentou amores, e hoje procura colher as flores do jardim que plantou. Os anos que passaram foram verdadeiros investimentos em si, para hoje, na tranqüilidade que o lar proporciona, aguardar os lucros de uma vida que a cada dia se renova, pronta para continuar. Sorte para aqueles que encontraram, esperança para aqueles que ainda não as acharam, e pêsames sinceros para aqueles que ousaram desprezar a magnitude da alma de uma mulher de 30 anos.

domingo, 21 de dezembro de 2008

MAIS QUE EU

Devoro-me sozinho, sonho sozinho, ando sozinho e sozinho beijo o espírito solto que busca minhas mãos. Agarro-me, entorpecido pela linguagem das poesias, que os segredos não permitem falar. Quando meus olhos absorveram a luz que refletia a imagem real no espelho, senti a maciez convidativa do corpo que me olhava. Era carne, pele, era paixão, loucura, dessas que não terminam com o verão, mas permanecem vivas por um ano inteiro. Vi o espelho, ele me chamava, me convidava para pular sem medo ou pudor. Celebrando o momento em que vim ao mundo, pulei, mergulhei em suas águas quentes, que eram trazidas por aquedutos, e vinham das montanhas cobertas pelas frondosas árvores, e exalavam o calor de verdadeiras labaredas, aquecidas pelos pingos que brotavam de minhas costas largas. As pernas, também aquecidas puderam laçar a oportunidade que ousei desperdiçar e nadaram madrugada adentro rumo ao cansaço. Era amor de pele, era amor de pelo. Nunca pensei que um simples espelho, causaria paixão. Narciso sofreu solitário. Andou por Téspias, desprezou Eco e quis juntar-se a Apolo e Dionísio.Os deuses desprezaram sua forma natural E agora Némesis me condena. Quer que além de tudo, eu vista uma túnica branca, quando nunca abandonei o tom carnal do vermelho. Nos lábios cor-de-rosa da imaginação, joguei minha âncora. Lancei os remos e fiz parada, mas não parei. Pelos canais navegáveis senti os ventos da emoção. Pude, a bordo de um veleiro, ver a lua se entregar à noite, as estrelas se entregarem às constelações e o sol render-se ao dia. O vulcão lançou sua lava incandescente, ela explodiu e ganhou os céus, escrevendo nele suas marcas de satisfação. A lata de tinta caiu, desperdiçando a cor que ela guardava. Tentei contê-la, mas meu esforço foi inútil, e quando menos percebi, estava completamente colorido, banhado em alto mar. Senti que as encostas e as escarpas, são mais inofensivas quando vistas de perto. É só abandonar o medo, e recolher do baú todos os segredos.
Continuava em meu espelho. E a chuva trazia as correntezas sem direção, conseqüência das nuvens carregadas, e uma estiagem de estação. Os rios, que antes tímidos se escondiam sob a mata ciliar, corriam agora para os mares e se encontravam em verdadeiros ensaios teatrais. E a força com que me seguraram foi sentida pela minha alma, antes que eu pudesse gritar. Gritei pelo mau gosto, mas não era mau o gosto que senti. Apelei para o tempo, já que era pouco o tempo que eu tinha, em face do tempo que meu corpo queria. O dia corria em relógios marcados pelo sol, mas eram os ponteiros que faziam o mundo girar, e o mundo girou, girou, girou. Os dias viraram meses, e os meses viraram anos. E desgovernado eu tinha a nítida certeza de não estar ali. Fizemos o segredo sincero e reafirmamos a igualdade fraterna, naquilo que ousamos chamar de intenso. Mas foi uma mentira estúpida, revelada apenas quando eu erro. Talvez um labirinto de saudades, feito por amores estranhos que tornam a liberdade prisioneira das próprias sensações. Só estou me divertindo comigo, buscando o calor do abrigo, que os meus braços não puderam dar.




CAFÉ SEM AÇÚCAR

À escura cópia pífia de um ser intelectual,
A busca insana por uma informação da qual possa se orgulhar,
A curiosa tentativa de abrir olhos e ouvidos,
Fizeram-me banir os pensamentos de fé,
Talvez consolidá-los em outra plataforma.
Fé racional, impossível! Fé intencional, talvez.
Nesse equívoco árduo de alcançar aquilo que há muito está caído.
Fiz a mochila do viajante que colocou o pé na estrada.
Se Kerouac viesse comigo, talvez me sentiria melhor,
Não é desejo, nem é vontade, nem sei se ainda há vaidade.
O outro Jack também não veio, cantou London London e partiu.
Nem sei se algum dia ele viria também. Acho que nunca quis.
Quem sabe as pérolas sempre pertenceram as damas,
De tanto vê-las saltando nos tabuleiros, quisemos jogar diferente,
Convocamos os peões, que certamente permaneceram na primeira linha,
Nunca quiseram sair sem as ordens dos generais. A ação prevaleceu sobre a intenção.
Esqueceram-se da tese! Procuraram a antítese,
E contra o próprio ser rei, remeteram palavrões vindos do purgatório,
Peões que não foram brindados com a taça da inteligência.
E a síntese?
Embora exista, sequer lhes foi apresentada. Sinta-se lisonjeada.
Mataram a dialética em dialetos que não se pôde compreender.
Para o nada olharam,
Do nada esperaram,
Pelo nada aguardaram, e tudo que receberam foi um sorriso fútil.
Foram correspondidas assim as palavras ditas,
As palavras ignorantes de bocas mortas, ganharam seus presentes.
E os peõs acreditaram que podiam opinar sobre a partida.
Opinião? Opina? Não!
O que se passa por essas cabeças?
Antes passasse um par de chifres ou de orelhas.
A utilidade mesmo que questionada seria notória.
E adianta falar? Uma rouca voz, sendo paga, as vezes se apaga,
E não acha para essas cabeças uma boa função.
Peões atolados na sórdida ironia de serem os vencedores da batalha.
Não há nesses indivíduos o que valorizar,
A pena deixa o tinteiro e passa a fazer parte de uma ação afetiva.
E a busca por uma partida que valha a pena já dura uma imensidão.
Não deixe de buscá-los no encontro certo dos dias,
Eu até gostaria de deixar algo mais nítido impresso no olhar,
Mas a retina está corrompida pela gasolina,
Que não muito tarde estará prestes a explodir.
Xeque-mate.

ASTRONAUTAS GENERAIS

Eu conheci meninos, simples meninos,
Eu os conheci quando eles ainda eram jovens,
Quando eles ainda sonhavam com o porvir,
Quando eles ainda exploravam a própria caverna.
Eu conheci meninos, simples meninos.
Eu os conheci quando eles imitavam artistas,
Quando eles ainda gostavam de apelidos,
Quando eles ainda respeitavam seus heróis,
Quando eles ainda tinham seus heróis.
Eu os conheci meninos, simples meninos.
Mas os meninos abençoados, viraram deuses,
Viraram anjos rebelados contra a ordem celeste,
Abraçaram sua intelectualidade pueril, gritaram,
Embruteceram-se com falsas doutrinas,
Intelectualizaram as bestas dos campos,
Destruíram as lembranças, as letras, o abraço.
Ousaram ser divindades, e não deram o tom,
Esquecendo-se que aqui, matamos deuses,
Enterramos seus corpos numa tumba fria,
Armamos soldados para guardar o corpo.
E os meninos deixaram de ser meninos.
E os meninos que conheci, não são mais,
Tive que matá-los em meus pensamentos,
Eu esqueci os meninos, simples meninos.

sábado, 20 de dezembro de 2008

LONGE DEMAIS

TRAGO DENTRO DE MIM O SABOR AMARGO DE UMA VIDA DE EXAGEROS,
AS MARCAS QUE HOJE TENHO, SÃO DE PEIXES BUSCADOS NUM MAR SECO,
ESCAMAS TIRADAS DE UM PORTO, ONDE NÃO SE VENDEM SARDINHAS.
PENSO NA CARREIRA QUE CRIEI, E EM TUDO AQUILO QUE FIZ POR MERECER.
CARREGO UM CORAÇÃO CICATRIZADO, VEIAS ABRAÇADAS NUM TOM FATAL,
MÃOS TRÊMULAS QUE NÃO CONSEGUEM SE FIRMAR, DEDOS QUE TREMEM.
ESPERO AGORA O JULGAMENTO. JULGAMENTO DE MEUS ATOS,
JULGAMENTO DO MEU EU. QUERO AINDA OUVIR A SENTENÇA FINAL.
NAQUELE DIA, CUJA HORA NÃO SEI, IREI RELEMBRAR AS AÇÕES,
MEUS ERROS SE TORNARÃO VIVOS, COMO A PURA CONDENAÇÃO.
ESQUECEREI ENTÃO MEU CANUDO, ABANDONAREI MEU DINHEIRO, FICAREI MUDO.
PAGAREI PELAS CRENÇAS QUE TIVE, ACHAREI AS MENTIRAS QUE DEFENDI.
E NESSE DESCANSAR DA TARDE QUE ANUNCIA A NOITE, ESTAREI SÓ.
VOCÊ ME DEIXOU SOZINHO, E ASSIM FIQUEI TRISTE, CHOREI À PENA MORTA.
DEMOREI PARA JUNTAR AS MIGALHAS DO PÃO QUE COMEMOS PELA MANHÃ.
FECHEI A PORTA DA GAIOLA EM QUE PRENDEMOS NOSSOS PARDAIS.

