segunda-feira, 30 de março de 2009

SEU INGRESSO POR FAVOR

Choquei o mundo, quando contei para esses pedófilos intelectuais, que eu ainda me considerava uma criança. O estupro das idéias se dá diariamente, com as mentiras, ditas na forma de ilusão, apenas para perverter uma juventude, e lhes privar o direito da razão. Pude fazer um termômetro macabro, um verdadeiro farol de candelabros, com os graus da minha loucura! Entendi que era a noite densa demais, e o dia trazia em seus tentáculos, manchas ignorantes, verdades escuras. As chamas acesas mostraram, que o lado cego trazia seu legado de formosura. Loucura que apenas paga o preço da exatidão, quando todas as palavras postas, não dizem nada além do que a verdadeira visão seria capaz de constatar.
Não contei carneiros, não pulei a fogueira de São João, não aguardei o carnaval de fevereiro, nem atirei a flecha em São Sebastião. Roubei o cavalo de São Jorge, e o Dragão passou a persegui-lo. Sabia que era apenas uma questão de tempo, para ver os dois juntos. São unha e carne, e desde que alguém os pintou são inseparáveis, a verdadeira manifestação do EU SOU. São fogo, são energia. Um demonstra suas convicções pela espada, o outro pelo gosto amargo do enxofre, que queima suas papilas gustativas, dando impressão de que tudo perdeu essencialmente o sabor. Corri em galopes fortes e errantes. Peguei a santa montaria, e lhe dei um destino empolgante. Mostrei que ele poderia galopar além dos próprios limites. Provei que o mundo era infinito, e que haviam tantas paisagens para conhecer, que ele, por amor ao seu amo, por tanto tempo desprezara. Havia formas certas para pagar o amor, trazendo assim o esquecimento para quem verdadeiramente o desprezara. Aquele cavalo parecia uma fera solta, um Dom Quixote sem o Rocinante. Experimentou sons que não eram preces e nem orações. Viu bundas que não eram armaduras do velho Jorge. Posso dizer que ele ficou extasiado, ao perceber que o mundo não se fazia apenas de dragões, viagem para a Lua, e quadros nas casas de velhas beatas.
Ao voltar de uma bebedeira, quando o pé-de-pano já estava um pé d´água, encontramos nosso santo, conversando com o cospe fogo. Juntos saudavam as sagradas vacas indianas. Algumas, se entregavam em sacrifício, e permitiam que suas costelas fossem saboreadas, e todos se apoderavam de suas divindade. Estávamos os quatro, São Jorge, que pedia para ser chamado apenas de Jorge, o Dragão, o Cavalo e eu. Alguém teria de partir. Novos destinos chamavam por esse dissecador analítico de falsas doutrinas. Novos santos queriam colocar a roupa de baile, e abandonar o uniforme de presidiário em forma de batina. Quantos gostariam de verdadeiramente deixar fluir seu espírito quente, deixar saltar suas veias grossas, e fazer todo o sangue correr, num espetáculo de pulsação intensa. Antes que outros animais chegassem, e eu passasse a ser chamado de Noé, e tivesse que trabalhar, rumei para meu infinito destino, na busca intermitente por algo que pudesse chamar de lar.
Pulei o muro, buscando encontrar um colchão de espumas, penas arrumadas, e confortavelmente postas, e não me dei conta de que pulava num abismo iluminado pelas luzes da usura. Servi de conselheiro fracassado e minhas dicas não foram úteis. Não consegui cuidar nem do menor dos pacientes. Perdi os cordões umbilicais em alguma mesa de taverna mal humorada, quando eu apresentava duas duplas, e um sortudo descia uma quadra. Perdi o emprego de babá de luxo. Na verdade pedi a conta, quando percebi que estava prestes a contar histórias mal acabadas, talvez até mal vividas. Todas fundamentadas numa perfídia ilusão, hostil e astuta pelas próprias mãos. Onde foi que depositei todo o intuito perdido de um dia voltar a ser normal? Quando é que fui, em minha vida, alguém mais simples, alguém mais natural? Nunca abandonei meu lado infantil. Foi o mundo que se distanciou do meu universo juvenil. Levantou-se como adulto que cresceu rápido demais. Não sabe onde por as mãos, não sabe onde pôs os pés. Procura agora um refém que acredite em seu seqüestro de tradições, e se limite a aceitar tudo em sua volta, seus erros e proposições, quadros quebrados de igrejas construídas sobre cabarés.

2 comentários:

Oleni disse...

Cada texto que leio é uma viagem maravilhosa para um mundo que não conheço mas mesmo assim é prazeroso.Parabéns

Oleni disse...

Nunca abandonei meu lado infantil.Muito bonito, esse lado infantil um dia tornará a se manifestar nos filhos, e quando a vida adulta se manifestar neles; a infantilidade virá através dos netos e assim sucessivamente, e isso é muito bom porque mesmo velhinhos haverá sempre um lado criança.