segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

SINTA O QUE O MUNDO PODE LHE DAR

Acordei, com minha alma saciada por uma noite bem dormida. Sentindo o corpo regenerado, e coberto com as marcas dos lençóis. Olhos fechados sob o peso da necessidade e da escuridão de um quarto, que me presenteou com seu cuidado. Os sonhos assumiram o papel dos Reis Magos em viagem a Belém, e me visitaram como há muito tempo não faziam. Entregaram-me seus agrados, tentando talvez retribuir as noites que fugiram desgovernados, abandonando à própria sorte seu filho, que escolheram por bem deixar órfão. Senti que a atmosfera se fez gélida para brindar meu corpo quente, e com seu choque térmico permitir um deleite único, e um a conversa profunda com Morfeu. Sei que a vida espera sempre ansiosa, pela manhã que renova nossos horizontes. Só não tinha certeza de que ela estaria ali, na esquina de meus braços, esperando. Para minha surpresa a encontrei outra vez, calma e serena, como a deixei. A impressão que tive, é que ela sequer esboçado algum movimento. Não esperei pelo acaso incerto do destino inesperado, e rapidamente peguei em sua mão e comecei mais um dia de meus dias.
Quando olho para trás, (com o olho literal ou simbólico, não importa) penso em tudo que passou, vejo como são caudalosas as lembranças, e como se enquadram num contexto impossível de reviver, e improvável de relembrar, já que com o tempo, nossa memória se acostuma a nos pregar algumas peças. Quando tento saber para onde irei, percebo que não sei o destino, e para falar a verdade, nem faria questão de saber. A dúvida do meu próximo minuto me faz entender que pouco tempo me resta, por isso não posso desperdiçá-lo com coisas que não me interessam, valorizo então, muito bem os passos que agora me conduzem. São eles a única certeza que brinda minha taça de expectativas de um novo caminho.
Entendi que o que chamamos de vida, nada mais é do que uma sucessão de fatos e impressões vividas. Experiências, sensíveis ou não, nos fazem acreditar no continuísmo que nos apetece. Os sentimentos, felicidade e tristeza, por exemplo, tidos como verdadeiros, são apenas focos isolados de um mundo complexo. O que nos fará concluir se fomos felizes ou não, será justamente a continuidade e a periodicidade com que esses focos aconteceram. Comparo isso que estou dizendo, com aquela brincadeira infantil, de pegar um bloco de papel, e fazer um desenho com posições semelhantes em cada folha, depois, passa-las todas de uma vez, só para ver a imagem desenhada se movendo (alguns como Walt Disney até ganharam dinheiro com isso!). A imagem na verdade não se move, não há movimento num desenho estático, mas a sucessão de imagens semelhantes nos dá a idéia de mobilidade. Vejo nossos momentos dessa forma. Aparentemente independentes, sozinhos, mas que unidos a outros instantes nos dão a nítida impressão seqüencial. Não há tristeza ou beleza no desenho. Existe em nós a pré-disposição de efeito. O fato em si não é provido de sentido ou sentimento. Somos nós que imprimimos nas coisas a força que elas têm. Isso dá margem para um raciocínio longínquo e conturbado, e não estou disposto a desenvolve-lo. Não quero ser iconoclasta. Estou disposto a ser Aleijadinho, e construir santos, ou pelo menos mantê-los na cabeça de quem os tem.
Hoje estou meio pragmático, menos analítico, e talvez até superficial. Não quero saber a origem das coisas, não quero entender seus reflexos e suas conseqüências, quero apenas sentir o que é bom. Procurando a resposta para as coisas, percebi que me perdi em novas perguntas. Duvidei de tudo que vi, ouvi e senti, não percebendo que a dúvida estava me trazendo uma angústia indubitável. Descartes que me perdoe, mas as vezes acreditar faz bem, e não colocar tudo num plano cartesiano pode até ser satisfatório. Para que perder tanto tempo em falácias que mais parecem discursos de sofistas embriagados? Talvez na simplicidade das coisas diárias é que encontramos a resposta para aquilo que não ousamos questionar. Temos medo da simplicidade, como se com ela viesse abraçada a ignorância. Será necessário sofrer para ganhar ou constatar inteligência? Será necessário refletir para provar a própria existência? O que afinal estamos buscando nessa labuta diária? Hoje eu não sei, e afirmo que não me interessa saber. Sei que vivo, sei que escrevo, sei que amo. Qualquer um que ousar demonstrar numa tentativa simples que seja, que estou errado, será escorraçado, como Tieta fora por Jorge Amado em 1977, com uma diferença: Não poderá desfrutar do retorno triunfal. Não poderá dar o troco a Zé Esteves. Aliás, Zé Esteves se manifestará em todos aqueles que julgarem meus pensamentos como liberais e insanos demais. Como cantou Raúl: “Eu quero mesmo é cantar yê yê yê, eu quero mesmo é gostar de você, eu quero mesmo é falar de amor, eu quero mesmo é sentir seu calor”. E mais adiante ele continua dizendo “Eu quero mesmo é rimar amor com dor” É isso que hoje quero para mim. Uma experiência única de que a vida pode ser vivida apenas sentindo o vento soprar sobre meu corpo, trazendo o frescor das manhãs ensolaradas que se encontram aqui, ou no paraíso, que aguarda aqueles que foram simplistas o bastante para apenas acreditar.

2 comentários:

Casa do Besouro disse...

Agradeço o comentário no meu blog; fico satisfeito de ver que há pessoas que acompanham e gostam do que eu escrevo, e vendo seu blog, vejo que você também escreve muito bem.

www.casadobesouro.blogspot.com

Stéfani disse...

muito muito bom! sou sua aluna, e adorei seu blog ;)