sexta-feira, 7 de agosto de 2009

NECESSIDADE

Uma madrugada de alentos e tempos tão ligeiros como o próprio pensamento, que confabulou consigo mesmo uma nova forma de encontrar uma ampulheta de areias infinitas. São sinais de que a vida é a surpresa itinerante que carregamos conosco, e que cada parada pode trazer um refrigério para os passos já traçados e para o caminho já percorrido. Afinal, as sensações carregam os homens como pernas invisíveis e renováveis.
Beijo o véu da madrugada com o toque sereno dos lábios que pedem mais. Beijo a madrugada como um penitente que subiu as escadas de uma grande catedral, que agora se tornou agora seu hotel, e encontrou a santa, divinamente posta e pronta para abençoar. Sentada nas escadas, aguardando o pecador chegar.
Lábios gananciosos que ardem, que incendeiam sua própria carne pedindo para que a noite se estenda, e que o alto envolver da lua traga um pouco de frescor. Uma Santa que estende suas mãos e deixa beijar, retribuindo uma oferenda que o fiel lhe deu.
Camas no quarto dos sonhos, enquanto a cabeça deixa rodar os vários filmes que carregam a memória. Lençóis se desenrolam e se abrem como cortinas de uma janela que anuncia o paraíso. O inferno torna-se o fogo que a lua jogou no sol, e as águas são o poço onde a a cabeça afunda para refrescar a consciência de que a madrugada logo se despedirá.
Adentrando ao jardim dos sonhos proibidos, a busca pelo desconhecido se torna real. Aventura como frescor dos ventos do bem querer, aventura que acena para a inocência perdida, deixada de lado em prol do saboroso temor de que a noite está acabando. Refrigério da ingenuidade, envolto pelo ar quente dos corpos que se aproximam na distância de uma noite.
Respirações turbulentas, olhos que se cruzam como cavaleiros em batalha, quando o corpo jaz deitado na campina verdejante abraça com toda a força a oportunidade que lhe escapará quando a hora chegar. Cavalo real de Dom Quixote que leva em suas costas a princesa quando ela está cansada. Seguida pela aia que de longe reclama da distância que se criou.
Um jogo de sentimento que pode levar a loucura. Uma loucura recebida como penitência santa, pois só a lembrança de cada instante seria o suficiente para aceitar a entrega da sanidade. De que adiantaria a razão de uma vida sem aventuras? Assim é melhor entregar-se a loucura e à espera sublime dos corações. Ninguém andaria até os confins da terra apenas pelo toque da carne. Ninguém abandonaria sua esfera segura por um peito sem saudade. A saudade se forjou no abrigo quente e vermelho de um peito que palpita com frescor.
E esse tempo maldito diz adeus. Esse tempo maldito reserva para si o gosto de ver a sensação do presente se distanciado cada vez mais. Não são pelos risos, nem pelos pensamentos que voam em todas as direções, mas pelo prazer de lançar as mãos e os pés numa corrida desenfreada pela surpresa guardada. Sim, é isso que faz tudo passar tão ligeiro.
O toque reverenciado dos lábios abre as portas do infinito. Transforma em ouro a pedra de granito, e torna rico cada anoitecer. Lembranças que se transformam num esforço que é impossível esquecer. Assim a alma se presenteia, se ilude, se perde e se ganha ao mesmo tempo, numa premiação de vitória, de sabores e de dores que não fazem sofrer. Viva Camões estendido nas camas que as fotografias ocultaram e que a lembrança eterniza em cada olhar.


Um comentário:

Oleni disse...

Um jogo de sentimento que pode levar a loucura. Uma loucura recebida como penitência santa, pois só a lembrança de cada instante seria o suficiente para aceitar a entrega da sanidade. De que adiantaria a razão de uma vida sem aventuras? Assim é melhor entregar-se a loucura e à espera sublime dos corações. Ninguém andaria até os confins da terra apenas pelo toque da carne. Ninguém abandonaria sua esfera segura por um peito sem saudade. A saudade se forjou no abrigo quente e vermelho de um peito que palpita com frescor.
.Ninguém faz nada por nada