OUTRA NOITE NA TABERNA, O ENCONTRO COM A MORTE

Eu vi a morte, e ela sorriu para mim. Mostrou-me seus dentes afiados, e seu rosto repleto de pele frouxa, que pendia dos ossos, quase em decomposição. Seu corpo, tinha um porte forte e, pasmem, vívido. Resplandecia a garbosidade de um guerreiro que venceu muitas batalhas. Mãos fortes, dedos longos. As veias que a irrigavam, pareciam artérias, dado a grossura de seus calibres. Muito sangue passava por ali. Interessante perceber como a morte parecia mais viva do que a própria vida, que diga-se de passagem, eu nunca conheci.
Eu vi a morte, e a chamei para se sentar. Pedi uma bebida forte, já que essa senhora não é daquelas que se entrega por qualquer trago. Não me recordo agora, mas acho que foi whiskey, um bourbon talvez. Enquanto ela se acomodava no assento, observei as pessoas ao meu redor. Todas despreocupadas, vivendo a aparência oportuna que o momento proporciona. A senhora da foice tomou o lugar reservado para si. Olhou-me, e conseguiu através de meus olhos ver minha nuca, entrou em minha alma, e me senti fulminado pelo fogo de sua retina. Estava pasmo, desequilibrado, desorientado. Nunca ninguém me olhara assim, nem mesmo na mais intensa hora de amor. Como eu tinha perguntas para fazer! Pensava que tão forte era o instante, tão precioso o momento, que talvez não saísse vivo desse encontro, mas sem trocadilhos com a ouvinte. Esse pensamento vinha da intensidade que a conversa apresentaria. Senti antes de qualquer coisa um aperto profundo, uma angústia dilacerante. Meu coração era comprimido contra ele próprio. Era como se uma mão o apertasse cada vez mais forte, cada vez mais fundo. Queria correr, mas meu corpo me acompanharia, queria explodir, mas ainda sobrariam pedaços sórdidos de lembranças que lutaram para não serem esquecidas, queria gritar, mas mesmo assim, minha voz só expressaria a dimensão da minha ansiedade. Controlei então o ritmo das batidas, controlei o fluxo dos pensamentos, foi assim que pude dormir um pouco, antes de me lembrar do encontro, e partir correndo, para chegar na hora marcada. E agora, cá estou eu, sentado atônito, diante dessa figura milenar que continua sorrindo. Confesso que fiquei com medo, por vários momentos eu temi pela minha existência. Agora que alguns minutos passaram, percebo apenas um olhar de curiosidade que ronda nossa mesa. Tenho tantas coisas para dizer, tantas perguntas para fazer, que já estou me sentindo como uma criança que se perdeu dos pais, no meio de uma loja de brinquedos. Não sei por onde começar. O pior é saber, que se fosse ela a responsável pelas perguntas, eu já estaria repleto de pontos de interrogação. Mas dentro da minha quietude paira a grande e assombrosa expectativa do momento porvir. É interessante deixar o tempo passar, fico olhando sua cara impaciente, pensando, quem sabe talvez, numa coisa melhor para fazer. Suas roupas, se é que posso chamar aqueles panos sujos de roupas, trazem as marcas de uns bons anos sem descanso. Acho que ultimamente ela tem trabalhado demais. Temos dado motivos de sobra para isso. Estamos sendo parceiros nessa luta desumana, ou humana demais. Finalmente uma pergunta surge, mas justamente sobre algo, que eu acredito ela não entenda: A vida. E foi justamente nesse ponto que me enganei. Quando lhe perguntei sobre a dimensão da vida, ela me respondeu de uma forma pausada, e quase auto-explicativa, que a vida dimensiona-se pela vontade de viver. Pelas horas que passamos contemplando essa virtude de excelência quase divina. Muitos ousam tentar entender o sentido da vida, e assim gastam os anos que lhes são confiados na vã filosofia que busca explicar o inexplicável. A dimensão da vida está presa em cada passo dado rumo ao infinito, em cada gosto sentido, em cada nova informação aprendida. A dimensão da vida está em poder olhar para o lado e perceber que cultivamos amizades, cultivamos amor, carinho, e conquistamos um mundo ao nosso redor. Essa dimensão não se finda com a morte, mas ganha uma nova essência. A essência que não precisa da matéria para sobreviver. Que agüenta firme a marca da ausência, e eterniza-se nas palavras de quem insiste em relembrar. Nossa boca é a maior mantenedora desse espírito. Cada vez que mencionamos um ente que se foi, um amigo que nos deixou, uma pessoa especial, estamos revivendo esse ser, nem que seja de maneira puramente sentimental ou intelectual, mas ele continua em nosso meio, e contra isso não há morte que possa vencer.
Fiquei surpreso, calado e envolto na mesma sintonia de misericórdia. A morte então foi tomada por uma expressão de desânimo, e suspirou fundo, como se quisesse dizer algo mais. Eu não estava errado, e ela prosseguiu dizendo, que o medo que as pessoas sentem de morrer, não fundamenta-se no medo da morte propriamente, mas no apego que se tem ao mundo material, no sentimento de que algo ficou para trás e no desejo de levar tudo e todos que gostamos para o mesmo caminho. O homem não a teme, o homem não a vê como fazendeira que ceifa vidas, mas como um momento que estraga os prazeres. Se nos comportássemos como uma vela, e deixássemos queimar lentamente nosso fluído vital, não teríamos medo da chama se apagar. Mas como usamos o presente para anular o passado ou preparar o futuro, acabamos nos esquecendo das mais belas impressões que a vida nos dá. E isso nos causa medo. Isso nos faz evitar o destino certo de todos: fechar os olhos para a vida, quando a vida não nos quiser mais. Pois sim, isso é verdade. Não é a morte que nos busca, mas a vida que nos entrega, quando percebe que não sabemos mais o que fazer com esse dom que recebemos diariamente. Apesar dessa dádiva representar muito, alguns não pensam assim, e resolvem entregar seus destinos a práticas que não levarão a lugar nenhum, senão, ao caminho da própria tumba. Ao caminho das trombetas mudas, dos anjos sem asas, das casas sem teto, do céu sem estrelas, da escuridão sem luz. A vida despede-se do choroso ausente. A vida dá tchau. E contribuímos levantando a mão, quando deveríamos lutar para preservá-la, lutar para mantê-la firme ao nosso lado. Mesmo a vida sendo um vácuo entre dois infinitos, ela ainda assim impressiona. Causa fascínio aos olhos aflitos, esquente o coração gelado, torna-se doce o fel derramado. Mesmo assim queremos desprezá-la, submeter nossa razão às paixões insanas, perder o nosso tempo com brigas que nem sabemos como começou, e enquanto isso nos envolve, a areia da ampulheta está caindo, e completando nossos dias.
Já era tarde, e a morte levantou-se, como se querendo finalizar a nossa conversa. Logo agora, que as perguntas começaram a brotar. Justo no momento em que meu coração foi solto, e a mão invisível que o apertava deu adeus! Que injusto, a noite apenas havia começado. Mas no exato instante em que o medo foi embora, minha amiga morte também deixou o lugar. Demorou até eu perceber que continuava vivo, e que mais uma vez havia cansado a morte. Continuo sendo, e ela não é, mas estou certo de que quando ela for, eu não serei mais.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A ILHA DE BELEZAS NATURAIS

