terça-feira, 21 de julho de 2009

QUADRA 7, APARTAMENTO 16.

Uma exposição, onde os corpos prostrados diante dos quadros imponentes se apresentam como veredas latentes. Verdadeiros conjuntos luminosos de peitos ardentes.
Exposição de máquinas, que esquecidas não puderam retratar aquilo que fotografia alguma poderia prender. O gelo da timidez se desfez diante do fogo que envolvia o espetáculo altivo e determinado. Arte clássica, que das veias eternas de Michelangelo foi rebuscado. Esculpido nos mármores de Carrara, e da longínqua esfera dos sonhos, resgatado.
A embriaguez dos momentos sóbrios deixou o céu entorpecido de harmonia.
O admirador da escultura em cobre virou poeta, o poeta virou curandeiro, e o curandeiro ressuscitou Camões. Substituiu a potência interessante dos construtores, por rimas e tônicas que resplandecem os mesmos valores.
Escapam-se as ilusões, ficam as vertigens. São lembranças nítidas desse teto, que do alto do céu deixa resplandecer os pequenos buracos do paraíso. Telhado pisado pelos pés sonhadores que vaguearam uma noite a mais. A vida reencarnou no mesmo lugar. A Fênix alçava seu vôo e brilhava sob o calor celestial.
O sol, um círculo vermelho preso no alto, é aceso pelo cuidado das mãos que são deixadas de lado em favor da boca, que suplica num tom lírico de oração o sabor querido da aurora. Outros sóis se levantam, outros círculos se fazem, enquanto a música das 4 estações norteia cada aspecto sensível, submetido a libido temporal. Cada instante era constituído da estranha matéria desconhecida que forma nossos sonhos. Foi a própria doçura, que em vidros molhados pelo calor, trouxe novas respostas para as velhas perguntas, esclarecidas na tela escura que de tão intensa era apreciada com sabor.
Aproveita-se a juventude, essa nobre embriaguez sem vinho. Esconde-se a idade para ocultar a consciência. Cultua-se as taças, que já foram partilhadas com Padres, e honradas nas mesas redondas, onde os Cavaleiros das Santas Armaduras já se enterraram em amargura, e hoje buscam o tom certo dos nuances.
Eternidade com sentido reluzente, torna límpido o aguardo ausente. Um toque apenas. Uma voz de espera. A semente que a terra guarda pela sua própria vontade. Os pássaros que seguem os passos do vento, e sabem que a resposta se encontra no primeiro farfalhar das asas douradas e molhadas de suor.
Voam pela estrada que deita e se dobra diante da passagem. Reservam para si tanta liberdade, que nada poderia adentrar ao universo solto dos passos distintos, descartados sob a tutela de uma dança que ronda o amanhecer.
Sentam-se em seu próprio júbilo celebrando o pensamento que é garantido somente pela certeza de não pensa-lo. Aguardam os atores que nunca chegaram. Retomam o roteiro que nunca ensaiaram.
Constroem diálogos com risos animados, e passeiam pelas curiosidades submetidas ao desejo, como Vercingentorix a Caio Julio César prostrado, como a escuridão dissipada com um lampejo.
Desejariam que a água fria fosse por hora água quente. Desejariam ver o mundo aberto em sinais de trânsito livre, como espelhos que giram com um simples tocar de mãos, e transformam a curiosidade em satisfação, sem que alguém obrigue.
Aproveitam a vida. Consideram-na uma verdadeira infância da imortalidade. Não percebem o tempo, esse senhor das suas próprias horas e rumor das suas próprias causas. O algoz das longas esperas e das curtas demoras. Quanto mais se implora pelo retorno dos ponteiros, mais eles se distanciam, tornando as horas, apenas uma mentira, que por vaidade é mantida, nem que seja por um instante apenas.
Criam seus abrigos submersos. Sentam-se à mesa de Poseidon, saboreiam a delícia lisonjeira, da pérola escondida sob o toque divinal. Vigilantes escondem seu verdadeiro sentido. Tornam o achado, um culto celebrado ao objeto perdido, e finalmente tornam as palavras fundo para um livro que já foi lido.
Em prosas abertas de laços poéticos, aguardam a frase perfeita que por hora despenca. Em jardins de terras férteis, plantam suas rosas, colhem as orquídeas, dispensam as ervas tolas e queimam as avencas.
Assim se deu na história o mês de Julho. Foi dessa maneira que os querubins alados deixaram o paraíso e se puseram à mercê das poesias derradeiras. Assim se firmou o brado, e se estabeleceu o ritmo que acompanhou as gotas da chuva e as transformou em vertentes corredeiras.

Um comentário:

Oleni disse...

Em prosas abertas de laços poéticos, aguardam a frase perfeita.Enquanto houver poeta sempre haverá frases pefeitas.