sábado, 14 de março de 2009

UM ABISMO NOITE ADENTRO IV - O FIM



Encosto a cabeça na janela fechada, e tento equilibrar o carro, durante a dificuldade de uma curva, com o contrapeso de meu corpo. Por um instante senti o veículo perder a traseira, e com um impacto repentino, dar-me a impressão de que havia freado. Não sei se o mundo girou ao meu redor, ou se eu rodava o mundo, e tudo estava parado. Isso representava apenas o peso das minhas lembranças, das minhas punições, que não só aumentaram o peso da balança, e desceram seu prato abaixo da pena, como também me colocaram a mercê de Anúbis. Ancoraram minha razão em falsos julgamentos que não foram controlados pelos mortos. Deram-me o valor de flor comum, mesmo sabendo que eu representava uma lótus. Em que teia de resistência me perdi? Coloquei meus pés na água fria, e só então percebi que estava sozinho na banheira. Os rostos, as formas e a alegria de um novo momento, fazem esquecer o compromisso feito com o universo, num tom nitidamente estrelar de movimento. Agora não queria apenas um carro para controlar, mas uma nave que me levasse aonde nenhum homem chegou. Chegar à fronteira que separa o certo, da imaginação. Descobrir o que é apenas sonho, e o que é pura perdição. Quero submeter a rapidez da luz. Quero que meu nome seja escrito por uma constelação. Quero ficar eternizado no brilho das paredes, e ser lembrado como um diamante de tons colossais. Quero ficar preso na lembrança de um beijo, quero sobreviver à selva de animais. O mundo pode deixar uma parte de si ruir, eu quero, contudo, preencher a humanidade com um pouco de mim. Não quero mais me entregar aos pedaços. Não quero mais verbalizar o que eu acho. Quero esquecer o que disse, e quero me lembrar do que faço. Quero me entregar por inteiro, quero ser um ano completo, um calendário que não comece apenas em janeiro. Nessa hora de escuridão taciturna, fecho a conta da estrada, e saio escondido sob uma noite, encontrando apenas uma parada. Adorno você noite de céus perfeitos. Presenteio você com o brado salvo de um eleito. Faço dos meus olhos a razão do teu anseio, e perco minha boca numa tocha embebida em óleo, fogo aceso que incendeio. Desprezo seu vento, alvorada da paixão, entrego-me ao seu dia cheio, com toda perdição, entendendo que não se tem vida vazia, quem se encorajou a lhe dar a mão. Não esconde nos bolsos areia fria, quem amou por um verão. Não sei se consegui abrir as pernas dessa tábua de passar, não sei se guardei a sereia em meu corpo, ou se a devolvi ao mar. Quanto mais louco me encontro, mais quero me encontrar, e solto, vivo como louco, querendo sanidade buscar.
Entendi que quanto mais eu fujo, maiores são as chances de verdadeiramente me perder, cair numa cama com amnésia, e de fome, frio e sono, padecer. Nada do que ouvi serviu para eleger prioridades, nada do que senti serviu para acreditar que o mundo era uma verdade. Nada do que li me libertou completamente dessas vaidades, e vejo hoje que menti para mim, ao tentar evitar saudades. Mentiras jogadas nas lâminas, cortadas pelo peso da infâmia, espalhadas pela força do vento estúpido. Corpo esmagado pelas rodas, que foram lançadas pela ignorância dos escolhidos. Rodas de incultos, chatos pervertidos, disfarçados de intelectuais fortes e destemidos. Cuspes concentrados em gotículas que pareciam verdadeiros cristais, guardando as lágrimas vertidas, mediante o encontro de meus olhos com os punhais.

Um comentário:

sabine disse...

Um real abismo noite adentro, onde quase me obrigo a pedir mais um dose por favor, para saber se realmente consigo sentir o gosto de tudo aquilo que perdi e nem vi, mas de alguma forma ficou guardado em mim. Da mesma forma como guardamos velhas cartas e retratos na tentativa inutil de eternizarmos sentimentos e pessoas, que são passageiros sempre deixados em estações diferentes pra não mais se encontrar.