E Deus fez o homem do pó da terra, e soprou nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem se fez alma vivente! Será?
Bem que eu poderia tê-la feito eterna nas letras que saem de meus punhos e se acumulam sempre que paro para escrever. Eu bem que poderia ter feito isso, mas não havia como entender aquilo que você desconhecia e nem como imaginar quantos anos sua eternidade teria. Nas alturas inalcançáveis, que se ergueram nesse verão, limitei o pouso incerto de meus pés e o peso falho de minhas mãos. A loucura, essa companheira de batalhas, e amiga de noitadas, interpretou, como bem quis, as frases que foram passadas apenas com um obscuro desejo de informar. Após ter aberto minha boca, pouco me restava, coloquei minhas esperanças numa garrafa vazia, dei nela um beijo de solidão, e com as mãos em sinal de piedade acenei em forma de despedida, expressando um tom bucólico de adeus. As palavras já não eram o alívio que eu esperava, e nem me deixavam em paz. Traziam o desejo desumano do conhecido e a memória relutante em aparecer outra vez, do que eu já havia esquecido. Elas não continham porém, em sua liquidez, a certeza daquilo que se mostra nas noites enluaradas, onde as feras uivam mostrando seu lado arisco de animal. Noites onde cada passo é uma vitória, e chegar ao destino, é no mínimo uma esperança, quando na quietude do breu adormecido, a lua observa as folhas, que molhadas pelo orvalho da madrugada, saúdam o caminhante que se põem na estrada, buscando sua consolação. Após um dia inteiro de deleite sensível, eu ainda receberia um presente.
Se as tardes fossem sempre tardes, meu dia não sairia descabido, não teria os passos largos, e o peito silenciaria o gemido. A noite, essa vilã já citada, sucede as tardes quase eternas, mas isso não nos permite agir sob o princípio irracional da casualidade e afirmar se ela será boa, e também não podemos dizer que será ruim, se ela terá o cheiro vivo das rosas ou será, infestada pelo cheiro de um velório com flores de jasmim. E eu poderia tê-la feito letra serena, você que era grande e a noite que diante de ti estava pequena, buscado com meu tinteiro sua pele morena e arranjado um rascunho, para nele escrever sua resenha de amor. Fui mouro em batlhas perdidas, fui exército carregado de arsenais, fui trabalhador fugido, expulso a força de sua lida, fui Édipo, Ulisses e Aquiles nessas viagens colossais. De meu cavalete pronto para pintar, fiz crucifixo sem Cristo, e pude então, como um fiel devoto de santos dobrar os joelhos e outra vez rezar. Quis marcá-la com meus toques, quis molhá-la com meu suor. Quis ser um homem de sorte, e focar você de forma infinita, buscando encontrar ouro fino nas minas de teu corpo onde os outros viram pedra brita. Mas você quis se fazer escondida, quis se fazer sorrateira e voltou a ser menina!
Como pode um mesmo céu estrelado, banhado pela sedução de uma imagem refletida, ver o sorriso e a lágrima? Como pode o céu fechar-se estampado, e amar calado a menina e a mulher? Em braços apertados pelo laço forte do descaso eu descansei de ti. Agora não sabia mais o que estava vivendo, e onde os sonhos largaram as mãos da realidade. Nos pastos de capim colhido, eu corri atrás de vacas que carregavam o cupido, e me flechavam enquanto eu tentava escapar. A noite se mostrava como um baú de presentes imprevisíveis, e trouxe consigo os anjos sem asas e suas trombetas mudas."E eis que estou a porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei eu com ele e ele comigo". A voz foi ouvida, quando as liteiras já se encaminhavam para os aposentos reais. A mensagem foi sentida, quando as mães banhavam os filhos em outros mananciais. As portas se abriram, puxadas pelo sorriso que se espalhava e pelo desejo oculto de um exército cansado que espera a ordem de rendição. Só então eu a vi! Como a desejei naquela noite! Meus braços aguardaram radiantes sua cabeça, e meus ombros envolveram seus cabelos, que em desalinho faziam-se labirintos para os meus dedos. Onde estaria Teseu? Onde está o Minotauro? Se as testemunhas existissem no plano objetivo da ação, quem sabe eu temeria. Mas como apenas a televisão nos olhava, não havia pudor que pudesse nos impedir. O quarto fechou suas portas para tudo que o rodeava. Somente a nossa direita, a janela, em duas velas, se apresentava como os único olhar de nossos vestígios. Demonstrava assim, um outro mundo, com o qual não nos importávamos, e nem queríamos saber se era eterno, passageiro ou vão. Cobri você com meu corpo, dentro do abrigo que foi construído no espaço de um dia. Apenas olheiem silêncio, pois onde uma divindade depositou perfeição, nenhum mortal pode encontrar palavras para a descrição. Estava certo de que na quietude constante do silêncio, sobre você eu escreveria, mas não seria tolo de tentar completar sua alma, seus olhos ou sua boca. Nessa obra de simetria sem igual, fui apenas um expectador que o grande artista autorizou presenciair. Estava ali, como um homem de limites e exageros, de inteligência e besteiras, e esperei você dizer para mim que tipo de homem eu seria. Fiz colcha dos retalhos jogados, que foram amassados com as toalhas no chão, restos de uma roupa que sobrou e sobras de uma noite que restou. Fiz banquete das migalhas que caíram de sua mesa, e música com as poucas palavras que ouvi. Tudo estava acontecendo dessa forma desigual, onde alguém se entregava por inteiro, e o outro só queria um momento longe do mal. Com uma simples informação, obtida nas escadas que marquei, fiz pesquisas de amparo. Usei métodos que ajudaram a segurar minhas mãos, quando sozinho estava, mesmo tendo a certeza nítida me rodeava a multidão. Com as lascas soltas da madeira fiz minha casa e com o olhar trocado num combate infernal, fiz coração. Percebi nesse momento que não se imagina tudo, e nem se pode dizer com clareza se as coisas podem acontecer como imaginei. Fica difícil entender, mas nem sempre a ilha está rodeada pelo mar e o farol nem sempre indicará o verdadeiro porto para atracar. Mas nem por isso a beleza abandonou a ilha que se perdeu na tormenta. Sendo assim, subi motivado pelo encanto das nuvens que puxavam para seu parque os pedacinhos de algodão. Seduzido pelo açúcar que além de doce, queimava, tal qual a lenha da locomotiva, que ainda parada é carregada, contudo, não parte e espera na estação. Os passos ganharam cores, e as cores seguraram o tapete para que eu pudesse flutuar. Assim senti o vento batendo contra o rosto, e tomado de assalto, vi o sorriso ganhar a boca que você um dia ousou beijar. O calor que saia dela, subia como um vapor interessante, de horas marcadas pelo delírio e minutos relembrados pelo alcance.
A pira queimou madrugada adentro, ferveu os corpos em movimento. O fogo que criptava fazia um bom tempo, se fez de fagulhas, que lançadas no querosene explodiram em estrondosos trovões. Caiu a chuva imaginária, com gotas gélidas, formadas pela água que exalava o cheiro único do veneno. Molhada pela liberdade de poder gritar, outra vez a escuridão se fez presente. E os anjos deram adeus. E os anjos deram adeus! "Vai com os anjos, vai em paz, era assim todo o dia de tarde, a descoberta da amizade, até a próxima vez."
Estou novamente lançado à sorte de quem não quer adormecer. A solidão voltou intermitente, no instante em que levado pelo avanço das horas, devolvi seus braços, e busquei em ti aqueles que um dia foram meus. Devolvi as asas para a loja de fantasias, enquanto o único som que eu escutava, era a estridente voz do Diretor: -- Deixem agora a esperança vazia, e se desfaçam do torpor. Carreguem as festas para a luz do dia, e deixem a mesa para o degustador. Levem sozinhos o abrigo da casa, que ainda insistia buscar em ti a pena que ficou. Levem a verdade e não a pobre esperança da hipocrisia, sintam a verdadeira face da dor. Apenas deixem com o menino a sorte, a leve protegida até a morte, e devolva a vida para as brechas que a saudade tornou maior.
Enquanto o carro de Apolo apontava discreto, distante, e brindava uma nova manhã, eu levantava meu exército, e em marcha solene buscava outro afã.
Absolvo as intenções, esqueço as frases ditas pelo avesso. Esqueço as emocões , e busco apenas o que mereço. Uma vida de apostas pelo dia bom, um tapete claro com almofadas coloridas, uma barca nova com o mesmo endereço.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

