sábado, 17 de julho de 2010

DEIXA


Não sou a voz da solidão solta num campo aberto. Não sou as trombetas mudas e perdidas do coro incerto. Senti a vivacidade do abraço terno quando me senti vivo. Senti o valor de um sangue eterno quando meus braços se ergueram outra vez. Eu disse para mim: Levanta-te!
Parei de condenar a lenha que não queria queimar, quando percebi que era eu que não estava colocando o fogo no seu devido lugar. Enriqueci minha prataria com talheres de ouro e então, fiz um banquete com o prato que todos achavam tolo.
Assim pude sentir mais uma vez o vento suave de uma simples manhã que se prolonga num dia cheio de fatos que esperam um sentido. Eu sou quem dá esse sentido ao meu entardecer, e a noite resgata as lembranças da minha criatividade durante os dias da vida.
Crio meu plano dentro dessas coisas bonitas que o tempo nos dá. Não há força alguma perdida no espaço que prepare pra mim meu futuro, ou amarre os cordões do meu cadarço. Sou eu o responsável por tudo que há ao meu redor. Responderei pelos sorrisos, pelas lágrimas, pelos textos heréticos e pelo suor.
Desisti de tirar minha vida, quando descobri que você fazia parte de mim. Matando-me eu mataria você também, porque você está em mim e eu estou em você! E isso nem a mais simples brincadeira imaginária poderia suportar. Respiro um ar que você me ensinou a aspirar. Arrumo minhas ideias como você me ajudou a organizar. Quando faço nova uma mancha no quintal, você me presenteia com roupas tiradas do nosso varal.
Não me preocupo com mistérios, pois você é um enigma constante que eu sem saber sempre tentei resolver. São peças mágicas, já fundadas na magnitude do que poderiam ser. São portas abertas de uma viagem certa daquilo que hoje talvez não saberia explicar.
Entender a dimensão das atitudes é mister para abrigar a compreensão dos dias e das horas ministradas em companhia. Adicionar ao véu da corredeira uma cascata cheia, talvez não demonstre tanta maestria, mas perceber em gata gota minúscula um lago de possibilidades, é abrir os olhos para as novidades sem as quais não viveria.
Deixa meu sorriso voar solto pelo ar, deixa o menino bobo criar asas para salvar. Deixa a música sem razão ecoar pela sala. Deixa eu falar durante a madrugada, justamente quando o mundo inteiro se cala. Deixa eu mostrar o valar de um sentimento, deixa eu mostrar aquilo que os homens buscam desde o seu nascimento.
Deixa eu colher as uvas que as safras presenteiam, pisar nos campos enriquecidos pelas letras poéticas que me norteiam. Abrir as caixas de presentes e doces de um verão. Imaginar um mundo construído apenas com os sabores e cores da imaginação.

Um comentário:

Oleni disse...

Desisti de tirar minha vida, quando descobri que você fazia parte de mim. Matando-me eu mataria você também, porque você está em mim e eu estou em você!Ato de covardia dos corajosos, e coragem dos covardes, e com certeza torturante para quem te ama.