domingo, 5 de abril de 2009

RETRATOS DA IMAGINAÇÃO

No trono do rei do mundo, apoiado pelo cetro miúdo de um governo sem cidadão, vi a cidade noturna, iluminada pelos telhados, que com pontos brilhantes se levantava sobre nossas cabeças altas. Cabelos curtos, cabelos compridos, olhos cultos, olhos coloridos. Vivos ou mortos, já não importa a situação, foram enterrados para o mundo, que em silêncio responde tudo, e não vai entende-los jamais! A porta se abriu para a noite, que aguardara todo o dia para acontecer. Paris e seus cafés, foram revividos na distância incerta de uma tarde, distante algumas horas do seu amanhecer. Os revolucionários se encontraram, para propor o plano sem alarde, disposto a resgatar o velho, e o rejuvenescer. A torre Eiffel pediu para o fotógrafo ampliar seus arcos, e mostrar a terra onde seu ferro se fixou. Queria ser algo além da guerra, queria ser a expressão etérea formada pela Art Nouveau. Era como se numa esquina perdida do mundo, Diana Arbus, Duane Michaels e Les Krims, sentassem com Roger Fenton, Mathew Brady e Alphonse Mucha e buscassem de Maddox, sua emulsão de gelatina com brometo de prata, substituindo o colódio, e deixando mais lenta a fixação das imagens de seus dias. Não queriam um filme que corre assombroso pelas Tulherias, mas uma cena que se guarde em campos legítimos de outras cantorias. Não eram corpos que compartilhavam momentos de satisfação, mas cabeças prontas e inteligências reunidas, aconchegadas em devaneios por aproximação. No monte Olimpo, sagrada morada dos deuses, estavam dispostos os imortais, que haviam esquecido os titãs. Queriam experimentar tudo o que o mundo oferece, mesmo que fosse apenas um canal que apetece, instiga e causa dor. A música vinha da cítara, da harpa, do piano, e também da imaginação, onde os sons se formam, vindos da alma em constante transformação. Hermes, Eros e Afrodite, pairavam com seus espíritos na terra desabitada. Queriam esquecer de Cronos, celebrar Urano, e se perder em Gaia, sendo testemunhas da madrugada. Um monte e seus generais. O transatlântico sobre seu mar. Uma montanha de esqueletos colossais. Asas de pássaros livres dispostos a voar.
A visita da morte se deu há tempos, e ela levou rebentos em seus sonhos matinais. O cemitério estava com seus portões abertos, mas não queria buscar ninguém. Talvez estivesse ausente, toda forma decadente, levantando-se apenas espíritos celestiais. Abri os braços, vi o Cristo, e quis pular no imenso universo que minha alma estava criando. Não havia presente, não havia futuro, apenas um passado, que dentro do espaço permitido estava se recriando. Não pensei em avisos, não pensei em sobras, não pensei em juízos e nem preparei manobras. Sobre os vasos tombados, sem flores ou recados, me senti senhor de tudo que via. Na hora certa da noite, com os ponteiros trocados, senti que algo muito poético surgia. Em vogais separadas por consoantes desgovernadas, vi que era possível transformar em chocolate quente, a viagem que até então estava fria. Os quadros de punk´s, pintados sob a intensa vontade do desejo, ocuparam num rápido lampejo, todo o corredor da galeria. Julio César, Marco Antonio e Cleópatra, recuperaram seus passos na história, se encontraram num recorte doce da vitória, deixando a água verter viva da fonte de outras glórias. Fotos que câmeras não tiraram, puderam escrever sons que os músicos não pensaram. Fixei a figura numa câmara escura, que bebeu do momento revelador, imprimindo o contraste nítido de sua figura, testemunha ocular e objetiva de todo seu fulgor. Não contaram os passos, não contaram as pedras, abasteceram o espaço, e quebraram todas as regras. Beberam da taça do fogo, que o sabor de menta proporcionava. Escondidos da própria sorte, celebrando o sul e o norte, ao som da corda que então vibrava. Escreveram espaços siderais, acertaram estrelas, e de Veneza entupiram os canais. Dançariam na chuva se pudessem, visitariam a Casablanca de quisessem, e entregariam ao cidadão Kane seu segredo, caso houvesse. Eram os deuses generais, e a odisséia do espaço se escrevia a cada passo, que num tom forte de abraço acabaria. A luz ameaçou o dia, os carros ocuparam a rua deserta. E monte sagrado se converteu numa rodovia. Não foi apenas um encontro. Corpos se encontram. Foi um culto xamânico, porque mentes, quando juntas, celebraram! Inteligências se cruzam, cérebros se alegram. A fumaça, que fazia névoa por toda a rua, trazia consigo a alma de cada corpo, deixando a cabeça nua. A razão encontrava razões, e juntas afirmavam o papel sublime da ação. Caras, mãos, bocas, braços, e acima de tudo, um prazer em compartilhar o espaço inquieto das almas, que viajam para matar a saudade e tentar encontrar a verdade que aquece e acalma.

3 comentários:

Paulo Henrique disse...

"Verdade que aquece e acalma", eis um termo super bem utilizado no seu post, e que nos leva a diversos modos de pensar afinal, a verdade acalma, aquece, tranquiliza, além de uma série de outras sensações de bem estar, serenidade, proteção, etc.

Parabéns!
PS: Estou de volta com o blog \o

Oleni disse...

A verdade sempre será a verdade, seja ela em devaneios ou na dura realidade. Parabéns mais uma vez.

Oleni disse...

Restou para mim, a veneração do mais puro e valioso conjunto: O cérebro.Parabéns! tenha certeza que vc ficou com a melhor opção, pois o homem que acha que a mulher é só bunda e peito é poque não encontrou seu próprio cérebro.Parabéns mais uma vez.