ANÉIS DE UM DEDO SÓ

Fechei os olhos e imaginei estar dormindo, quando o que sentia era o mundo da percepção se abrindo e mostrando-me o infinito. Esse aflito companheiro pôde no espaço de uma noite, provar que o real está muito próximo do mundo que imaginamos. E o mundo que imaginamos se mistura, perdido em falsas noções, com aquilo que vivemos. Num quarto fechado, meus olhos criaram novos horizontes apaixonados. As brincadeiras, sorrateiras lembranças, vieram me visitar. O que já havia esquecido em tempos de lei, foram outra vez motivo de meu tormento. E experimentei o gosto esquecido das palavras ditas apenas para conversar. Estávamos em quatro, eu estava sozinho, estávamos em três, eu estava sozinhos, estávamos em dois, eu estava sozinhos, fiquei só, e me larguei esquecido na caixa fechada das lembranças infantis. Abri a janela, e a noite fez a conta das horas que passaram. Estava sozinho!
Numa amplitude descabida de desejos e gracejos vi desmanchar as paredes. O concreto se fez gelo, e a escuridão se fez sol. Derreteram-se as águas do oceano oculto e selado, guardando ao seu lado o meu mundo misterioso. Numa cena de informações deturpadas eu sentia inundar o meu lençol. Eram os sonhos que se enveredavam pelos meus pensamentos! Sonhos que pareciam uma realidade intuitiva, captada pelos sentidos que o corpo não pode explicar. Senti que os lábios estavam secos, não consegui abrir os olhos para ver, e a cada martelada que a bigorna recebia, eu deixava de ouvir. Não sentia fome, não sentia frio, e minha língua se encontrava única num copo vazio. Nada sensível, num espaço inconcebível e difícil de imaginar. Homens vestidos com as sementes de sua insensatez. Mortos que conversavam, caminhavam libertos de seus corpos, e voltavam à essência que assim os fez. Mulheres ataviadas para seus esposos, que explicavam a vida, colhiam as flores e comiam os frutos, presentes da estação. Abriam seus braços em casas escuras, emolduradas pela lua, que era vencida pela chama acesa de uma lamparina a gás. Onde estavam os heróis que prontamente me levaram passear? Vi a história, vi a memória, vi a eloqüência trotando forte, mas sem cavalo para cavalgar. Andavam a pé. Não voltavam, mas prosseguiam sem razão para ser, e com seus passos lentos não queriam chegar a lugar algum, apenas conduziam os moribundos pensamentos para o desfiladeiro que se repetia a cada acordar.Do meu lado, os animais dormiam o sono dos justos, inocentados de seus pecados, prontos para a salvação. O anjo se fez homem, e os santos foram a minha salvação! Estúpidos galanteios de porcos abençoados pelo prazer. Inerte sapiência de quem tudo dizia, sem ao menos ter algo para dizer. Os espantalhos foram despedaçados, e as rajadas de vento levaram as palhas para as meninas, que sentadas em suas varandas, transformava o milho da colheita maldita em bonecas de crianças.
Os sonhos brincaram e armaram a tenda da loucura. Esse circo de palhaços boçais, não teve confetes nem pipocas, mas domadores domados pelos animais. Em beijos que perderam seu rumo certo na bossa silenciosa, se firmou todo o quarto na noite ociosa. Tentei dominar a cama em que meu corpo repousava, mas ela queria voar, e deixar ali o ser atordoado. Quando busquei deter meu espírito, senti que ele fazia meu corpo tremer, como se uma locomotiva mirasse meu coração e encontrasse ali o seu túnel. Senti então o calor da caldeira a todo vapor atravessar os trilhos do meu peito. Queria correr! Queria sair pelo mundo, ser o seu eterno vagabundo e ver minha alma morrer. Mas tudo o que consegui foi fechar os olhos outra vez, e tentar dentro de minha embriaguez, meu sono forte satisfazer. E quando as canções deixaram seu tom de alucinação, ouvi os ruídos da cidade, que roubaram a noite de minhas mãos. E agora trago apenas o esquecimento das páginas que não li, e a loucura de não conseguir entender até agora a noite que vivi.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

HISTÓRIA DO PARANÁ - UTI (repasse se quiser)

Para a moçada que está entrando para dar uma “olhadinha”, eu gostaria de desejar uma boa prova, e que o anjo das respostas certas possa fazer boas visitas a vocês. Sobre História do Paraná, acredito que a Unioeste não fuja do dito trivial. As questões basicamente giram em torno da idéia de Colonização – Período – Local – Ciclo Econômico. Levando esses itens em consideração, certamente as chances de um bom desempenho serão maiores. Espero que esse conteúdo seja de grande valia.
Paraná Pré-Colombiano:
Antes da chegada dos europeus o Paraná já era habitado por tribos nativas: Tupi (subdivididos em guaranis, também chamados de carijós ou cariós, tinguis e os cainguás) Jê (botocudos). Foram eles, inclusive que deram nome ao atual estado. Paraná, na língua Tupi, significa Grande Rio. A maior herança arqueológica do período são os Sambaquis (restos de conchas, comida, fragmentos de artefatos, que nos ajudam a entender a pré-história do Paraná).
Com o Tratado de Tordesilhas em 1494, e a divisão oriunda do mesmo, apenas a porção LITORÂNEA, do atual Estado pertencia a Portugal, e fazia parte de dois Lotes de Capitanias, sendo Martim Afonso de Sousa e Pero Lopes de Sousa seus donatários. O interior era oficialmente espanhol. Que iniciaram sua ocupação através de dois processos: Vilas (Ciudad Real del Guairá em 1557 e Vila Rica em 1576) Missões ou Reduções Jesuíticas, que foram destruídas por Bandeiras a procura de índios, como a de Antonio Raposo Tavares por exemplo.
O processo de ocupação PORTUGUESA, se inicia posteriormente.
Século XVII – Litoral – Ciclo Mineração – Cidades: Paranaguá (.29/07/1644 – Vila Nossa Senhora do Rocio de Paranaguá), Curitiba;
Século XVIII-XIX – Região dos Campos Gerais – Ciclo Tropeirismo – Cidades: Ponta Grossa, Castro, Palmeira;
Século XIX-XX – Região Norte – Ciclo Café (abalado em 1975 com a Grande Geada) e Projetos Colonizadores. A Companhia de Terras do Norte do Paraná ou Companhia de Melhoramentos do Norte do Paraná, foi responsável pela ocupação da região norte e noroeste do Paraná. Cidades como Londrina, Maringá, Paranavaí e Marialva, foram loteadas por esta empresa.
Século XX (início) – Região Oeste e Sudoeste – Ciclo Madeira e erva-mate.
Século XX (anos 30 e 40) – Região Oeste e Sudoeste – Ciclo Agricultura – Presença de migrantes gaúchos e imigrantes europeus (atraídos em parte, pelo clima propício).
Século XIX e EMANCIPAÇÃO.
• Paranaguá – (1811 e 1821) requer a emancipação da comarca e a criação de nova capitania
• Curitibanos – (1853), Lei nº 704, sancionada em 29 de agosto, criação da Província do Paraná,
• 19/12/1853 – Chegou a Curitiba Zacarias de Goes e Vasconcelos, primeiro presidente da Província do Paraná (data oficial da criação da Província).
IMIGRAÇÃO:
• PORTUGUESES: a partir do séc. XIX (que é quando ocorre nossa independência). Cidade com maior influência lusa: Paranaguá.
• ALEMÃES: (1829) as margens do Rio Negro, atividades campesinas. Colônias: Entre Rios e Marechal Cândido Rondon
• ITALIANOS: (1836) Atraídos pela cultura cafeeira
• HOLANDESES: (1911, II Palanalto, região dos campos gerais). Colônias: Carambeí (entre Ponta Grossa e Castro), Castrolanda (1951) Arapoti (1960)
• Outros: japoneses, russos, poloneses, ucranianos.
CAMINHOS DO PARANÁ
Peabiru – Pré-Colombiano, ligava o litoral atlântico ao litoral pacífico;
Mata ou Viamão – Passando pelos Campos Gerais;
Graciosa – Ligando Curitiba ao Litoral;
Itupava – Curitiba a Morretes;
Estrada do Colono – Oeste a Sudoeste.
PARANÁ REPÚBLICA
Questão de Palmas (1895-1897), disputada com a Argentina. Ganho de causa ao Paraná, concedido pelo presidente americano Grover Cleveland.
Revolução Federalista (1893-1895) – Questões políticas envolvendo grupos do Rio Grande do Sul contrários e favoráveis ao Marechal Floriano. O envolvimento do Paraná se deu em maiores proporções no episódio conhecido como Cerco da Lapa.
Guerra do Contestado (1912-1916) – Movimento social e messiânico que acontece na região contestada pelos estados do Paraná e Santa Catarina. Teve como líder João Maria, morto logo no início. Os posseiros também lutavam por terras que haviam sido concedidas a empresa Brazil Railway (responsável pela construção da estrada-de-ferro Rio Grande do Sul – São Paulo).
ERA VARGAS – Criado o Território Federal do Iguaçu (1943-1946), abrangendo o Oeste e Sudoeste do Paraná e o Oeste e Noroeste de Santa Catarina. A iniciativa do Governo Federal tinha como objetivo criar mais um núcleo político-econômico na região, que via seus interesses comprometidos pela distância em relação as capitais de ambos estados. Nesse período havia sido nomeado para ser Interventor no Paraná, Manoel Ribas que ocupa o cargo entre 1932 – 1945.
Nos últimos anos, após os Governos de Álvaro Dias, Jaime Lerner, Roberto Requião. O Paraná diversificou sua economia, e passou a contar inclusive com parques tecnológicos e Indústria Automobilística, concentrados principalmente na região de Curitiba. As privatizações também foram uma constante, sendo que, as principais aconteceram no Governo Lerner: Anel de Integração e venda do Banestado ao Itaú.


