domingo, 29 de março de 2009

TUDO SE DARÁ OUTRA VEZ

E quando isso tudo silenciar? Os sinos, um dia darão seu último badalo na torre central. Despedir-se-á o gótico, dará adeus o românico, será o barroco apenas um borrão na arquitetura celestial. Quando meus ouvidos não puderem mais captar as essências simples que tornam a vida verdadeiramente algo para se viver? Precisarei de meios desconhecidos, para, experiente e sincero, dizer apenas sobre o que quero conhecer. Quando eu não ouvir mais o barulho da louça, o barulho da porta, o barulho dos seus passos chegando? Quando eu não souber mais se é minha vida saindo ou minha morte entrando? Então verei minhas forças dizendo adeus.
Peço silêncio diante das coisas simples, mas sei que é chegada a hora em que a própria vida se desenrolará na quietude absoluta. Não falo do silêncio sensível, não falo apenas da audição. Falo dos barulhos que nos rodeiam. A sensibilidade poética, a consciência certa, e a própria percepção. Falo das coisas que mesmo sem ouvirmos estão nos presenteando com sua existência.
Com o tempo, perdemos pessoas, e elas passam a fazer silêncio para nós. A voz fica em nosso cérebro, em nossa razão, em nossa alma, seja lá o nome que isso tem. Primeiramente forte e saudosa. Então surgem os dias, os meses, os anos, enfim, essas sensações falsas que chamamos de tempo, calam as últimas lembranças, até que resta apenas um fio lânguido e tênue, uma imagem fosca e confusa, um cheiro que se vai, levado pelas forças que não nos dizem respeito.
É chegado o dia, e todos cairemos também nesse tom sepulcral de coro falido. Cairemos nesse abismo temporal de sonhos esquecidos. Seremos apenas uma imagem que perdeu sua moldura, um retrato guardado onde as câmeras jamais nos observarão outra vez. O vácuo será a barreira do infinito, e devo admitir que as luzes e o colorido ficarão para aqueles que souberem aproveitar. Não crio expectativas em torno do porvir, não lanço esperanças na tempestade que vem do além, e nem acredito que a noite poderá ver o despertar outra vez. Por isso gravo com a força da impressão que tenho, tudo aquilo que posso levar. Guardo meus tesouros ricos. Não são nobres, e variam de uma simples folha colorida, até um imenso rasante pelo mar. Sei que será esse meu combustível, quando o barqueiro trouxer o anjo triste para perto de mim. Sei que o lago se fará pelas virtudes abandonadas em tempo bom. Estou certo de que a viagem começa, quando essa terminar. Estou viajando solitário. Será uma partida solitária.
Posso ter tudo e todos perto de mim, mas quando o juiz chamar meu nome, e minha alma se fizer presente, estarei sozinho, mesmo que meu caminho, esteja iluminado e reluzente. A luz se levantará como bem supremo, só então saberei se as cores tem gosto, se as notas musicais são visíveis, se a poesia existe, se a alma expressa, se o coração lamenta. Responderei as minhas perguntas, ou farei novas indagações, sobre o princípio áureo do universo, e sobre o motivo reverso de minhas ações. Quem sabe troque de lugar com Perséfone e seja capturado pelo Hades. Terei então de ouvir Deméter negociar minha visita anual. Na minha estada, talvez até encontre Virgílio e lhe de novas idéias, ele então transmitirá a Dante, que poderá prosseguir em seus relatos divinos e cômicos.
Quantos reis conhecerei? Quantos conselheiros adotarei? Queria conhecer o Rei Lagardo, o King Lizard, o Grande Xamã. Será que terei de ir para África? Talvez ele já me aguarda, como o único amigo, para dizer que esse é o fim. Príncipes e princesas do mundo, deixem seus tronos para os serviçais, saiam do seu castelo imundo. Não é julgando o tempo pelos temporais, que se farão reis os vagabundos. Peguem os seus caixotes guardados, lustrem suas coroas. Só assim saberão que seu futuro desregrado, poderia ter se concentrado apenas, em lembranças de tardes boas.
Sentar em frente o rio, e deixar a correnteza cobrir as pedras. Ver a cachoeira. Fechar os olhos e ouvir a cachoeira. Tapar os ouvidos e sentir o cheiro da água. Trancar o nariz e absorver a energia da vida que vem das úmidas correntes. Impedir a pele de sentir, e conceder à boca o direito de provar. Fechar a boca, e aí então descobrir o ritual que nos permitirá conhecer verdadeiramente o que a simples cachoeira sempre quis nos mostrar.
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Um comentário:

Oleni disse...

Fechar a boca, e aí então descobrir o ritual que nos permitirá conhecer verdadeiramente o que a simples cachoeira sempre quis nos mostrar.
ADOREIIIIIIIIIIIIII.