domingo, 16 de agosto de 2009

O MUNDO DIZ ADEUS - MANHÃ

A vida estava dando adeus. Acordei envolto num silêncio como nunca antes acontecera. Percebi o quão longe cheguei nessa batalha. Sonhos deixavam de ser sonhos. Dormir era a única maneira de trazer alívio para o peso da existência. O pesadelo começava ao acordar, exatamente no instante em que os segundos eram superados com o êxtase de se ter obtido mais um pouco de mel.
A dureza do relógio competia com a leveza do fôlego que lutava cada vez mais desanimado contra sua falta de ar. Não era isso que eu queria para mim. Não era isso que a vida queria para si. Não foram essas as cartas que embaralhei. O jogo estava na sua rodada final.
Andrajosos seres de maiúscula magnitude imploravam pela salvação. Essa mensagem de conforto tinha ficado pregada numa cruz, e os seus anunciadores estavam morrendo doentes, como todos estavam. A humanidade estava doente. Os seres humanos pediam socorro.
Os dias que precederam essa última noite que eu viveria foram dias turbulentos. A marca da tinta nos quadros romanescos do sentimento, escorreu até o chão e criou novas imagens. Diante disso, fechei os olhos buscando um mundo melhor. Gritei com as mãos nos ouvidos para não escutar as evidências de que o mundo não é como imaginei. Não consegui tirar meu corpo daqui. Não expulsei minha alma atormentada para longe de mim.
Alma presa no meu corpo. Alma presa no meu dorso. Como quis que ela fosse correr lá fora. Como quis que ela deixasse tudo para esquecer. Não posso voltar os caminhos agora, percebo que minhas asas ficaram à mercê.
Ansiava por uma queda livre que me fizesse acordar quando estivesse prestes a tocar o chão. Para onde foram meus heróis? Onde está aquele que prometeu me salvar? Nos sepulcros selados da morte viril, percebi que a fraqueza atordoa aqueles que verdadeiramente desejam lutar. Rouba-nos as últimas chances da fala, e leva as muletas tortas, que usávamos para andar.
Os principados e potestades ocultaram sua face. Asas e harpas estão abandonadas no galpão de coisas velhas. O céu silenciou. Até o carteiro que levava as preces, deixou a entrega por achar o seu trabalho inútil, e também pelo fato de que ele próprio desistiu de iludir as almas. No brilho da eternidade longínqua, aposentadorias são concedidas. Não há mais trabalho, não há mais laser. A lenha arde, crepitando na fogueira. Aquece os caldeirões que servirão o último banquete. Banquete de nós mesmos.
Parecia que encenávamos uma grande peça. Expressávamos com realismo a obra de Giovanni Boccaccio. Cumpríamos fielmente as páginas de Decamerão. Dez dias. Dez jornadas soltas pelo espaço de um tempo que se escreveu sobre tumbas e sobre vitoriosos.
Colhíamos o resultado daquilo que não plantamos. Colhíamos amigos em vozes que eram de louvor. Víamos se cumprir aquilo, que para não sofrer, jamais imaginamos. Com inocência, construí minha casinha de madeira, dei a ela um som da pura substância, e nas suas paredes pintei a sombra do que eu viveria.
Fiquei atordoado pela resposta silenciosa da ausência. Isolei as letras irônicas numa redoma cercada de clemência. Não foi suficiente prometer o espaço nobre das memórias. Não foi o bastante escrever no paraíso o conto de mil histórias. Soluços acompanham o brinde. Soluçando ouvi o tilintar dos cristais que eu não trouxe.
Pablo Neruda, que se safou da desgraça e divinizou seu nome pelas letras do coração, era relembrado agora. Sua forma atemporal de escrita podia ser invocada pelo amor ou pela dor a qualquer momento. Suas palavras diziam:

O Caminho molhado pela água de agosto
brilha como se fosse cortado em lua cheia
em plena claridade da maçã,
em metade da fruta do outono.

Neblina, espaço ou céu, a vaga rede do dia
cresce com frios sonhos, sons e pecados,
o vapor das ilhas combate a comarca,
palpita o mar sobre a luz do Chile.

Tudo se reconcentra como o metal, se escondem
as folhas, o inverno mascara sua estirpe
e só cegos somos, sem cessar, somente.

Somente sujeitos ao leito sigiloso
do movimento, adeus, da viagem, do caminho:
adeus, da natureza caem as lágrimas.
(Soneto LXXIV)


2 comentários:

Tainara disse...

"Dormir era a única maneira de trazer alívio para o peso da existência."

Oleni disse...

Ansiava por uma queda livre que me fizesse acordar quando estivesse prestes a tocar o chão. Para onde foram meus heróis? Onde está aquele que prometeu me salvar? ???????????????????????????nós matamos nosso heróis!!!!!!!