segunda-feira, 12 de julho de 2010

PÃO MOLHADO


As nuvens choram despreparadas. Lágrimas vertidas que concentram toda a história que seus olhos nunca puderam ver, mas que seu tato pode perceber pelo aumento insano da temperatura. A água escorre ansiosa para despertar a terra sedenta. As bocas se abrem tentando não parecerem ciumentas. As gargantas se preparam para lubrificar seu caminho, e os porões seguem certos de que nunca mais ficarão sozinhos. No labirinto dos sonhos venerados, acordado eu nunca sonhei. Criança que corria as madrugadas, aguardava um instante qualquer para o sol bater. Tocar a campanhia com seus raios iluminados, e permitir que eu buscasse meus brinquedos já guardados. Hoje entretanto, espero aflito a chuva que lavará aquilo que um dia eu chamei de lei. Meu sono é inquietante. Minhas madrugadas são perturbadoras. Não tenho uma noite certa e enquanto todos passam frio, eu vendi na feira a minha coberta. Meu cérebro brinda turbulento mais um momento de viajar. Deitar é sempre um começo para quem não consegue sonhar. Alcanço limites estelares, ultrapasso barreiras racionais e deposito todos meus devaneios no alto das montanhas mágicas feitas de doces dos antigos carnavais. Assim crio meu universo de saudade! Quantos vultos vagueiam pelas sombras dos meus pensamentos? Queria encerrá-los na cadeia, queria tornar-me menos aflito. Queria a simplicidade do mundo, mas do mundo vivo e não do meu mundo restrito! Uma mão desconhecida aperta meu peito, chega ao coração e concede-lhe um novo tempo de batida. Essa mão esmaga minha tranquilidade, faz despertar minha antiga idade e determina quanto tempo eu poderei viver. Contando os choques do meu peito tento entender direito qual será minha promoção. A chuva continua a verter dos céus. Rachaduras na parede do infinito ameaçam o dia ensolarado que deixou de existir aflito. Céu molhado, céu aberto, céu escancarado. O barulho da música foi superado pelas gotas em queda livre. Como pilotos suicidas, elas se preciptaram sobre nossas cabeças, como vozes intrusas elas se assustaram quando perceberam a força do meu calibre. Disparei contra o peito aberto. Joguei areia na cidade e a tornei um grande deserto. Enchi meus baldes com água salgada e tentei construir os castelos errantes dessa jornada. Para o meu desespero, a brincadeira acabou. Não posso construir castelos com baldes, não posso abandonar o mundo pelas minhas mãos, não posso fazer deserto sem alarde, não posso ser pontual sem saber que horas são. O destemido cancioneiro das serenatas absurdas, entrega-se ao violeiro tolo, roubando seu alaúde. Descarta a poesia que sucumbiu diante da banalidade do sentimento, despreza o inquietante, o contraditório e o movimento. Enterra a filosofia que nunca soube entender, encara um novo abrigo, despertanto a vida para viver. Se ninguém vem comigo eu posso perceber, que faltou apenas um antigo para o futuro aparecer. Vivo agora o tempo sem demora, vivo o presente magnífico desse sol. Não é com a chuva que eu sei que o homem chora, não será chupando uvas que eu verei o meu atol.

Um comentário:

Oleni disse...

Uma mão desconhecida aperta meu peito,ai vem a mão da mãe e me acorda! só para descontrair.