quinta-feira, 15 de julho de 2010

MEUS SONHOS DE MENINO


Reuni a vontade que rondava meu corpo e a expressei em versos tão absurdamente loucos, quem nem sóbrio mais, eu conseguia parecer. Abotoei a camisa, fechei o terno, prendi a cinta na minha calça larga e preparei a comida do amanhecer. Fiz do muro meu universo, pintei estrelas nas paredes que separam a rua do meu quintal e assim trouxe o céu para perto de mim. Brinquei nesse infinito, deslizei pelas bolhas de sabão e lavei toda a morada dos versos, motivos da minha ocasião. Gritei chamando anjos para o meu socorro e imaginei suas mãos acalmando meu espírito. Subi sobre suas asas que me chamavam de filho, encontrando sob seus cuidados minha proteção. Fazendo isso me tornei um morador celestial e um abençoado rebento, suavizado pelo alento do tom divinal. Colhi cada semente que não desejei plantar antes que elas virassem árvores com sombras que eu não gostaria de partilhar. Não fui o único jardineiro do meu pomar, não fui o único a desejar flores para o meu sonho de voar. Rosas que plantei e frutas que colhi foram as letras santas da vida que verti. Fiz do veneno o deleite da minha refeição e pude experimentar tudo que me faz mal antes da ceia, onde as crianças foram chamadas também. Experimentei dos versos destinados ao mal presságio e numa escura e monótona sensação, senti a dor recebendo adágio. Minha garganta emudeceu como num pesadelo do qual não consigo me livrar. Tornou-se aflita pelo desejo de falar, pelo desejo de fazer soar em suas pregas vocais os acordes que ecoariam pelo mundo como discursos sideirais. O brilho da minha boca absorveu a matéria sem luz e abocanhou um buraco negro que mandou eu me calar. Justamente eu, forasteiro desregrado no mundo da ordem! Eu, voz rouca no coro da orquestra filarmônica. Eu teria de me calar! Não aceito os convites feitos de forma tão despreparada. Não concordo com as ordens dadas numa regra em que a própria ordem é desordenada. Não aceito! Não me calo! Por mais que as vogais tenham se tornado raridade nos meus pensamentos, por mais que as consoantes tenham firmado outro juramento, eu não me calarei. Preciso escrever, porque é na batida certeira do meu peito que faço linhas e acertos. É na batida dos meus sentimentos que busco a fonte ilimitada da fuga para alçar a magnitude das expressões poéticas. Em cada verso traduzo as linhas do meu sentimento, em cada rima desvendo ironicamente o meu desentendimento. Não busco a estética, por considerá-la anestesiada. Descarto as regras por considerá-las maquiadas demais para o que eu quero dizer. Quero mostrar a pele crua ao entardecer, quero mostrar a ideia nua, arrumada apenas para o que eu quero ser. Cavaleiro dos cometas que reluzem pelo universo sem um caminho certo. Escudeiro dos asteróides que caem sorrateiramente explodindo a imaginação daqueles que acreditam nas estrelas cadentes. Quero cortar o corpo, para que o sangue seja visto como o combustível dos meus sonhos. Quero que o vermelho latente e vivo inunde cada espaço secreto do meu vazio. Quero transformar as letras no vestígio mais perene da minha opulência espiritual, escrevendo as regras da censura que reinarão com ternura no meu testamento habitual. Assim me farei entender para a folha das infinitas possibilidades. Assim me tornarei vivo quando meu corpo for entregue ao jardim da saudade. Somente assim saberei que apesar de não ser entendido, fui lido e refletido, só assim me entregarei para o túmulo jaz vencido.

2 comentários:

Tainara disse...

"Não aceito os convites feitos de forma tão despreparada. Não concordo com as ordens dadas numa regra em que a própria ordem é desordenada. Não aceito!"

Oleni disse...

Somente assim saberei que apesar de não ser entendido, fui lido e refletido, só assim me entregarei para o túmulo jaz vencido.Tétrico novamente.