sábado, 15 de agosto de 2009

REVIVER WOODSTOCK

Woodstock foi a beleza e o prazer concentrados sutilmente num evento como um grande bolo doce com cerejas e chantilly. A superação incontestável da criatividade de uma geração. A demonstração nítida de que é possível promover algo que fique para sempre escrito na memória. A prova de que a vontade é a mãe de tudo aquilo que se quer lembrar.
Foi o momento mais intenso que o mundo viveu. Surpresas que até então não tinham sido experimentadas souberam dar aos participantes uma dose de lembrança que nem as eras do gelo ou não, poderão apagar.
Poderia ser refletido pela eternidade adentro, caso fosse reproduzido no Salão de Espelhos do Palácio de Versalhes, já que esse salão sempre foi reservado para grandes ações. Lados vencedores que exultavam a hora chegada.
Gira o espelho. Gira o mundo todo ao seu redor. Mesmo olhando lúcido para ele, vejo sua superfície embaçada. Mesmo achando que é cedo, adentro aos portões da madrugada. Um reflexo de tudo o que eu quis ser, de tudo que hoje sou. Um momento em que me guardo secreto para mostrar que nesse deserto, água pura já se provou.
Corpos em sintonia com o universo em movimento deitavam sobre o chão de vidro. Esbaldavam-se nas sensações que aquelas longas horas podiam proporcionar. Foi intenso, foi surreal, foi inesquecível. Surpreendente.
Quando palavras e gostos brigam pelo espaço das bocas, pode-se dizer que a fome é insaciável. Jogar palavras para o espaço, correr para buscá-las, e trazer preso nos braços um presente para exaltá-las. Assim foi Woodstock.
Não digam os admiradores das doutrinas falsas que foi apenas Sexo Drogas e Rock And Roll. Esse olhar superficial sempre correu o risco do equívoco, já que é justamente nas profundezas do inteligível que habita a função do existir. Foi muito mais do que aquilo que ousam dizer.
Foi o sexo pela vontade de estar perto. Vontade de abraçar e fazer carinho, numa troca de experiências que o mundo não entenderia. Foi carne com peito oferecido como travesseiro. Tempo que reclamava pro tempo do tempo que passava ligeiro. Corpos sem censura que sentiam a vontade de se olhar sob a benção certa da ternura. Jovens com segredos entre si. Jovens que sentiam o prazer na conversa, que faziam de tudo para o outro rir. Depois que os dias terminaram a falta se fez sentir. Faz falta a certeza de que é possível ser feliz.
Foram drogas da poesia, feitas num tom de improviso ou buscadas nos celebrados autores, que tornavam os pretensos escritores verdadeiras feras prontas a rasgar tudo que escreveram. Eles sabiam, porém, que sobre aquele momento, palavra nenhuma teria efeito completo. Nem mesmo um vocabulário inteiro alcançaria aquele instante em que a terra podia tocar o céu.
Foi Rock and Roll na força do termo. Refletiu a intensidade de uma rocha rolando pelos precipícios nos caminhos do universo, acertando mortais que tentavam escrever seus versos. Foram músicas da noite. Músicas mandadas num tom de cumplicidade como nunca antes fora feito. Letras e canções procuradas e ouvidas como forma de dizer boa noite.
Não estive lá. Meus sonhos me conduziram aquela fazenda no Estado de Nova York. O que plantaram ali? Plantaram uma semente fortalecida pelo tempo que rende frutos saborosos. As melhores uvas rendendo os melhores vinhos. Não era Cabernet, talvez fosse uma autêntica Malbec com seu fino trato. Dando prazer ao paladar, como nesses dias concede prazer ao olfato.
Pessoas que estiveram lá, hoje se encontram no auge da sua idade. Carregam consigo olhares que guardam um segredo, cruzam esses mesmos olhares trocando informações entre confidentes. Já foram jovens loucos. Já foram jovens vivendo tão intensamente aqueles momentos, que caso seus dias acabassem ali, poderiam dizer ter valido a pena. Estiveram lá. Experimentaram Woodstock que derramava sobre suas bocas todo seu sabor doce com ação afetiva.
Trovões anunciaram a chuva! E como choveu! Baldes, panelas, lixeiras, todo recipiente possível era usado na tentativa de tirar a água que transbordava. Pessoas corriam com suas camisetas molhadas atraindo assim toda atenção ao redor. Camisetas que colavam, como uma vontade que não quer nos abandonar. As gotas quentes pelo verão do hemisfério, selavam cada centímetro daqueles tecidos. Pessoas molhadas iam à cama, sentindo que a liberdade verdadeiramente lhes dava permissão para se deitar.
Após viverem o inexpressável partiram para casa, com a finalidade de consolar o choro dos amigos. Deixaram apetrechos para trás. Partes da festa que não puderam ser levadas. Deixaram em cada metro quadrado uma marca de si mesmos. Jogaram garrafas e roupas pelo caminho, como uma forma de agradecer a terra por tudo que havia feito.
Hoje cartas anônimas resplandecem a perfeição de tudo aquilo. Nomes que se ocultam atrás de nomes como forma de esconder a face rubra e surpreendem pela força da descrição. Frases guardadas como o tesouro em um baú escondido.
Agosto de 1969, um mês que ficará pra sempre guardado por causa da sua história. Foram almas se encontrando em inteligência. Foram corpos dançando sem clemência. Danças trocadas por outros sonhos inimagináveis. Pela primeira vez o exercício foi feito. Exercício de pele, exercício de intelecto. Músicas que já tinham tocado outras vezes, mas que agora pelo torpor instantâneo da sedução, ganhavam notas repletas de suavidade celeste. Cor do céu.
A intensidade que foi Woodstock será algo lembrado para sempre e sempre. Nossa sorte é de que os sons daquele agosto continuam ecoando, e continuarão por quanto tempo seus participantes quiserem. Nada faz tão bem quanto a lembrança do que é bom.

3 comentários:

Tainara disse...

"A intensidade que foi Woodstock será algo lembrado para sempre e sempre..Nada faz tão bem quanto a lembrança do que é bom."

Oleni disse...

Agosto de 1969, um mês que ficará pra sempre guardado por causa da sua história. Foram almas se encontrando em inteligência. Foram corpos dançando sem clemência. Danças trocadas por outros sonhos inimagináveis. Pela primeira vez o exercício foi feito. Exercício de pele, exercício de intelecto. Músicas que já tinham tocado outras vezes, mas que agora pelo torpor instantâneo da sedução, ganhavam notas repletas de suavidade celeste. Cor do céu.
Eles fizeram o que muitos gostariam de fazer e por hipocresia ou preconceito não fazm.

proffabricio disse...

Quem diria os picaretas estão crescendo. Sempre apelando e desrespeitando seus alunos.
A tua sorte é eu não te encontrar na rua... Vagabundo......