domingo, 11 de julho de 2010

TUDO É O MEU COMEÇO


Com as mãos atadas num tronco aguardo a fogueira da inquisição. Corpo nu de pelos e adornos, pés juntos e contidos querem fugir de mim.
Olhos vigilantes procuram nas entranhas ocultas do meu corpo um sinal de pecado. O espírito se faz iluminado pelos traços da consagração.
Consagro meu espírito aos prazeres que ele ousou experimentar. Devolvo para seu coro cada grão de areia, cada gota alheia que salga a água do mar.
A vila toda aguarda o momento em que as chamas ganharão o céu e a fumaça levará para o infinito a mensagem de que a justiça se cumpriu. O juiz guardará seu apetrechos, os pescadores voltarão para o rio.
O povo sairá contente e os padres celebrarão a missa. Buscarão crianças pobres, porque de falsos nobres a vontade já sumiu.
Tolos e tolas sentados nas suas próprias inquietações, agradecem as potestades e aos querubins, principados e serafins, mais uma chance concedida pelo Senhor para poderem esconder suas malícias e transbordarem o ar da pureza celestial. Eles verão a morte sem a morte lhes acariciar. Eles mostrarão aos fortes sua força estúpida e tola, envolta num presente promíscuo, casas de doces para brincar. Em cada brincadeira escondida, uma nova alma perdida perde seus dedos para contar.
Corpos vivos tropeçam nos cadáveres em decomposição. O cheiro podre da conspiração supera o odor do enxofre vindo do inferno que aproveita as fendas da terra para aparecer, brindar os convivas e depois saborear seu banquete, lambendo os dedos e deixando evidente toda vontade que tinha de comer.
O Diabo na sua forma mais aguçada de vilão, transita saltitante e esvoaçante, por entre os brados certos da condenação. Ele incita as palavras de ordem, conduz o julgamento, dispara a desordem. Que venha o metal quente e que o fogo consuma até as brasas, escondedo as frases que hoje viraram carvão.
Cães famintos sentam-se à mesa. Abanam o rabo esperando pelo pedaço de corpo que será lançado para eles nas profundezas. Seus latidos não são um coro angelical. São a segurança dos portões do submundo que guarda o segredo profundo de um inferno em decadência astral.
Fervilha o caldeirão com sua própria ebulição convidativa. Seu cheiro de resquícios saborosos torna a lembrança um lugar ativo. Transforma o corpo no seu próprio escândalo que desprende do sândalo seu escárnio destrutivo.
Nessa cena onde até mesmo a mais densa escuridão assusuta, não me assustaria se minha mente astuta estivesse a gargalhar. Rio diante da possibilidade temida de sobreviver. Morrer é silenciar o mundo das nossas tristezas. Viver é avisar ao mundo que no céu não tem beleza.
Carrego a condenação de viver a vida até o fim. Carrego a inquietação de não poder saber quem fugiu de mim. Em vales indigestos de ganância tola percebo que o nefasto é um dia quente brindado por uma tarde de garoa. A chuva trouxe numa contagem contínua, o brinde esguio de uma festa de menina. A chuva encheu meus lábios, preencheu minha boca e fez a minha garganta sentir o gosto da água pura mais uma vez. Que venha a fogueira, que ela faça arder o eu em mim. Não se faz rio sem corredeira, não existe começo sem antes partir de um fim.

Um comentário:

Oleni disse...

ão se faz rio sem corredeira, não existe começo sem antes partir de um fim. Ou o fim tem início no começo.