domingo, 16 de agosto de 2009

O MUNDO DIZ ADEUS - NOITE



Levantei do meu leito, verdadeiro depósito da minha energia, e vi um mundo desolado. Algumas pessoas haviam resistido, eu estava entre elas. Nosso organismo nos havia condenado a relatar os últimos dias da história humana na terra. Despedimo-nos de todos, e na hora derradeira não restou ninguém para se despedir de nós.
Sobrávamos como verdadeiros acusados, sentenciados a pena da sobrevivência quando todos dela se despediam. Nossa pena era a culpa pela total destruição.
Animais nos olhavam como vitoriosos. Não tínhamos sequer a vontade de protestar. Convencidos da nossa fatalidade, certos de que não completaríamos idade, estávamos ao ponto de gritar para o maquinista, e pedir para ele parar de uma vez por todas esse trem. Todos queriam saltar do último vagão. Queríamos apenas o barulho tranqüilo de uma estação.
Como brigávamos em outros tempos. Como fomos mesquinhos na nossa ganância por gratidão. Tudo que foi feito se desfez. Não tínhamos mais músicas, não tínhamos mais som. Era o silêncio da morte que tomava uma forma acidentada de elegias e odes ao desconhecido.
Vida que te quero vida:
Tua mão foi voando de meus olhos ao dia.
Entrou a luz como uma roseira aberta.
Areia e céu palpitavam como uma
culminante colméia cortada nas turquesas.

Tua mão tocou sílabas que tilintavam, taças,
almotolias com azeites amarelos,
corolas, mananciais e, sobretudo, amor,
amor: tua mão pura preservou as colheres.

A tarde foi. A noite deslizou sigilosa
sobre o sonho do homem sua cápsula celeste.
Um triste olor selvagem soltou a madressilva

E tua mão voltou de seu vôo voando
a fechar sua plumagem que eu julguei perdida
sobre meus olhos devorados pela sombra. (Soneto XXXV – Pablo Neruda)

Era diferente viver. Os dias não eram mais separados pelos nomes. Confundíamos a dor de um sábado a noite com o cansaço de uma segunda. As semanas e os meses ficaram nas contagens antigas. Foram sepultadas no passado seleto.
De que valeu tudo isso? Com lágrimas nos perguntávamos! Ninguém havia para ouvir a pergunta. Todos morreram. Seríamos os últimos a chegar. Ao céu das celebrações e alegria eterna. Ao inferno das chamas e lástimas atemporais. Ao purgatório das crises existenciais, ou a nada que sepultou o último suspiro da chance. Para onde iríamos?
Sinto o sangue na garganta. Sinto o peso do mundo sobre meu peito. Deito na campina, minha última cama, vejo o céu e as aves que alegremente saúdam a nova estação. Contemplei a natureza viva, e a esperança morta. Consolidei meus passos na última parada. O coração ficava sonolento, e não mais batia forte, apenas palpitava preguiçoso. Dores no peito, mas não de amores experimentados e momentos desfeitos. Dores da despedida.
A vida que tanto amei, a vida que celebrei, abandonava-me agora. Ela não era a primeira a fazer isso, mas era a única partida que eu não poderia evitar.
Nunca soube experimenta-la direito, nunca soube provar seu verdadeiro gosto. Fiz perguntas demais, e não fiquei contente com as respostas. Ela sempre quis ver o meu sorriso, e eu julgava a vida por não me dar motivos pra sorrir. Ele me alegrava na perda do juízo, e eu queria diante dos seus olhos padecer.
Fui poeta de letras ligeiras, fui cantor de músicas curtas. Minha poesia será enterrada junto comigo. Quantos versos trancados na minha alma, quantas frases fiquei sem dizer. Não é a esperança repleta que me acalma, e a certeza de que as palavras estão a morrer.
Fecho os olhos e me cubro com o manto do inevitável. Não foram cenas minhas últimas lembranças, mas o som do inesgotável. O vento continuava soprando fiel sobre meu corpo. Os pássaros não se davam conta da despedida. As visitas continuavam sendo recebidas, como planos de um plano exultante, e eu, somente eu no meu universo precário dava adeus ao mundo que criei.
Comigo acabava meu universo particular, cultivado sob o sol da esperança de sorrir verdadeiro e de um dia deixar de sonhar.

5 comentários:

Tainara disse...

"Sinto o sangue na garganta. Sinto o peso do mundo sobre meu peito."

Sacha disse...

Nunca soube experimenta-la direito, nunca soube provar seu verdadeiro gosto. Fiz perguntas demais, e não fiquei contente com as respostas. Ela sempre quis ver o meu sorriso, e eu julgava a vida por não me dar motivos pra sorrir.

Nunca nos está bom o suficiente...

Oleni disse...

Fiz perguntas demais, e não fiquei contente com as respostas. É verdade.

Bruninha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruninha disse...

É assustador o fim, que vem tão de repente, sem aviso prévio, assim como todas as incertezas que ele traz consigo.

Adorei o texto!