sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A ILHA DE BELEZAS NATURAIS

E Deus fez o homem do pó da terra, e soprou nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem se fez alma vivente! Será?
Bem que eu poderia tê-la feito eterna nas letras que saem de meus punhos e se acumulam sempre que paro para escrever. Eu bem que poderia ter feito isso, mas não havia como entender aquilo que você desconhecia e nem como imaginar quantos anos sua eternidade teria. Nas alturas inalcançáveis, que se ergueram nesse verão, limitei o pouso incerto de meus pés e o peso falho de minhas mãos. A loucura, essa companheira de batalhas, e amiga de noitadas, interpretou, como bem quis, as frases que foram passadas apenas com um obscuro desejo de informar. Após ter aberto minha boca, pouco me restava, coloquei minhas esperanças numa garrafa vazia, dei nela um beijo de solidão, e com as mãos em sinal de piedade acenei em forma de despedida, expressando um tom bucólico de adeus. As palavras já não eram o alívio que eu esperava, e nem me deixavam em paz. Traziam o desejo desumano do conhecido e a memória relutante em aparecer outra vez, do que eu já havia esquecido. Elas não continham porém, em sua liquidez, a certeza daquilo que se mostra nas noites enluaradas, onde as feras uivam mostrando seu lado arisco de animal. Noites onde cada passo é uma vitória, e chegar ao destino, é no mínimo uma esperança, quando na quietude do breu adormecido, a lua observa as folhas, que molhadas pelo orvalho da madrugada, saúdam o caminhante que se põem na estrada, buscando sua consolação. Após um dia inteiro de deleite sensível, eu ainda receberia um presente.
Se as tardes fossem sempre tardes, meu dia não sairia descabido, não teria os passos largos, e o peito silenciaria o gemido. A noite, essa vilã já citada, sucede as tardes quase eternas, mas isso não nos permite agir sob o princípio irracional da casualidade e afirmar se ela será boa, e também não podemos dizer que será ruim, se ela terá o cheiro vivo das rosas ou será, infestada pelo cheiro de um velório com flores de jasmim. E eu poderia tê-la feito letra serena, você que era grande e a noite que diante de ti estava pequena, buscado com meu tinteiro sua pele morena e arranjado um rascunho, para nele escrever sua resenha de amor. Fui mouro em batlhas perdidas, fui exército carregado de arsenais, fui trabalhador fugido, expulso a força de sua lida, fui Édipo, Ulisses e Aquiles nessas viagens colossais. De meu cavalete pronto para pintar, fiz crucifixo sem Cristo, e pude então, como um fiel devoto de santos dobrar os joelhos e outra vez rezar. Quis marcá-la com meus toques, quis molhá-la com meu suor. Quis ser um homem de sorte, e focar você de forma infinita, buscando encontrar ouro fino nas minas de teu corpo onde os outros viram pedra brita. Mas você quis se fazer escondida, quis se fazer sorrateira e voltou a ser menina!
Como pode um mesmo céu estrelado, banhado pela sedução de uma imagem refletida, ver o sorriso e a lágrima? Como pode o céu fechar-se estampado, e amar calado a menina e a mulher? Em braços apertados pelo laço forte do descaso eu descansei de ti. Agora não sabia mais o que estava vivendo, e onde os sonhos largaram as mãos da realidade. Nos pastos de capim colhido, eu corri atrás de vacas que carregavam o cupido, e me flechavam enquanto eu tentava escapar. A noite se mostrava como um baú de presentes imprevisíveis, e trouxe consigo os anjos sem asas e suas trombetas mudas."E eis que estou a porta e bato, se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa, cearei eu com ele e ele comigo". A voz foi ouvida, quando as liteiras já se encaminhavam para os aposentos reais. A mensagem foi sentida, quando as mães banhavam os filhos em outros mananciais. As portas se abriram, puxadas pelo sorriso que se espalhava e pelo desejo oculto de um exército cansado que espera a ordem de rendição. Só então eu a vi! Como a desejei naquela noite! Meus braços aguardaram radiantes sua cabeça, e meus ombros envolveram seus cabelos, que em desalinho faziam-se labirintos para os meus dedos. Onde estaria Teseu? Onde está o Minotauro? Se as testemunhas existissem no plano objetivo da ação, quem sabe eu temeria. Mas como apenas a televisão nos olhava, não havia pudor que pudesse nos impedir. O quarto fechou