quinta-feira, 2 de julho de 2009

ESTOU DE SAÍDA!

Esperei o compasso dos ponteiros ultrapassar o inesgotável e intransponível laço do cansaço, para concluir que havia aguardado tempo demais. Minhas mãos buscaram impor o gosto perfumado que foi levado à língua. Um engano instalado, permanente e não desfeito. Derrapou na casa que vazia agora, dera abrigo aos fantasmas. Generalizou na arte o defeito.


Transborda imaginação, refuta-se as tendências. O que restou foi a experiência direta servindo como subterfúgio, esconderijo, casamata. Repleta de bancos que sustentam a satisfação direcionada para outra direção. São as idéias do mercúrio que florescem, separam o ouro das impurezas, e criam no jardim um garimpo virgem, pronto para ser explorado. O futuro que aconteceu no passado, o fracasso mais espetacular do mundo, estrela espatifada no abismo de sua própria grandeza.


Guardou-se o fogo da vela, que não serviu para enfeitar festas. A cera derretida esperando pelos corpos molhados, compôs novamente uma imagem inteira no castiçal da igreja posta. Não permaneceu assim o candelabro, ficou ao lado da chama, e numa simbiose aguerrida, seguiu como companhia do velório. Apesar de simplório, deixava perambular alguns corpos vivos.

Enterro de uma noite que se levantou imponente, permitindo a si invocar a linha torta do realismo, brincar com o nominalismo e inventar novos conceitos. Expressão da impressão surreal, guardada sob o abstrato colorido. Letras que silenciaram. Restou a cópia não lida, escrita num papel esquecido jogado no chão de um quarto sem visitas. A bagagem dos números infinitos se foi, e não teve pressa de voltar.

Criaturas sombrias, protegidas pela aura da improbabilidade. Encruzilhadas tardias nessas escalas de rotatividade. Charutos, garrafas de bebida. Despachos parados sobre a mesa do atendente que não leu as ações do dia. Crachás ostentando fotos daqueles que não compareceram para gravar no seus cartões as horas de trabalho previstas.

O açougueiro deixou o balcão vazio. A carne não foi vendida, a carne não foi entregue. Peças inteiras abrigando o vermelho ainda vivo, aguardavam serem moídas. Queriam se transformar em penas de travesseiro. Queriam as horas longas de um tempo ligeiro.

Poesia guardada na razão pura não praticada. Poesia petrificada no projeto frio da rua urbanizada. Razão instrumental sem meio. Uma montanha de impulsos abrigadas num galpão sem esteio.

Otelo parte para o seu principado. Otelo festeja junto com os andarilhos, ladrilhos, andrajosos, corajosos. Desbravam a inconsciência perdida no superego, que se impôs como alternativa para uma lua que apenas surgia. Otelo não abandona a si, e enquanto tem a certeza do seu prazer, constroi a rota da sua satisfação. Pode ser no corpo, no espírito solto ou numa corrente de oração.


Escolhas e recortes de jornal, mostram como superamos nossos pais. Só lemos as notícias que a censura permitiu, que a mente aceitou, e que não foram rejeitadas pelas contas da calculadora que retornou ao complexo sistema de um ábaco não digital. A desconfiança de um corpo estranho e um silêncio interrompido apenas, pelas gotas curtas de um longo banho.

Sentado na única cadeira que foi posta naquela mesa, o glutão devora os doces preparados para o aniversário do centauro. Água em calda, frutas temperadas pelo toque retilíneo, repentino e constante. Deixa a imagem das dimensões lhe presentear. Percorre o pecado de seis capitais. A língua afiada em decretos esquecidos, gira agora uma rolha que bóia na superfície de um copo de vidro. Foragido nos seus deleites, bandido com seus enfeites. Espera pela madrugada que já vem, e guarda seguro o feedback de um rei, que usou a coroa da rainha, e se dispôs, embarcando nas taças do momento, a terminar com a túnica de um súdito além.

3 comentários:

Tainara disse...

"Espera pela madrugada que já vem, guarda seguro o feedback de um rei, que usou a coroa da rainha, e terminou com a túnica de um súdito além." Você conclui e eu sempre quero ler mais! Mto bom.

Ella disse...

Escolhas e recortes de jornal, mostram como superamos nossos pais. Só lemos as notícias que a censura permitiu, que a mente aceitou, e que não foram rejeitadas pelas contas da calculadora que retornou ao complexo sistema de um ábaco não digital.


Otimo Che. Realista e ao mesmo tempo tão abstrato.

Oleni disse...

Sentado na única cadeira que foi posta naquela mesa, o glutão devora os doces preparados para o aniversário Muito bom! mastenho a impressão que já vivi essa cena.