terça-feira, 11 de novembro de 2008

VERBOS NÃO FAZEM MEU ESTILO

Sua boca entendeu o que eu quis dizer, quando sem nenhuma palavra eu pude me expressar. Pode me entender quando seus braços puderam me enlaçar. Seus lábios, ainda que desejados, não tinham me pertencido até então. E nesse resquício de razão, depositava minha segurança. Sabia que quanto mais o tempo fosse aliado, mais possibilidade teria de fugir. Correr para algum lugar onde nem mesmo a sorte pudesse me encontrar. Mas não foi isso que aconteceu. Como uma sombra atrasada de um corpo que se foi, você se aproximou. À hora, já adiantada em ponteiros longos e passadas firmes, apenas testemunhou um olhar. Esses olhos cobertos de lascívia e desejo. Profundos e repletos de más intenções, que, pensando bem, não eram tão más assim. Ficaram esperando, como um chacal guardião, o momento exato de atacar. O que fazer quando a linha da loucura ultrapassa a linha da lucidez? Não me atrevo a questionar novamente, com medo de achar a resposta da próxima vez.
Não pelos cabelos que entoam uma nota só, nem pela pele que executa a única sinfonia, muito menos pelo corpo que em curvas refaz o conceito de simetria, mas pelos momentos intensos que desejo viver. Pelo vivido em devaneio, pelo experimentado sem provar, pela inconsciência de minhas mãos. Pelas janelas que puderam se abrir, e assim mostraram o animal sentimental que refletia apenas a essência da espécie. Por tudo isso, quis embalá-la num sono em fim de tarde, quis cantar as músicas em ecos soturnos, sem alarde. Fiz entender que nunca quis apenas um toque a mais, e me importa onde as gotas caem após os vendavais.
Quero sentir a terra molhar outra vez nossos pés, quero sentir a água inundando nosso quarto, em correntezas incontroláveis de um fluxo intenso e colorido. Mesmo que para isso eu abra mão de sua companhia, e fique com o sorriso da graça estabelecido.
Venha outra vez, marcar de suor a roupa que coloquei. Venha mostrar-me a força que seus braços podem ter. Prove-me a determinação de suas palavras, que apesar de sutis, podem me carregar. Embalam-me em poemas sem estrofe, em versos sem sentido, e transformam o grave amargo do dia, num agudo alegre sustenido.
Seus lábios continuam traçando as linhas da imaginação. Sua boca escreve aquilo que você gostaria de ler. E a cada parágrafo terminado, concluo que uma grande obra está porvir.
Sinto o gosto do perfume de seu cheiro, de sua essência permanente de mulher, transpondo quilômetros, rompendo fronteiras e quebrando as regras de uma terra sem leis. Coração bandoleiro que se armou num duelo desigual. Peito aberto e desprotegido nesse calor absurdo e infernal. Onde encontraria refúgio se não fosse assim? Escondido nos arbustos que a estrada plantou pra mim.
Que eu seja privado de ver a vida acontecer, que eu seja privado de ver o dia nascendo e morrendo em seu próprio prazer. Não me prive a natureza, porém, de senti-la outra vez, de ver seu peito curvar-se à força da respiração, de olhar suas mãos enlaçadas e pedindo proteção. De admirar seus olhos que se perdem, se encontram e se cruzam com os meus. Que eu possa, mais uma vez pelo menos, umedecer meus sonhos em seus lábios, e assim sorver um pouco de seu sabor, que se perde diariamente no seu lago, repleto de incandescência, libido e calor.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

LUSER

Sinceramente, eu não me importo com o que você pensa. Se disse algo mais do que eu queria ouvir, provavelmente não irei lembrar. Isso torna o acordo desigual, e não vou regar os jardins de quem sequer plantou uma flor. A chuva forte pode inundar, e levar pelas suas correntezas todos que não se prepararam para o pior. Eu deixei, já faz longa data, de valorizar as pérolas que os porcos desprezaram. Deixei de tentar revelar o filme de fotos, queimadas pelo acaso de um flash que não disparou. As migalhas, antes vistas como vastas refeições, hoje ocupam o lugar destinado a elas: o chão. É vã, a busca desregrada pela atenção. É inútil gastar a lâmina afiada de meus versos em cabeças petrificadas pelo que se deixou. Não gastarei mais o tempo, nessas construções pueris, em fantasias tolas e mensagens infantis, feitas de cifras altas e valores gentis. Quero construir meu espelho em retratos que eu criei. Quero refletir os anseios de uma consciência desprovida de lei. Caso você não concorde, sinto muito, mas não perguntei sua opinião. Não interfira nas contemplações alheias, e não tome posição daquilo que você não faz parte. Não pedi críticas, não pedi detalhes. Fiquei solto em pensamentos e preso a lugares. Lugares estes, que não tiveram a honradez de entender que se tornavam lembranças, quase inatas, pela profundeza na qual cravavam seus alicerces e pilares. Presenteie-me com seu silêncio absoluto. Quem pouco fala, pouco erra. É no silêncio de uma opinião calada, que conseguimos por vezes, ocultar nossa ignorância.
Alguém aqui busca um público para agradar? Alguém aqui está sendo calouro nessa festa popular? Não! Afirmo e grito: Não! Somos quem podemos, e o que as circunstâncias nos permitem. Por mais alto que o pássaro possa voar, sua condição nunca será diferente. Por mais que Fernão Capelo Gaivota aprendesse a nadar, ele não se transformaria num peixe por causa disso.
A lua busca, em seu ardor noturno, refletir os raios de sol que não são seus, mas, de um dia que nasce para o outro lado do mundo. E não importa que grunhidos você emite ao ver tudo isso. Nessa selva de animais selvagens, me fiz caçador de oportunidades e tentei sobreviver, quando tudo o que eu sentia era o cheiro da caça tentando virar predador. Tive que segurar firme meu rifle, cercar-me de munições certeiras, e mirar numa cena sórdida. Fechei os olhos quando atirei, e captei apenas os altos sons, que foram engolidos pela terra, enquanto ela me agradecia pelo que tinha feito. Saí das fileiras da preocupação, para ocupar as filas inibidas das sensações. Já perdi muitas chances tentando provar que a maior prova era ao mesmo tempo a maior condenação. Subi nas pilastras e nos parapeitos dos casarões coloniais, apenas para tentar ver, aquela jovem de tranças feitas, colhendo trigo em seus trigais. Hoje me sinto como o bajulador de um chefe desempregado. Como o fígado de um bebedor inveterado. E sei que não preciso mais acordar para mostrar para os outros que não estou dormindo. Descanse na sua insensatez. Descanse de braços cruzados, já que é o melhor a se fazer. Se for apontar sua mão, mude a direção dos dedos, do contrário serei obrigado a cortar a mão, arrancar o braço e queimar seus segredos. Da pira do esquecimento ninguém conseguiu fugir. Não pedi que me ouvisse, que visse talvez. Mas agora que já terminou saiba que não espero, não quero e nem vou passar a minha vez.


quarta-feira, 1 de outubro de 2008

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Série sanduíche filosófico: QUASE DESCARTARAM DESCARTES

René Descartes (1596-1650)
O DISCURSO DO MÉTODO

A sociedade moderna foi palco de um conjunto intenso de transformações, incluindo nesse meio seus aspectos científicos e culturais. A atividade filosófica toma um rumo diferente, e reinicia um novo trajeto: ela se desdobra como reflexão e o pano de fundo é um conceito de certa forma novo: a ciência. A revolução científica deixa os novos pensadores com receio de se enganar diante do mundo. Existe a procura intensa de uma maneira que evite o erro, e isso faz surgir a principal indagação do pensamento moderno: a questão do método, que centraliza as atenções não apenas no conhecimento do ser (metafísica), mas sobretudo no problema do conhecimento (epistemologia). Até então, podemos afirmar, que os filósofos se caracterizaram pela atitude realista, e não colocavam em xeque a realidade do mundo. Na Idade Moderna é invertido o pólo de atenção, ao centralizar no sujeito a questão do conhecimento. As soluções que se apresentam para resolver tais questões estão caracterizadas em duas correntes filosóficas: Racionalismo e Empirismo
Racionalismo: Doutrina filosófica do séc. XVII que admite a RAZÃO como única fonte de conhecimento válido.
Empirismo: Doutrina filosófica moderna do séc. XVII, segundo a qual o conhecimento procede da EXPERIÊNCIA.
René Descartes, também é conhecido pelo nome latino de Cartesius (daí seu pensamento ser conhecido como Cartesiano), é considerado um dos pais da filosofia moderna. Em suas obras ele trata sobre o problema do conhecimento. É muito simples a questão: Se a origem do conhecimento é verdadeiro, então o conhecimento também poderá ser. Ele tem como ponto de partida a busca de uma verdade primeira, que não possa ser posta em dúvida. Justamente por isso que ele converte a dúvida em método (dedutivo), ou seja, é uma maneira de chegarmos ao conhecimento.
Princípios do método dedutivo:
• Evidência ou Dúvida Sistemática
• Análise ou Decomposição
• Composição ou Síntese
• Enumeração ou Verificação
Inicia seu processo duvidando de tudo, das afirmações, do senso comum, dos argumentos, das autoridades, dos testemunhos dos sentidos, das informações da consciência, das verdades deduzidas pelo raciocínio, da realidade do mundo exterior e da realidade de seu próprio corpo, já que todas essas “impressões” são produzidas por algo, e esse algo deve ser questionado. Já pensaram se nossas impressões de mundo estiverem pautadas numa informação equivocada? Logo, tudo que conhecemos estará banhado nesse equívoco também. Descartes então interrompe a cadeia de dúvidas diante do seu próprio ser que duvida. Se duvido, penso; se penso existo: “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”. Este é o fundamento para a construção de toda sua filosofia. Mas este “eu” o qual se refere Descartes, é puro pensamento, uma res cogitans (um ser pensante), já que, no caminho da dúvida, a realidade do corpo (res extensa, coisa extensa, material) foi colocada em questão. Temos aqui uma concepção dualista, o CORPO (res extensa) e a ALMA (pensamento, res cogitans). O homem como ser pensante.
A partir então, dessa intuição primeira ( a existência do ser que pensa), que é indubitável, Descartes distingue os diversos tipos de idéias, percebendo que algumas são duvidosas e confusas, outras são claras e distintas.
IDÉIAS
• Idéias Adventícias – ligadas ao mundo dos sentidos (devem se submeter à dúvida metódica);
• Idéias Fictícias – imaginação, causas do engano.
• Idéias Inatas – verdadeiras e não sujeitas a erro, pois vêm da razão, independentes das idéias que “vem de fora”, as idéias inatas estão ligadas a faculdade da razão. Fundamento para todas as ciências. Por exemplo, a primeira idéia inata, clara e distinta é o cogito, pelo qual o ser humano se descobre como res cogitans, isto é, o ser pensante.
Claro que Descartes foi, como conseqüência de suas idéias, fortemente contestado. Mas sua importância se dá justamente no rompimento com o elemento inicial do conhecimento. Enquanto para muitos, durante a idade média, a fé fundamentava a base do saber, Descartes surge colocando a verdade na dúvida, e não mais na crença cega em noções superficiais, explicadas apenas pela força do crer.

