segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

MEU INFERNO VIZINHO




Sagrei-me cavaleiro nos portões infernais. Troquei meus pés por cascos dispostos a cavalgar as planícies da maldição. Maldito, Maldito, Maldito. Tornei-me arauto das batalhas diabólicas, e nas fendas amaldiçoadas ergui meu estandarte da perdição. Ergui o escudo feito com os ossos daqueles que ceifei, e enquanto usava minha proteção, ouvia o clamor daqueles que, sem piedade, fiz questão de abandonar. Famintos doutores do banquete de lixo e das fezes ditas relíquias.


Conversei com almas desossadas, e coloquei os mortos suculentos sobre a mesa para que finalmente eu pudesse saborear uma distinta refeição. Um pouco de água sobre o cadáver, a ferramenta certa, o corte preciso, e eis um belo jantar. Pena que a comida estava um pouco fria!Tudo bem, esses mesmos corpos quando chegarem ao reino subterrâneo das trevas estarão aquecidos pelo fogo que consome milhões. Trevas apenas no nome do distante domínio, uma vez que a luz e o calor estão presentes de forma constante. Tudo queima sob o olhar atento do demônio em excitação.


As labaredas da pira eterna do inferno souberam gravar na minha pele as marcas que o metal deixou no meu coração. Sentei num canto qualquer, e com a faca usada para tirar a vida, gravei o nome das penitências que ainda terei de cumprir. Encostei suavemente sua ponta em minha carne, até cravar o aço nos meus ossos, e a suavidade dar espaço a agressão que assumiu agora o controle. O sangue verteu, escorreu pelo meu braço e brindou o chão com o seu aroma inconfundível e com sua vontade de voltar para o universo tentando outra vez experimentar a vida.


Rumei para o reino dos mortos degradados e fui recepcionado por demônios fedendo enxofre. O chicote escreveu com o sangue das minhas costas o caminho para o cálice sagrado. E de líquido vermelho saído do corpo em feridas se fez o jantar. Bebi minha própria vida, bebi meu próprio eu. Vomitei a vontade partida, vomitei demônios em forma de deus.


A perdição estava impressa em cada lareira acesa para esquentar uma caldeira. A lenha estourava, a madeira era consumida pelo calor. Dentro da mesma caldeira, corpos ardiam entoando as músicas satânicas que trouxeram a condenação. O Diabo não cantava mais. Ele era o motivo da canção. Feliz, via os corpos derretendo. A pele pendendo dos ossos e pingando no chão. Todos deformados, apresentavam faces em decomposição. O cheiro podre infestava o lugar.


Olhos vermelhos cravejados de diamantes davam o brilho que a festa pedia para ter. Dentro de cada corpo borbulhando, uma alma sonora tentava resgatar um pouco da bondade abandonada nos anos que passaram. Não conseguia, e a cada tentativa frustrada, voltava ávida por um crânio estourado para compensar o esforço vão.


Nada se diz ali. O que se houve são prantos, palavrões, gritos, dor. A própria dor encerra sua jornada após um tempo de trabalho e abandona o corpo que se vê rejeitado até por essa estranha forma de sentir. É o mais baixo estado de um corpo que flutua na própria sorte.


O inferno se abriu pra mim, o inferno me engoliu. Não consegui respirar o último instante das verdades ditas e caí nas chamas do engano, que ardem as mentiras queimadas, e reciclam cada gesto tido por enganoso. Fogo das aberrações condenadas. Velas que derretem sua cera e marcam meu corpo com aquela calda quente, tatuando um caminho sem fim e sem retorno.

5 comentários:

Tainara disse...

"Um pouco de água sobre o cadáver, a ferramenta certa, o corte preciso, e eis um belo jantar." Hj estou com vontade de matar alguém. KDASOPDASPDOKAS
"Velas que derretem sua cera e marcam meu corpo com aquela calda quente, tatuando um caminho sem fim e sem retorno."

Bru disse...

muito bom profe :D

Lhiaannan-shee. disse...

profe, sinceramente, você me assusta as vezes :D ISAOIH mas tá muito bom o//

Thaise disse...

Acho que prefiro quando você tá mais pra anjinho haha =P
Um tanto quanto assustador, mas ainda assim, intenso e fascinante como sempre ;)

Rodrigo Moreira Prado disse...

Belo texto. Pouco apelativo nos recursos, passa um negro inerente da vida, que transcende qualquer ato ou vontade humana, e de cheiro um tanto apaixonante. É o resumo do indescritível que há em meu espírito pós duas leituras seguidas. Necessariamente repetindo, parabéns.