suas portas para tudo que o rodeava. Somente a nossa direita, a janela, em duas velas, se apresentava como os único olhar de nossos vestígios. Demonstrava assim, um outro mundo, com o qual não nos importávamos, e nem queríamos saber se era eterno, passageiro ou vão. Cobri você com meu corpo, dentro do abrigo que foi construído no espaço de um dia. Apenas olheiem silêncio, pois onde uma divindade depositou perfeição, nenhum mortal pode encontrar palavras para a descrição. Estava certo de que na quietude constante do silêncio, sobre você eu escreveria, mas não seria tolo de tentar completar sua alma, seus olhos ou sua boca. Nessa obra de simetria sem igual, fui apenas um expectador que o grande artista autorizou presenciair. Estava ali, como um homem de limites e exageros, de inteligência e besteiras, e esperei você dizer para mim que tipo de homem eu seria. Fiz colcha dos retalhos jogados, que foram amassados com as toalhas no chão, restos de uma roupa que sobrou e sobras de uma noite que restou. Fiz banquete das migalhas que caíram de sua mesa, e música com as poucas palavras que ouvi. Tudo estava acontecendo dessa forma desigual, onde alguém se entregava por inteiro, e o outro só queria um momento longe do mal. Com uma simples informação, obtida nas escadas que marquei, fiz pesquisas de amparo. Usei métodos que ajudaram a segurar minhas mãos, quando sozinho estava, mesmo tendo a certeza nítida me rodeava a multidão. Com as lascas soltas da madeira fiz minha casa e com o olhar trocado num combate infernal, fiz coração. Percebi nesse momento que não se imagina tudo, e nem se pode dizer com clareza se as coisas podem acontecer como imaginei. Fica difícil entender, mas nem sempre a ilha está rodeada pelo mar e o farol nem sempre indicará o verdadeiro porto para atracar. Mas nem por isso a beleza abandonou a ilha que se perdeu na tormenta. Sendo assim, subi motivado pelo encanto das nuvens que puxavam para seu parque os pedacinhos de algodão. Seduzido pelo açúcar que além de doce, queimava, tal qual a lenha da locomotiva, que ainda parada é carregada, contudo, não parte e espera na estação. Os passos ganharam cores, e as cores seguraram o tapete para que eu pudesse flutuar. Assim senti o vento batendo contra o rosto, e tomado de assalto, vi o sorriso ganhar a boca que você um dia ousou beijar. O calor que saia dela, subia como um vapor interessante, de horas marcadas pelo delírio e minutos relembrados pelo alcance.
A pira queimou madrugada adentro, ferveu os corpos em movimento. O fogo que criptava fazia um bom tempo, se fez de fagulhas, que lançadas no querosene explodiram em estrondosos trovões. Caiu a chuva imaginária, com gotas gélidas, formadas pela água que exalava o cheiro único do veneno. Molhada pela liberdade de poder gritar, outra vez a escuridão se fez presente. E os anjos deram adeus. E os anjos deram adeus! "Vai com os anjos, vai em paz, era assim todo o dia de tarde, a descoberta da amizade, até a próxima vez."
Estou novamente lançado à sorte de quem não quer adormecer. A solidão voltou intermitente, no instante em que levado pelo avanço das horas, devolvi seus braços, e busquei em ti aqueles que um dia foram meus. Devolvi as asas para a loja de fantasias, enquanto o único som que eu escutava, era a estridente voz do Diretor: -- Deixem agora a esperança vazia, e se desfaçam do torpor. Carreguem as festas para a luz do dia, e deixem a mesa para o degustador. Levem sozinhos o abrigo da casa, que ainda insistia buscar em ti a pena que ficou. Levem a verdade e não a pobre esperança da hipocrisia, sintam a verdadeira face da dor. Apenas deixem com o menino a sorte, a leve protegida até a morte, e devolva a vida para as brechas que a saudade tornou maior.
Enquanto o carro de Apolo apontava discreto, distante, e brindava uma nova manhã, eu levantava meu exército, e em marcha solene buscava outro afã.
Absolvo as intenções, esqueço as frases ditas pelo avesso. Esqueço as emocões , e busco apenas o que mereço. Uma vida de apostas pelo dia bom, um tapete claro com almofadas coloridas, uma barca nova com o mesmo endereço.

Um comentário:

João Victor disse...

é prazeroso entrar nesse turbilhão de metáforas e significados onde você deposita suas emoções, é ótimo encontrar a si mesmo entre frases saudosas e inspiradas. Parabéns!