domingo, 16 de agosto de 2009

O CHEIRO SE DESPEDE, APROVEITE O DIA

Sol que te quero quente, para onde seus raios apontam essa tarde? Calor que te quero quente, para onde você foi quando as janelas se quebraram?
Noite adentro, céu de estrelas, mundo meu, paisagem derradeira. Senti o calafrio no peito aberto. Manchei o azul da vida celeste com as areias secas e tenazes do deserto.
Construí as entranhas da terra, e joguei nelas meu alívio imediato. Percebi que a noite dos sonhos é aquilo que nos anima a viver mais um dia. Sem eles muita coisa não se escreveria.
O passado é uma verdade que não fugirá jamais. Aquilo que minha cabeça guarda está protegido como um tesouro no final da jornada. Onde estão as jóias estava o coração como guerreiro protetor.
Nada apaga as escritas estrelares, nada substitui os dias reservados. O que acontece é apenas um encontro com a realidade que sempre esteve ali. O som dos segredos silencia. A cumplicidade das amizades perpetua. Os corpos morrem enquanto as lembranças vivem para sempre.
Tinha apenas livros. Tinha apenas formas e escudos. Tive apenas a audácia de desafiar a mim. Justo eu que nas sentenças iguais escrevi minhas notas, encontrei uma música diferente de tudo que já havia escutado. Som que tocou alto e cobriu com fogo o inverno gelado.
Depois de velho, senti a criança que um dia abandonei. Achei que ela não fosse me procurar outra vez, mas vi o pequeno eu me levando pra brincar. Como me diverti naqueles parquinhos! Fui criança solta pelas campinas, fui moleque travesso apostando corrida nas subidas, fui fotógrafo das águas correndo, ganhei da vida minutos eternos quando já estava perdendo.
Não há nada errado com o tudo. Tudo está bem, e no lugar em que devia estar. Eu é que desloquei meu mundo, por um instante inesquecível fui livre pra voar. Eu abandonei a sentença, eu abandonei minha segurança. Tudo que viceja, um dia agoniza. Tudo que vivemos um dia se eterniza. E na tarde de hoje são outras lembranças que vívidas tomam o lugar da história. Outros cúmplices e outras memórias.
Não tenho direito de pedir. Trouxe uma bagagem em minhas costas que não tive tempo de guardar. Não sabia que nessa viagem chamada de vida poderia nova vida aproximar. Perdi as contas e me atrapalhei nas letras. Engasguei-me com o gelo quando tomei a água do meu whiskey. Viva o sentimento das coisas que não compreendemos.
Se fosse outra vida, se a vida ao menos tivesse livre, saberia que minha cadeia tinha guardado o carinho em suas celas. Mas ela estava presa como eu. Ela guardava um segredo valioso, ela garimpava pedras em tom ruidoso.
Dorme com a lembrança dos carinhos, dorme com o gosto das amoras. Nada passa assim sozinho, nada jogará o passado aberto para fora.
Tudo está bem. Tudo está onde deveria estar. Eu que me perdi no desconhecido que sonhei, eu que me permiti ter asas pra voar. As correntes continuam segurando as lembranças, elas sempre continuarão. A vida seguirá acesa como sempre prosseguiu. As conversas trarão cumplicidade como sempre se viu.
Estou aqui para ouvir, estou aqui para falar. Só não peça para sentir aquilo que não vou levar. Sei que dessa vez contei uma história diferente para mim. A história que suplantou todas as histórias que já li. Não senti vontade de escrever outros contos, não senti vontade ler outros cantos. Silenciei no mosteiro. Agradeci ao Senhor:
Pater noster, Qui es in caelis, sanctificetur nomem tuum.
Adveniat regnum tuum.
Fiat voluntas tua, sicut in caelo et in terra.
Panen nostrum quotidianum da nobis hodie.
Et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostri.
Et ne nos inducas in tentationem: sed libera nos a malo.
Amen.
Não posso, porém, rezar sozinho. A alegria da salvação recai sobre outras almas, que talvez não acreditem tanto nessa beleza única. Duvido que busquem conhecer tão bem as palavras santas da prece celestial. Não experimentam nos lábios o gosto divino do toque divinal, mas devem rezar. Rezam para os santos, rezam para o próprio céu.
Viagens em torno do mundo próximo, viagens que imaginei serem somente minhas. Como fui criança no solo inóspito, como dirigi os planos na cozinha!
Momentos, momentos e momentos. Tudo segue o presente da hora. Momentos que passam para o portal eterno, momentos que guardam secretos a história de uma vida. Instantes, instantes e instantes. Deixam na estante o retrato do passado, abrem a porta que tocou. Partem para seu mundo do universo alado, dizem adeus porque outro instante chegou.


6 comentários:

Tainara disse...

"Sol que te quero quente, para onde seus raios apontam essa tarde? Calor que te quero quente, para onde você foi quando as janelas se quebraram?"

Sacha disse...

(...)Tudo que viceja, um dia agoniza. Tudo que vivemos um dia se eterniza.

Como eu amo tudo que escreve.
Parabéns professor.
Abraços.

Maris Morgenstern disse...

oi, hoje tem festa surpresa lá no http://questaodeafinidade.blogspot.com/, não esquece de passar lá marcar presença,
a Bruninha merece.

Daiane Pereira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daiane Pereira disse...

"Viva o sentimento das coisas que não compreendemos."

Viva , porque o que não compreendemos é mais emocionante...

Oleni disse...

Depois de velho, senti a criança que um dia abandonei. Achei que ela não fosse me procurar outra vez, mas vi o pequeno eu me levando pra brincar. Como me diverti naqueles parquinhos! Fui criança solta pelas campinas, fui moleque travesso apostando corrida nas subidas, fui fotógrafo das águas correndo, ganhei da vida minutos eternos quando já estava perdendo.
É a criança do passado que nos indica o futuro..