Série sanduíche filosófico: MAQUIAVEL NÃO ERA MAQUIAVÉLICO

Nicolau Maquiavel (1469-1527)
O PRÍNCIPE

A Europa Moderna (contexto em questão) era uma conseqüência de uma fragmentação política que havia esfacelado partes do feudalismo. Muitos reinos se encaminhavam para a formação do Estado. Um conceito sociológico definido como sendo uma porção territorial, com povo, soberania, unificação de pesos e medidas, moeda própria, exército regular e governante. Mas o caminho da unidade nem sempre era fácil.Enquanto a maioria das nações européias haviam centralizado o poder, a Alemanha e a Itália ainda estavam divididas (fragmentadas) em muitos Estados, que se envolviam constantemente em disputas internas pelo poder. É nesse contexto que vive Nicolau Maquiavel, na república de Florença. Observa com atenção e interesse a falta de estabilidade política na Itália, que está dividida em principados e repúblicas, onde cada qual possui sua milícia, geralmente formada por mercenários. Dentre os vários contatos valiosos que obteve quando ocupava a 2ª Chancelaria do Governo de Soderini, Maquiavel conheceu César Bórgia, que estava empenhado na ampliação dos Estados Pontifícios e, observando a sua maneira de agir, este é considerado por Maquiavel o modelo de príncipe que a Itália precisava para ser unificada.
Escrito em 1513 e dedicado a Lourenço de Médici, O príncipe provocou algumas interpretações controversas. Primeiramente, Maquiavel é um filósofo que defende a centralização de poder na figura de um soberano. Jamais ele defendeu o poder corrompido ou a tirania. O que ele faz é uma releitura da ética, aplicando a finalidade como a clara justificativa para o meio empregado. E qual era essa finalidade? O bem comum do Estado. Então, para chegar ao bem comum desse mesmo Estado, o príncipe está legitimado em suas ações. A transformação da ética ligada aos preceitos positivos, numa ética política, é que causa a maioria das confusões. O poder arbitrário pode ser exercido, desde que em função de uma política coletiva. Nos termos tradicionais, Nicolau Maquiavel não era Maquiavélico!
Interessante perceber também que no capítulo IX de sua obra, Maquiavel veladamente aborda idéias democráticas, quando discorre sobre a necessidade de o governante ter o apoio do povo, sempre melhor que o apoio dos grandes, que podem ser traiçoeiros. O que Maquiavel está abordando, é a idéia de consenso, que posteriormente irá adquirir uma importância gradual. Para caracterizar o príncipe, Maquiavel usa as expressões italianas virtù e fortuna.
Virtù: Força, valor, qualidade de um lutador, guerreiro viril (na aplicação grega do termo). São governantes especiais, capazes de realizar mudanças, grandes obras e alterar o curso natural da história através de suas ações. Não se trata do príncipe virtuoso no sentido de bondade e justiça da moral cristã, mas sim daquele que tem a capacidade de perceber o jogo de forças da política, para então agir com energia a fim de conquistar e manter o poder (sempre lembrando que Maquiavel não apóia a tirania!).
Fortuna: Ocasião, acaso. (não está relacionada ao dinheiro, mas a sorte). Para agir bem, o príncipe não deve deixar escapar a fortuna, isto é, a ocasião oportuna. De nada serve a virtude para o príncipe, se ele não souber ser precavido e ousado, aguardar o momento certo, aproveitar-se do acaso ou da sorte, e principalmente das circunstâncias que o cercam. O príncipe pode e deve moldar as circunstâncias.
Vale lembrar também que Maquiavel se inspira na política da Roma antiga para delinear suas idéias. Roma foi a grande fonte de inspiração para sua obra. Ele admirava a forma de organização e determinação política. Por isso ele apresenta o Poder Absoluto como meio de conduzir o governo e o povo para uma Estabilidade política, e então encaminhar o governo para uma República. Isso contraria o pensamento de muitos que julgam Maquiavel um defensor perpétuo do poder absoluto.
Ética e Política: Ele faz sem dúvida uma reavaliação nas questões éticas até então praticadas, ou pelo menos, ditas praticadas. Defende uma moral laica, secular, de base naturalista, diferente da moral cristã; por outro lado estabelece a autonomia da política, negando a anterioridade das questões morais na avaliação da ação política. A moral cristã fundamenta sua essência em princípios atemporais, existentes antes mesmo de o Homem ou o Estado existirem. São os princípios do Bem e Mal, Justo e Injusto, Certo e Errado. O indivíduo está subordinado ao Estado, mas a ação deste mesmo Estado se acha limitada pela lei natural ou moral, que constitui a instância superior. A nova ética de Maquiavel analisa as ações não mais em função de uma hierarquia de valores dada a priori, mas sim em vista das conseqüências e dos resultados da ação política. Podemos entender como uma nova moral, que está centrada nos critérios da avaliação do que é útil à comunidade: Se o que define moral é o bem da comunidade, constitui dever do príncipe manter-se no poder a qualquer custo, por isso às vezes pode ser legítimo o recurso ao mal, a força Coercitiva do Estado. Mas o príncipe de virtù usa a violência porque é forçado pela necessidade, visando o bem coletivo, diferente do tirano que age por interesses particulares. Para ele então, a avaliação da moral, não deve ser feita antes da ação política, segundo normas gerais e abstratas, mas a partir de uma situação específica e em função do resultado dela.

sábado, 20 de setembro de 2008

PESSIMISTA NÃO, REALISTA TALVEZ

A única maneira de acabarmos com todos os problemas de nossa vida, é pondo fim àquilo que é responsável pelos problemas: A própria vida. Parece que essa frase está carregada de um pessimismo louco e absurdo, mas eu diria que ela é um tanto quanto realista. Baseamos nossa vida na esperança sórdida de encontrarmos a tão procurada felicidade. Depositamos nossa confiança em crenças que servem apenas como um refúgio para a alma, que não quer acreditar na solidão de nossos corpos, perdidos e lançados à própria sorte, dentro de um vazio do existir. Somos responsáveis por nossos atos, e todas as coisas que acontecem em conseqüência disso, são reflexos da primeira intenção. Construímos castelos em terrenos feitos de areia, e quando eles desmoronam, culpamos algum ser por isso, quando foi a nossa incompetência, a grande responsável pela obra mal sucedida. Nascemos para morrer, e essa verdade, pode-se dizer, é incontestável. O primeiro passo para morte é o nascimento. Vivemos uma vida tentando amar, tentando sentir, e na direta proporção de nossos sentimentos estará também a dor da perda, o próprio sofrimento. A melhor maneira de sermos fortes, é não sentirmos absolutamente nada. Claro que estaríamos destinados a loucura, mas por outro lado, também não nos preocuparíamos com isso. "Ninguém nesse mundo é feliz tendo amado uma vez", disse Raúl Seixas. E ele estava certo. O amor é o primeiro passo para o caminho da dor. Amamos com medo de nos sentirmos só. De mãos dadas com o amor, chega também a preocupação, e o medo de ver quem amamos partir, acabada ferindo ainda mais nossos corações. E a felicidade? Se reunirmos todos os instantes que brindamos nossas almas com bons momentos, conseguiremos talvez encher uma caixa de brinquedos. Conquistamos, ao longo de nossas vidas, alguns momentos que resolvemos chamar de felicidade. Mas a incerteza e a tristeza estão mais presentes, num conjunto muito mais completo, insano, porém real. O sorriso marca apenas os sulcos por onde as lágrimas correram. O brilho dos olhos festejantes, serve apenas para preparar o caminho para a nuvem escura e o anjo triste que chega logo perto de mim. Depositamos nossas expectativas na possibilidade de que as coisas um dia poderão mudar. Isso nos livra da loucura de encararmos o verdadeiro mundo. Sem cor, sem cheiro, sem graça. Estamos condenados ao fatalismo da existência animal. E os sentimentos servem para nos diferenciar de outros animais, e dentro do mito racional do ser, tentamos provar nossa superioridade. Afirmamos para nós mesmos, em nosso julgamento da alma, que há algo melhor para acontecer, quando nosso fim será olhar pela última vez para a vida, fechar os olhos e morrer. Se alguém já escapou dessa sina, diga sem demora, aceitarei assim contestações.

