domingo, 9 de agosto de 2009

DESPEÇO-ME AOS PRIMEIROS RAIOS DE SOL


Descobri que as abelhas não gostam mais do mel. Descobri que há muito elas abandonaram o gosto pelas flores. Carreguei um jardim ao lado delas, e as pequenas criaturas não se deram conta disso.
Choveram pétalas nas minhas costas, justamente quando meu corpo se aproximava do despenhadeiro escorregadio. A sensação humana de uma feiticeira pulando sobre elas, se traduzia pelo cheiro da fantasia que acompanhava a suavidade das flores. Sonhei.
Chegou a hora do despertar. O relógio chama, praticamente obriga o corpo a se levantar. Á água já escorre quente pelo chuveiro. O espaço para o banho é tão pequeno, que tenho medo de não conseguir tomar banho junto com a delícia dos meus pensamentos.
Chama ao longe a Aurora Astral. Envia os ventos gélidos para buscar a história, que já garantia sua vitória, e por isso não queria embarcar no tempo.
A história, que escondia a sensibilidade de um poeta sob um corpo forte, mostrava-se amável apenas na madrugada. Nas altas horas da noite ela respirava sua própria carne, pensava num pedido da própria vontade, e assustada aceitava mais uma solicitação do seu suor vertido.
A história que odiava a burrice das portas, que não tolerava a transparência falsa das janelas, beijava os sapos principescos e pedia a explicação sobre a Cinderela. Agora é tarde, a meia noite chegou e a Cinderela morreu. Seu corpo não pode ser velado, seria uma vergonha para seu reinado. O sapato pontilhado por cristais de gelo ameaçava derreter.
Não vá embora, fique um pouco mais, só você fechou meus olhos, lançando a pedra distante, fazendo com que eu não quisesse olhar pra trás. Percebi que nesse jardim secreto, onde as águas brotam da terra e o retrato prende um rio, torna-se infinito o céu sem razão.
Não vá embora, fique bem aqui. Sussurre doces notas e dance num compasso voraz. Faça roupa da pele, faça guerra da paz. Esse é apenas um pedido, você pode desistir. Quando minha cabeça busca o vácuo, ela só quer brincar, não foge para um barraco, nem procura a sorte pra voar.
É cedo, é tarde, é dia, é noite, é desconcertante e intenso, eu já nem sei mais! Minhas mãos estão trêmulas e é difícil resistir.
Experimente os sentidos. Aceite os pedidos. Veja aquilo que não é costume, provando agora com perfeição. Ouça o sussurro do cardume, peixe no aquário da solidão. Sinta a brisa molhada das cachoeiras. Prove o sabor da sensação. Cheire a variação derradeira, resposta do aroma que o vinho traz. História, nessa paisagem verdadeira ninguém conseguiu fazer tão bem como você me faz.
Agora é tarde para procurar as pedras e vestir uma roupa nova. Vamos para onde noite leva, carregaremos toda a prova. É exagero, pode até não ser, mas o que você sabe ninguém sabe fazer.
A noite está despertando e podemos ver a cidade. Janelas apedrejadas fazem espuma transformando o som da idade. Sobe correndo, por um beijo anuncia a ânsia da saudade.
Deixa o medo rolar pelo despenhadeiro. Que caiam os muros do mundo inteiro
E que o resto seja apenas um ponto perdido em seu espelho. Um ponto que se afasta sem saber, um universo que se aproxima de mim. Lá vem ela e posso ver. A escultura mágica se apoderou desse homem. Flores no quintal.
Demoramos tanto tempo para dormir juntos, e na hora do café, a solidão serviu a mesa. Guardou as experiências noturnas, servidas como sobremesa. Doces me fazem mal, por isso sirvo-me desse prato como banquete principal.
Não vá embora, o dia acabou de nascer, e a janela, apenas transpira o nosso suor. A mão escorregou pelo vidro, deixando o caminho pelos dedos percorrido.
Esconde-nos essa névoa de calor, atrás do torpor vergonhoso que não deixamos nos influenciar.
No jogo falso das cartas perdemos os valetes, apostamos no 3 e jogamos o rei. Resplandece a dama com seus braços torneados sua carta morena e seu corpo abençoado.
Invoco o deleite que desce pelas encostas, invoco a força retratada nessas costas. Faço pedidos para o anjo sem nome. Trago escrita a verdadeira história de um sonho.
Quero passar todos os dias pensando num dia só, escondido sob a própria pele. Quero sonhar com minha criança passada, e inventar guloseimas para me divertir. Lavar o carro do autorama, molhar a grama e poder sorrir. Comer um bolo com chocolate quente, recheado com leite condensado em potes que não merecem tradução. Respingar na camiseta da paz a dança dos pingos de um pedido na ilusão.
Não posso pedir, Não vou tentar, Já não posso subir nesses trilhos ligados. Até gostaria que cada degrau se repetisse numa imensa escada. Num prédio repleto de bocas que se abrem para ver o mundo passar. O mundo faz barulho! Em cada barulho um coração pronto para enfartar.
Devore-me tempo consumido. Devore-me ano que não acabou. Na forma de tiro estampido, uma arma nova que não disparou.
História das minhas mãos, história dos livros meus. Dentre todos que me cercam seus braços são os mais forte que vi. Os mais quentes que senti. Aquilo que por bons sorrisos me segurou.
Mas agora você foi embora, Só me resta olhar pra trás e me acostumar com o silêncio dessas noites. Esconder-me sob a mesa vazia sem pizza, e ter a certeza de que aquela porta não se abrirá mais.


2 comentários:

Oleni disse...

Chegou a hora do despertar. O relógio chama, praticamente obriga o corpo a se levantar. Á água já escorre quente pelo chuveiro. O espaço para o banho é tão pequeno, que tenho medo de não conseguir tomar banho junto com a delícia dos meus pensamentos.Qualquer coisa que dissese estragaria a beleza do texto.

Sacha disse...

Quero sonhar com minha criança passada, e inventar guloseimas para me divertir. Lavar o carro do autorama, molhar a grama e poder sorrir. Comer um bolo com chocolate quente, recheado com leite condensado em potes que não merecem tradução. Respingar na camiseta da paz a dança dos pingos de um pedido na ilusão.


Como é bom relembrar. ;*