segunda-feira, 3 de agosto de 2009

VERSOS DE OUTROS VERSOS

Sempre quis provar que não precisava provar nada, assim eu tentava mostrar para os outros que a explicação para o que eu sentia estava muito além de mim. Esperei alguém me chamar, e me fazer acreditar num sonho, acreditar numa história. Encontrava um abrigo naquilo que eu esperava. Às vezes mentia pra mim mesmo e acabava sendo o pior dos mentirosos. Enganando-me com palavras superficiais, mergulhei nas profundezas das dúvidas que se despediram daquilo que poderia respondê-las.
Não sei o motivo das coisas, não sei como elas acontecem. Mas elas me fascinam com seu jeito de ser. Quando menos percebi, estava esquecendo das explicações, e sorrindo sozinho a tarde, aguardando o dia surgir depois de uma noite bem ou mal dormida. Esse sorriso me conquista quando aparece sorrateiro querendo não querer. O acaso faz por mim o que a razão nunca fez. Ele pede para que eu arrombe a vida, invada cada centímetro do futuro, e não peça permissão para voar. Nesse mundo complicado, em que as pistas estão sempre cheias de regras, meu aeroporto se fez num espaço livre, e sei que posso fazer o que me faz bem. Posso brincar de descobrir desenhos onde os outros viram apenas riscos, posso transformar meus pesadelos em sonhos infantis. Posso criar jardim de simples ramalhetes.
Vejo sozinho o que outros gostariam de ver, e eu sei mesmo sem querer saber, que você vê o mesmo que eu. Não importa se foram 8 ou 12 palavras, traga mais duas, faça vinte e duas palavras. Não importa se ainda serão 40, 80, 90, o quanto não sei. Importa a delícia envolvente que se manifesta em cada despertar. Juntos vemos um mundo colorido sem portas ou janelas. E num tom de azul que encanta o universo, se desenrola o pergaminho que traz da alma a poesia nerudiana.
Podemos ser brindados pela deliciosa margarina derretendo, enquanto ocupa com o seu calor todo o corpo da torrada, ou ouvir o bom dia cifrado de Elvis nos brindando, diretamente de Las Vegas, fazendo o mundo esquecer que o homem chegou a lua. Para que lua, se as estrelas ganharam o dom de controlar os mares?
Os versos parecem repetidos em suas palavras, mas existe por acaso alguma palavra que ainda não tenha sido dita? O que existem são sentidos que ainda não foram atribuídos, explicações que ainda não cursaram seu périplo total de situações.
O que preciso é apenas atenção. Essa atenção dirá para mim quem sou. Essa atenção me fará perceber o que eu não gosto, e me fará desejar o sabor ingênuo daquilo que provo. Você ficou com a minha música, provamos juntos o som das melodias.
Nunca se chega ao bastante, sempre se quer mais.
Aproveitar o primeiro momento pode ser guardar para si a lembrança da última chance.
Isso é um tesouro!
É a riqueza oculta aos olhos de quem não quer ver, ou não sente a alma lapidada o bastante para perceber que o sol está dando bom dia todas as manhãs.
O sol brilha do alto do seu esplendor e assim consegue transmitir calor, para quem aceitar seus raios, e estampar no peito o reflexo de mais um dia sem nuvens. Assim diremos adeus a dor, pois o desejo de todo sofredor é encontrar algo que possa lhe garantir ao menos um minuto de prazer. Quero apenas uma chance pra tentar viver sem dor. Deita aqui perto de mim, e com simples palavras versadas, ouvirei uma serenata representada, justamente por você que nunca falou muito.
Aquelas coisas metafóricas querem dizer algo que todo mundo sabe, mas as pessoas não percebem, justamente por estarem envoltas em mesquinharias que as tornam órfãs de sentimento. Fazem perguntas demais, e esperam respostas que eu não tenho. Não brigarei por causa disso. Apenas devo dizer que já me acostumei a encarar seu rosto, a ouvir sua voz, a ser despido pelo seu olhar. Isso me faz sempre tentar encontrar uma forma de resolver suas indagações. Acompanho você me acompanhando, só assim percebo que não estou só. Será que isso tudo não é nada do que estou pensando? Se não for, ligarei o sinal de alerta, e saberei que isso pouco importa.
Quando olhei pra frente, pude ver um dos mais belos quadros que as circunstâncias criaram. Até quis evitar, mas não pude reagir. Vi a locomotiva cruzando o caminho, onde o menino até então soltava pipas, e agora precisava guardar os brinquedos e parecer um homem adulto. Nessas circunstâncias, o melhor seria não resistir e se entregar ao espaço nítido das emoções guardadas. Tolice seria guardar todos os medos para viver a vida sem aventuras. A loucura de procurar sorrir é apenas um alerta que diz que a razão não é o melhor dos ingredientes quando queremos experimentar o mundo seguindo num trem azul.
Um desenho de traços perfeitos. Um desenho que imaginei, consertei, e que fiz como quis, só para poder ficar olhando sem temor. Flores de um jardim plantado nas margens dessa rodovia que chamamos de vida. Flores em vasos singelos e frágeis, intocados. Flores como amor-perfeito, quando ainda podia passear livremente pelas esferas do pensamento subentendido, e agora flores não-te-esqueças-de-mim, quando ser importante para você, passou a ser uma das coisas que eu mais quero.
As intenções não são como parecem ser, elas sempre escondem aquilo que mais querem. Por isso precisamos acreditar que sempre há como aprender a ser melhor. Mais uma dose, é claro que eu tô afim. O feitiço jogado sobre a vida nos faz bem. Ele demonstra um prazer distinto, uma sensação desconhecida. Algo que sempre se quer, algo que se quer bem. Um tudo guardado na menor partícula do tempo, que inteiramente lançado na memória, se transforma naquilo que mais gostamos.
A ceia está posta no Éden. Caminhando com o cesto de frutas, chapeuzinho vermelho se encontra em perigo. Ela vai pela estrada, buscando emoções e despertando os sentidos. O banquete tem frutos proibidos. O anjo traz a espada para expulsar. Em sua boca uma folha de hortelã, que refresca suas palavras, reflete em suas asas o céu, e o faz mirar determinada a maçã. A chave do pecado está entregue. Á água pura se tornou veneno. Não foi transformada em vinho. Mas é nela que os convivas querem se embebedar, se esbaldar. Querem se lançar em encanto, em canto, em coro celestial, nos quatro cantos do carnaval. São os olhos do futuro nas taças dos olhares profundos. São o esporte, contando em cenas pelo livro aberto. São a sorte, encontrada apenas quando se fez a escolha. São para sempre, como tudo aquilo que se guarda. São a expressão das mãos dadas em sinal de amizade, deixando sucumbir a vontade. São o antes, com a garantia de que alguma forma inexata e imprecisa virá depois. São os raios do calor que dispensam a coberta num dia frio.
“Feche os olhos, esconda o sorriso, e bendiga ao Senhor: Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, tende piedade de nós, Cordeiro de Deus que tirai o pecado do mundo, dá-nos a paz”

3 comentários:

Oleni disse...

Podemos ser brindados pela deliciosa margarina derretendo, enquanto ocupa com o seu calor todo o corpo da torrada, ou Quem sabe se a essência da vida está nas coisas simples.

Bruninha disse...

É incrivel como você consegue colocar tanto sentimento em palavras, consegue expressar tão bem o que sente, o que pensa e tocar no mais profundo de seus leitores.
Mais uma vez, adorei seu texto!

Beijos.

Bruninha disse...

Esse texto me cativa.
Tenho um carinho especial por ele..

Beijinhos