SUAVE

O texto abaixo na verdade é uma música. Foi uma composição minha e de meu amigo e irmão André Chrun, com quem dividi um ano inteiro de inquietações, viagens, saídas, conversas e muita experiência profissional já que ele também é Professor de História. Juntos fizemos a composição da letra e da melodia. Acho que devo compartilhá-la.

No jogo do tempo ficamos pra trás,
Na nota discreta de uma canção,
Mostrando um pro outro como é que se faz,
Caí em seus braços peguei a sua mão.

Mentir no caminho de onde eu parti,
Seus olhos fechados e eu pude entender,
Não tenho vizinhos, não moro aqui,
Passou muito tempo e eu quero você.

Não somos mais duas almas, perdidas nesse vôo,
Somos sim quatro histórias, vivendo algo novo.

A tempestade e o tempo no mundo eu deixei,
Amparo as pedras da voz da canção,
Escuto o mundo descarto as suas leis,
A água que jorra da pia no chão.

E agora do tempo a saudade ficou,
O beijo suave fará eu lembrar,
As portas fechadas na mão que deixou

Profundas lembranças, não quero acordar



PAI

Não diga que não te amei,
Só porque não chorei na tua despedida.
O silêncio foi uma maneira de expressar a dor,
E os olhos secos contrastavam com alma que pranteava sem parar.

As lástimas se deram pelo que não foi,
A dor da perda por algo que não aconteceu.
As tentativas além de frustradas foram destruídas,
Pela vontade de te entregares a solidão.

Não diga que não te amei,
Quando com rispidez abordava teu comportamento,
Foi uma maneira que meu corpo encontrou para aceitar,
Que às vezes o protegido deve proteger na tentativa de ensinar.

Amei-te a cada instante inesperado, quando sozinho aguardava o teu chegar.
Amei-te como um herói rebelado quando ouvia os passos de teu caminhar.
Amei-te pelo que conhecia de ti, e pelo que ouvia sobre ti.
Deleitava-me ao perceber que meu herói florescia na manhã e estava por aparecer.

Agora quando acordo, ancorado em esperanças de um futuro bom,
Percebo que não me verás sendo aquele que planejamos ser.
Sinto que ao partires deixaste aqui um ser em desalento,
E marcas para sempre os sonhos e a vida de teu rebento.

Recordo-me nessa hora, da noite em que te ouvi,
Nos conselhos brandos e intensos de alguém que busca ser útil por aqui,
Mas de que adiantava meus ouvidos servirem como amparo de tua voz,
Se tu não fazias o mesmo quando eu contigo estava a sós?

Volto ainda mais no tempo, quando as telhas deram o nosso sentar,
E me aconselhastes de maneira dura, mas repleta de amor ímpar,
Ali percebi que era crua a vida de sonhos meus,
E as ilusões poderiam levar ao inferno, mas não contemplariam os céus.

Não diga que não te amo quando procuro te esquecer,
São apenas retratos de uma natureza assintomática que hesita em emudecer.
E tenta buscar na sombra da tua história uma memória para registrar,
As gargalhadas e as piadas que não poderemos mais compartilhar.

O COPO DOS DEUSES

A bebida amarga foi colocada sobre minha mesa. Dei alguns goles, e de pronto descobri que meu paladar não estava suficientemente preparado. Ainda me recordava dos sabores suaves que experimentei, dos vinhedos ricos, com suas uvas prontas para a saborosa degustação. Que saudades sinto da Enotria, e de seus mares marcados pelo intenso torpor, que subia ao mais alto céu quando celebrado por suas divindades. Não importa se Piemonte com suas espumas e robustez, recebendo o grande Barolo, a lembrança boa dos reis, ou então Toscana alardeada por ser o jardim da Itália, trazendo consigo o Chianti o Brunello e deixando a doce mágoa pela ausência do Sassicaia. O que valia mesmo, eram as tardes ensolaradas, a busca pelos campos floridas na primavera despreocupada. Tudo isso acabou muito rapidamente, e no corpo ainda ausente sinto o levantar da madrugada.
A poesia, que o mundo viu romper cambaleante com os exageros da alma pensante, juntamente com a música que embalou os mais altos sonhos do aventureiro errante, foram os frutos vívidos e marcantes, que restaram de garrafas vazias nas cabeças cheias e sem anestesia. De perfumes e aromas ilustrados é que se tiram as verdadeiras lições que vida ensina. Em cabarés, onde a mesa vazia alucina, entendo para onde foi a fé que estava na cabeça infantil de uma menina.
As garrafas acompanharam os poetas. Sua companhia foi mais forte do que as letras, nas quais o pobre homem se inspirava enquanto escrevia. Os pensamentos soltos foram jogados na maré alta, e o escritor errante percebeu que nenhuma nota lhe falta, quando ao olhar a pilastra principal, observara que ela estava torta, percebera então, que já passou o mal de seus lábios, e bêbado ele exorta. Proclama a dor livre e o engano, proclama o amor e as paixões dos tiranos, numa leve doçura que mais parece um plano, de perpetuar a ternura envolta apenas por um pano. E finalmente a arte de desvendar os segredos completos, tardios em aparecer, torna rouca a voz aberta, e põe os homens a emudecer.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A NUDEZ DO SILÊNCIO

Silêncio é o que eu peço por favor. Não quero mais ouvir os intensos tambores que me fizeram dançar, essa dança esquisita, alimentada pela incapacidade de voar, tocada pelo velho apetite do prazer que não me deixava acordar. Não quero mais que os alaridos, estampidos doces, e o farfalhar das asas celestes venham me encontrar. Silêncio é tudo o que eu peço agora.Pode chegar mais perto, mas venha quieto e sem demora.
Tenho medo de enlouquecer preso a essa teia, cheia de vida e de conversas desastrosas. Preso nos rumores das vozes falhas é que eu percebo, quanto desalento, quanto desprezo, quanto despreparo. Sinto o verso firme das palavras, subjugadas ao meu desejo, enfraquecido pelo vento do temporal. Vejo que esse mesmo verso, além de fraco, não sente mais vontade de compor uma canção, uma poesia ou um carnaval. Se perdeu na imensidão daquele ar celeste e paternal. Por quantos caminhos eu ainda tenho que andar, antes de encontrar o rumo certo de um final feliz?
O velho veio outra vez me visitar. Veio para me dizer oi, com sua boca banguela e fétida que expressa apenas o número de vítimas que já devorou. Se eu soubesse como matá-lo para me tornar forte. Se ao menos eu pudesse entender de que matéria é feito seu desejo carnal e febril. Mas nada disso sei. Apenas o silêncio se dirige a mim. Atendendo finalmente meu pedido, chega o silêncio na sua forma crua, desnuda e repleta de feridas que ainda não se curaram. A cura foi mandada para longe, nem sei bem ao certo onde está. E mesmo que eu tentasse buscar outra solução, seria impedido pela minha boca, que luta dizendo não. Não posso me encontrar se não sei onde me perdi. Apenas sinto vontade de correr para um lugar qualquer que esteja a léguas de distância daqui. Se pudesse me desprender do corpo e voltar ao meu estado real, saberia onde encontro a primazia da figura eterna, o ventre original. Mas a condenação do velho me obriga a refletir.
Caminho sozinho, com passos firmes e determinados, sobre o penhasco da verdadeira identidade. Já atravessei as colinas e as montanhas que me separavam do eu , que me separavam do ser. E as vezes me indago, se realmente ser é saber o que será, antes mesmo de acontecer, e concluo que estou sendo muito mais do que verdadeiramente sou. E outra vez o silêncio caça a minha virtude.Quando a encontra, ela toma pra si, como recompensa de uma vitoriosa batalha, onde o inimigo se perdeu em suas doutrinas, e ardeu na própria fornalha, alimentada pela madeira viva da imaginação, transformada em árvore morta, jogada à própria ilusão. E o velho lenhador de sonhos, pôde trabalhar enquanto eu dormia. Pegou o seu machado, cortou o sândalo, e este enquanto deixava escapar o último fôlego de vida, perfumou lâmina que o feriu. Assim eu me perdi. Em idéias adormecidas que não conseguiram me acordar. Aguardo agora o beijo do príncipe que virá um dia, de um universo completamente metafórico, retribuir as gentilezas que eu dispensei enquanto andava pelo seu reino. Não quero um encontro marcado, quero apenas que o acaso contemplado como amigo, surja desregrado me trazendo seu abrigo. Num abraço forte do aconchego eterno, procuro a satisfação de saber que não precisarei mais temer o velho e nem o seu machado. Não precisarei mais temer a ordem silenciosa, escrita num papel manchado pelas lágrimas, que um dia foram contidas, mas que hoje demonstram que a dor é cautelosa e sempre encontra outra maneira de gritar.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

UM ANJO CAÍDO

"No princípio criou Deus os céus e a terra". E as coisas aconteceram como deveriam ser. Num ambiente onde os glutões se deliciam com suas ceias divinamente postas. A umidade fixa, é etílica, como era nas grandes festas dionisíacas e nos antigos bacanais. As propostas também são as mesmas. Tentar salvar o mundo, tentar entender o ser humano, tentar acusar a sociedade de hipocrisia é o mais alto grau em que se pode chegar nesses encontros. E tudo isso acaba se perdendo em meio aos devaneios, firmados sobretudo por aproximação com alguma idéia mais bem elaborada, dita por alguém em algum momento qualquer. "E disse Deus: Haja Luz, e houve luz". Mas já faz tempo que a luz brilhou pela última vez. Talvez no século XVIII, talvez na Belle Epoquè. Quem sabe a Primeira Guerra Mundial tenha contribuido para que a luz se tornasse forte através da dor, e do medo da escuridão. A crise dos anos 20 pode ter despertado algumas emoções. E os Beatniks? Os Hipsters? E os estudantes de 1968? "E viu Deus que tudo isso era bom, houve tarde e manhã e foi o primeiro dia".
O primeiro dia se perdeu, dentro do abuso inveterado e contumaz da perda da identidade pessoal e lógica, que um dia talvez, tenha movimentado a roda da justiça.
Abriu-se o desfile de modas. Modas comportamentais e modismos intelectuais. De um lado um menino querendo chocar a todos com sua pose formal, do outro lado a menina querendo mostrar que se preocupa com o mundo num compasso desigual. As conversas perdidas dentro de uma libido eufórica que deságua num inferno astral. Tentam mostrar que nem tudo está perdido, se visto sob a ótica da visão esperançosa parcial. Mas sempre foi assim e assim será pela vida inteira. Talvez os focos dos protestos mudem, talvez o tom da agitação ganhe uma escala maior, mas cabe sempre ao mesmo grupo, transformado agora em tribo, nos salvar dessa crise existencial. Nesse mesmo dia criado, ainda temos que encarar o bêbado exagerado, preso numa filosofia de bar. Com sua proposta induzida pelos resquícios de pólvora que restaram do tiro de canhão, envolto numa órbita secreta de trama, abuso e inquietação.
Como está confuso para ver o pôr-do-sol. Ainda mais com essa tarde invernal, coberta pelas nuvens de idéias tão quentes como o frio glacial. E os jovens, anjos libertadores, se colocam como velhos, demoníacos e acusadores, apontando seus dedos pegajosos de unhas mal feitas, à todo aquele que recusa aceitar seus planos de absolvição. Eles ainda não entenderam que esse julgamento é o da própria consciência, já que o réu, nesse caso, está dividido entre a liberdade de escolher e a comodidade de aceitar. A primeira lhe garante um nome único e um ostracismo imposto pelos "intelectuais", a segunda lhe permite a inserção de seu nome no rol dos grandes pensadores bestiais. Eis o caminho! Agora segui-o. "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!".

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A UNICIDADE DO MISTÉRIO QUE NOS RODEIA


Contemplamos de maneira inquieta a nossa vida, sem entender como os mistérios rondam o nosso ser. Desconhecemos em última análise nossa capacidade criadora, e procuramos entender o universo que nos rodeia em a mínima noça de como verdadeiramente ele nos rodeia. Nessa busca interminável, acabamos tropeçando em nossas próprias inquietações e indagações, como se pudéssemos alterar um minuto apenas do nosso percurso. Nos prendemos em idéias, que nada mais são do que pensamentos expressos anteriormente, e que por oportunismo, ganharam alguma credibilidade. Muitas vezes fazemos de nossa vida um caderno de anotações repetidas, e não damos o toque mágico da inovação, abolindo assim as virtudes mantenedoras de nosso caráter. Acabamos percebendo um dia, que a escravidão tomou conta de nossas entranhas, quando observamos que nada de verdadeiramente nosso conseguimos deixar. Fomos nesse tempo todo, apenas filhos de idéias e revoluções, mas as armas nunca estiveram em nossas mãos. Estamos cercados por ações e pensamentos inexplicáveis. Quantas perguntas! Quanta coisa ainda há para fazer!
Por vezes, apenas sentimos, outras vezes o querer sentir acaba sendo mais forte, mas o que se passa aqui dentro nunca conseguiremos entender. Pode ser insatisfação, melodia simples, poesia falha ou pura distorção, pode até ser uma imagem obsoleta do real, mas a verdade é que estamos impossibilitados de receber uma luz sobre tudo o que se passa.
Seria um exagero dividir as dúvidas de uma cabeça chata e animal. Sei que cada resposta está vestida com as roupas majestosas de uma nova pergunta, que assume uma forma cada vez mais complexa e indecifrável. O ponto de interrogação ronda minha cabeça, como o leão ronda sua presa, esperando a oportunidade certa de atacar, deixando um vazio ainda maior no vácuo de matéria escura e letra morta que insiste em permanecer, formando em mim os alicerces sólidos de sua construção.
Até penso ser possível ficar assim. Acabo percebendo que não há alternativa certa para buscar. E justamente nesse momento que o conjunto de nossas reações e emoções oscila verbalmente, demonstrando essa inquietude misteriosa das palavras, que apenas tentam, sem sucesso, explicar o vazio do existir. Se a existência se fundamenta numa base sólida, isso eu não sei dizer. Apenas posso afirmar que o desejo, muitas vezes insano, de que isso seja verdade é uma constante manifestação de esperança, servindo como ópio, entorpecendo nossos olhos com as magnitudes das ilusões reais.

domingo, 31 de agosto de 2008

O HOMEM MÁQUINA (se puder, repasse)

O homem é uma máquina com capacidade racional! Essa capacidade permite a esse mesmo homem ser muitas vezes inferior às máquinas que opera. Ao passo que as máquinas apenas trabalham quando estimuladas, não precisam de muitas coisas para sobreviver, não enfrentam problemas com o chefe, não se deprimem devido a um relacionamento que terminou, não precisam do horário de almoço, apesar de precisarem de energia, não morrem, não correm o risco de ficarem impossibilitadas de chegar ao trabalho, e detalhe, elas também aproveitam as férias coletivas. A automatização do trabalho após a Revolução Industrial, tornou o homem um operador de tarefas repetitivas que tiravam dele toda a capacidade criativa. Tudo isso era para manter acesa a recém desenvolvida sociedade de consumo. O consumismo desenfreado levou o mercado a abrir novas áreas de trabalho e isso fez com que mais e mais pessoas conseguissem emprego nessas loucas indústrias do séc. XVIII e XIX.
A máquina também tirou da frente de trabalho os menos capacitados. Isso refletiu num movimento conhecido como Ludismo, onde os trabalhadores quebraram as máquinas, nutridos pelo desejo de obterem seus empregos de volta. Mas o que aconteceu foi totalmente o inverso. O movimento acabou forçando os industriários a comprarem novas máquinas e desenvolver novas tecnológias. Pela primeira vez Máquinas 1 x 0 Homem.
A grande saída no século XX então foi transformar o homem em máquina. E não me refiro ao Robocop ou outras fantasias fictícias. Escrevo aqui sobre o homem de verdade. Com sua rotina louca e muitas vezes doentia (sinto-me dentro desse grupo). Essa rotina não respeita doença, gosto, vontade, família, tempo. Ela exige constantemente uma disposição da qual as vezes estamos famintos. Estamos entregues ao mercado. Na ânsia de sempre fazer melhor acabamos nos desfazendo do que temos de melhor. Nossa saúde comprometida, nossa família sozinha, nossa vida correndo risco de se perder numa estrada qualquer, ceifada pelo tempo escasso que nos forçou a optar pelo mais perigoso. Tudo isso serve apenas para nós tentarmos manter um estilo de vida que escolhemos. Nosso status consome nossas energias. Trabalhamos tanto, e para quê? Nem ao menos temos o tão preterido tempo para descansar.
É claro que o trabalho é uma necessidade nos dias do império capitalista global. Estamos observando uma anulação do indivíduo em função do trabalho. O homem está perdendo sua identidade nos cartões ponto de suas empresas. O homem está sendo substituído por números de seguro de vida, PIS/PASEP, Carteira de Trabalho e outras exigências numéricas, quase chegando ao infinito. O problema está no fato de que nós, seres humanos, não temos garantia e muitas vezes conserto. Estamos aqui para um uso exclusivo e único. Temos um limite, e esse limite não se amplia com descobertas científicas que melhoram nosso funcionamento. Tudo bem que a saúde evoluiu muito. Mas não estou com a mínima vontade de usar as descobertas médicas, que visam melhorar a qualidade de vida, a favor de um patrão. Gostaria de usá-la para meu prazer e satisfação. O problema é que como tudo na vida isso é um ciclo vicioso que nos prende a cada tentativa de libertação. Estamos entregues à sina de viver uma vida de trabalho e trabalhar uma vida inteira. Louvados sejam os gregos que afirmavam o ócio.